O que há de errado com o Código Florestal
O debate sobre o Código Florestal tem estereótipos muito bem definidos. A discussão se polariza e se transforma numa batalha entre os que querem destruir o meio ambiente, os ruralistas, e os que lutam para defendê-lo, os ambientalistas. Olhando para o problema dessa forma simplória, o julgamento é imediato. Entretanto, a despeito da improbabilidade de alguém, em pleno século 21, continuar empenhado em destruir o meio ambiente, é esclarecedor nos fazermos a seguinte pergunta: a agropecuária brasileira quer mesmo desmatar mais? Qual é a razão do descontentamento com a lei florestal? O que incomoda o setor rural no Código Florestal é que ele joga o custo da preservação ambiental apenas nos produtores.
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Não é a primeira vez que esse debate vem à tona. Em 2002, no final do governo Fernando Henrique Cardoso, o Congresso tentou modificar a medida provisória por meio da qual o código vige. Houve um embate encarniçado entre os ruralistas do Congresso e os ambientalistas que resultou no arquivamento da proposta. Desde a instituição do nosso primeiro Código Florestal, em 1934, durante a ditadura Vargas, são recorrentes as tentativas de modificá-lo.
O debate sobre o Código Florestal tem estereótipos muito bem definidos. A lei é tida de forma quase dogmática como uma das melhores e mais avançadas leis de proteção ambiental do mundo. Logo, sempre que alguém tenta modificá-la é rapidamente rotulado como alguém que quer destruir o meio ambiente e qualquer um que se coloque contra a alteração recebe o rótulo de protetor do meio ambiente. A discussão se polariza e se transforma numa batalha entre os que querem destruir o meio ambiente, os ruralistas, e os que lutam para defendê-lo, os ambientalistas.
Olhando para o problema dessa forma simplória, o julgamento é imediato. Entretanto, a despeito da improbabilidade de alguém, em pleno século 21, continuar empenhado em destruir o meio ambiente, é esclarecedor nos fazermos a seguinte pergunta: a agropecuária brasileira quer mesmo desmatar mais?
Seguramente, deve haver alguém, em algum lugar, que queira, mas nem de forma muito irresponsável essa pecha pode ser jogada sobre todo o setor agropecuário. A senadora Kátia Abreu (DEM-TO), que também é presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e representa o setor rural sindicalizado, publicou artigo em que advoga o desmatamento zero na Amazônia e na mata atlântica. Então, qual é o problema? Se os produtores rurais não querem destruir o meio ambiente, qual é a razão do descontentamento com a lei florestal?
O que incomoda o setor rural no Código Florestal é que ele joga o custo da preservação ambiental apenas nos produtores.
A nossa lei florestal obriga cada proprietário de imóvel rural a manter dentro dos limites de sua propriedade uma área de floresta, a chamada reserva legal. Essa reserva legal varia de tamanho de acordo com a localização da propriedade. Nas florestas amazônicas ela é de 80% da área do imóvel, nos cerrados amazônicos é de 35% e no restante do País é de 20%. Isso significa dizer que o proprietário rural não pode utilizar a sua propriedade como bem entender. Parte do seu direito de propriedade é sacrificado em nome de um benefício coletivo maior. É esse sacrifício que faz a lei ser percebida como uma legislação avançada e há todo um arcabouço legal - constitucional e infraconstitucional - que o legitima.
Mas não é esse o problema fundamental. O problema é que o fato de o proprietário não poder utilizar sua área da forma mais eficiente em termos econômicos faz com que ele incorra em perdas financeiras e a lei reza que esse é um problema, única e exclusivamente, dele.
Imagine-se uma propriedade de mil hectares em São Paulo - onde a reserva legal é de 20% - arrendada a uma usina de álcool. O imóvel é todo ocupado com cana-de-açúcar, que deverá virar biocombustível no final da safra, ocasião em que o proprietário receberá, digamos, R$ 300 por hectare com o arrendamento da fazenda. Ele receberia, então, R$ 300 mil por ano pelo aluguel do imóvel. Mas ele tem de manter uma reserva florestal de 20% da área, logo, ele só pode ter 800 hectares de cana e tem a obrigação, por lei, de reconstruir a mata original nos 200 hectares de reserva legal. Por outro lado, com apenas 800 hectares em produção ele terá uma redução na sua receita anual de R$ 300 mil para R$ 240 mil e ainda precisará investir pesadamente na reconstrução da floresta original da reserva legal, sem saber como fazê-lo. Imagino que apenas Deus saiba como construir uma floresta original.
Esse raciocínio pode ser estendido a qualquer propriedade rural, bastando substituir o porcentual de reserva legal e o valor da terra de acordo com a localização do imóvel e refazer as contas. É precisamente esse efeito do Código Florestal que causa a maior parte da motivação para os esforços de alteração da lei. É muito mais uma questão de preservar a área agrícola existente do que de aumentá-la com novos desmatamentos.
Há, sem dúvida, várias outras inquietações que a essa se somam. Alguns proprietários cumpriram a lei de 1934 e viraram criminosos em 1965, quando o código foi alterado; há alguns que cumpriram as exigências da lei de 1965 e viraram criminosos em 1996, quando a lei foi alterada novamente; alguns compraram de boa-fé áreas sem floresta e agora têm de internalizar o passivo. O tema não é simples.
É um desrespeito à sociedade brasileira reduzir o debate do Código Florestal a uma guerra entre ruralistas tentando destruir o meio ambiente e ambientalistas tentando salvá-lo. O Brasil precisa de leis realmente capazes de proteger os seus biomas sem que o setor rural reste inviabilizado. E não são os ruralistas que mais têm a ganhar com isso, é o meio ambiente, a princípio, e o povo brasileiro, ao cabo. A sociedade merece uma discussão racional e séria sobre o Código Florestal.
O artigo foi publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo
Material escrito por:
Ciro Siqueira
Engenheiro Agrônomo, geomensor, M.Sc. em Economia Ambiental e pós-graduado em Geoprocessamento
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SÃO PAULO - SÃO PAULO
EM 09/07/2021
O primeiro passo seria de parar de desmatar ilegalmente.

OUTRO - SANTA CATARINA - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 09/12/2009
Gostaria de agradecer as cartas que recebi em relação ao artigo "O que há de errado com o Código Florestal" publicado originalmente no Estadão e republicado no Beefpoint. Decidi entretanto responder a todas em conjunto. Nem mesmo é uma resposta o que ou gostaria de fazer. Eu gostaria de fazer um desafio a vocês.
Qualquer setor que estivesse sofrendo os abusos que o setor rural brasileiro vem sofrendo já teria se revoltado. Os estudantes já estariam nas ruas a muito tempo, os trabalhadores sindicalizados das capitais já estariam nas ruas a muito tempo, o MST já estaria na rua a muito tempo. O MST é um movimento criminoso, mas que foi apoiado pela opinião pública porque foi capaz de escancarar para a sociedade o problema que os afligia. Por mais errados e criminosos que eles sejam, eles são muito mais politizados do que vocês produtores. Vocês não cometem nenhum crime e a sociedade precisa saber disso.
Vocês não podem ficar parados achando que agricultura é importante demais para ser destruída pelo governo. Ela é, mas o governo só vai descobrir isso depois que todos vocês tiverem presos, expulsos de suas terras ou gastando o seu dinheiro para fazer um bonito jardim para o mundo. Saiam de cima da maldita cadeira onde vocês estão sentados.
Liguem agora para o presidente do seu sindicado rural. Exijam que os presidentes dos sindicados acionem a federação do seu estado e façam a pressão chegar à Brasília pela Confederação que os une. Liguem, mas não apenas reclamem das leis, se disponham a botar suas colheitadeiras nas ruas, a derramar parte das suas colheitas numa BR qualquer, a atravessar seus tratores nas estradas ou a levá-los novamente até Brasília, fechem 20% do movimento do Eixão de Brasília ou das Marginais do Tietê e expliquem aos cidadãos urbanos engarrafados que é isso o que vocês estão sofrendo, se disponham a soltar uma carreta de boi na Praça da Sé para os cidadãos urbanos aprenderem que bife não dá na gôndola do supermercado e aprenderem como é difícil lhe dar com eles vivos.
Está na hora do setor rural parar de ceder espaço aos ambientalistas. Vocês são os verdadeiros ambientalistas desse país. A produção rural do Brasil é do interesse da sociedade. A sociedade brasileira precisa e quer produção agrícola e são vocês produtores que têm que mostrar isso a ela. São vocês quem têm que mostrar à sociedade que agricultura não é inimiga do meio ambiente. Vocês têm força, vocês têm representatividade, vocês têm dinheiro, mexam-se.
Ciro Siqueira
Engenheiro Agrônomo.
Veja quem é o Presidente da Federação da Agricultura do seu Estado:
http://www.canaldoprodutor.com.br/

SÃO PAULO - SÃO PAULO
EM 08/12/2009

LAVRAS - MINAS GERAIS - TRADER
EM 08/12/2009
BALSAS - MARANHÃO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 08/12/2009

MACAÉ - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 08/12/2009
Ou nos unimos e elegemos um número significativo de defensores dos Produtores Rurais ou seremos massacrados mais do que já estamos sendo.
Sugiro ao nosso conceitudo Milkpoit promover a apresentação, através de entrevistas, dos políticos atuais que estão comprometidos com a nossa classe para que todos nós possamos conhece-los e também divulgá-los em nossos meios, lembrando que o Milkpoint tem uma abrangencia nacional em todos os rincões deste país.

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 08/12/2009
CONCEIÇÃO DE MACABU - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 06/12/2009
CAMBUQUIRA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 06/12/2009

SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE GADO DE CORTE
EM 05/12/2009
1º)A área de preservação permanentre (artigo 2º) deveria ser incluída na área de reserva legal (artigo 16º), para todos os proprietários, independente de ser grande ou pequeno produtor.
Aquele produtor rural que não tem área de preservação permanente na propriedade deverá executar a reserva legal dentro da propriedade.
2º) O artigo do diz o seguinte: "Consideram-se de preservação permanente, pelo só efeito desta Lei, as florestas e demais formas de vegetação natural situadas:
Na alínea "a" , "c", "d","e", "g" "h"esta regulamentado.
Na alínea "b" diz o seguinte:"ao redor de lagos, ou reservatórios d´águs naturais ou artificiais"
Nesta alínea não é estabelecido a metragem. Aí vem um Resolução Conama 302/02 que regulamenta este artigo. Na minha opinão eu acho que o Congresso brasileiro em Brasilia deveria estabelecer na alinea "b" deste mesmo artigo que a área de preservação permanente deveria ser de trinta (30) metros, pois resolveria muitos problemas. Hoje área de preservação permanente nas margens de represa hidrelétrica é considerada de 100 metros, consequentemente ninguem cumpre a legislação. Muitos empreendedores fizeram loteamentos nas margens da represa hidreletrica e construiram residencias nas respectivas áreas, porém alguns proprietários estão obrigados a demolirem o que construiram e outras estão isentos. Já que todo mundo é igual perante a lei, resolveria muito se os nossos deputados que estão em Brasilia, incluissem nesta alínea a faixa de preservação permanente fosse de 30 metros. Por exemplo, aqui no Estado de São Paulo, principalmente no interior do Estado, As Cias. de Geração de Energia, não tem cumprido integramente o seu passivo ambiental, desde que formou os lagos artificias, ou seja, tem executado muito pouco sobre o reflorestamento em sua área localizado na área de preservação permanente. Se a metragem diminuisse, seria possível que talvez, a CESP, AES Tietê, a Duky Energy, consiguisse cumprir com este passível ambiental. Portanto o ganho ambiental seria enorme. Além de que seria possivel também a regularização de muitos loteamentos existentes nas margesns das represa hidrelétricas, pois seria possível a sua regularização.

SÃO PAULO - SÃO PAULO
EM 04/12/2009
Assim margem de rio, ou x% se não tiver rio, podem ser protegidas e o demais de plantação de arvores de produção com rotatividade.
Pode também ressarcir com a "carbon tax"
Mais primeiro é de parar o desmatamento (desde a data da lei )
Uma idéia de não especialista.

GUARATINGUETÁ - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 04/12/2009

VIÇOSA - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 04/12/2009
Parabéns pela lucidez!

JATAÍ - GOIÁS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 03/12/2009
Esta é uma situação delicada. Pois quem está do outro lado (Ministério do Meio Ambiente, ONG´s ambientalistas), estão unidos e têm pressa na aprovação desse código. E mais uma vez quem sai perdendo é a classe produtora.

LAVRAS - MINAS GERAIS - TRADER
EM 03/12/2009
Veja a questão dos níveis de emissões dos veículos. Hoje, com uma frota mundial de bilhoes e, perspectivas de dobrar nos próximos 40 anos, qualquer discussão, seja ela cientifica ou não, que mencione mudanção climatica, há que passar pelo escapamento dos carros. Medidas para redução dos niveis de emissões já foram tomadas, mas com o crescimento exponencial da frota, tudo será perdido. E, qual o debate que está sendo travado quanto a isto. Muito pelo contrário, estamos é vendo medidas de encentivos a compra do carro zero, como se este nada emite.
O que se espera, é uma ampla discussão, notadamente, não se abrindo mão da parte cientifica, para se chegar a uma legislação justa e, que não venha penalizar o agronegócio no seu todo.