O impacto da seca nas safras brasileiras de café

O potencial de produção de cada safra não foi obtido em nenhum dos anos de 1999 a 2001, apesar do uso de fertilizantes e pesticidas ter ficado bem acima da safra recorde de 2002, que conseguiu atingir o potencial produtivo apesar do reduzido uso de insumos. Pelo menos uma parte deste fenômeno pode ser explicado, sujeito à confirmação por agrometeorologistas, pelo nível insuficiente de chuvas nos anos de 1999 e 2001, ao contrário do nível pluviométrico normal verificado em 2002.

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Existe muita discussão no mercado cafeeiro sobre o impacto da seca nas safras brasileiras de café. Para ilustrar este debate, é importante olharmos o que tem acontecido no passado recente. A tabela abaixo mostra as safras brasileiras estimadas pela EMBRAPA/CONAB e pelo USDA para os anos de 1999 a 2002. Estas safras efetivas são comparadas com o potencial teórico da safra de cada ano, de modo a encontrar a perda de safra respectiva.

O potencial de cada safra é obtido multiplicando-se a área em produção em determinado ano pela produtividade média de acordo com a tecnologia então prevalente (espaçamento, manejo, irrigação, etc) e assumindo que o clima tenha se comportado normalmente, ou seja, sem geadas ou secas. Em outras palavras, o potencial de produtividade corresponde aproximadamente à safra grande (do ciclo safra grande - safra pequena) mais próxima do ano em questão.

O uso de pesticidas e fertilizantes foi obtido das respectivas associações de indústrias. Apesar do fato que estes insumos deveriam, idealmente, ser medidos em peso ou volume, chegamos à conclusão de que os valores em dólares são um bom indicador do seu uso nas lavouras no período em foco.

Figura 1

O que a tabela mostra é que o potencial de produção de cada safra não foi obtido em nenhum dos anos de 1999 a 2001, apesar do uso de fertilizantes e pesticidas ter ficado bem acima da safra recorde de 2002, que conseguiu atingir o potencial produtivo apesar do reduzido uso de insumos. Pelo menos uma parte deste fenômeno pode ser explicado, sujeito à confirmação por agrometeorologistas, pelo nível insuficiente de chuvas nos anos de 1999 e 2001, ao contrário do nível pluviométrico normal verificado em 2002.

Os dados acima nos levam a especular que a dificuldade em atingir o potencial da safra está associado à falta de chuvas, ou seja, à seca. A safra potencial foi alcançada em 2002, quando o consumo de fertilizantes e pesticidas foi menor (no próprio ano e no anterior), porém o nível de chuvas esteve normal. Esta conclusão é uma provocação que merece ser verificada pelos especialistas em suas respectivas áreas, pois pode vir a se tornar uma informação valiosa para a modelagem de futuras safras.

É assustador que, dependendo da estimativa de safra utilizada, o Brasil pode ter perdido de 19 a 35 milhões de sacas devido à seca nos anos de 1999 a 2001. Isto é ainda mais preocupante porque essas secas não tendem a causar impacto substancial nos preços pois não são severas ou abrangentes, mas brandas e localizadas, porém com forte efeito cumulativo, ao contrário de uma grande perda que poderia ocorrer em um ano isolado.

Por mais simples que os argumentos acima sejam, eles merecem uma reflexão maior...
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Material escrito por:

Carlos Henrique Jorge Brando

Carlos Henrique Jorge Brando

Engenheiro civil pela Escola Politécnica da USP; pós-graduação à nível de doutorado em economia e negócios no Massachusetts Institute of Technology (MIT), EUA; sócio da P&A Marketing Internacional, empresa de consultoria e marketing na área de café

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Marco Antonio dos Santos
MARCO ANTONIO DOS SANTOS

VALINHOS - SÃO PAULO

EM 31/03/2008

Prezado Sr. Carlos Brando,

Seu texto e sua reflexão são muitíssimo oportunas, pois no contexto em que vivem os cafeicultores, a seca hoje se torna o vilão da produtividade potencial. Nos anos de 1998 a 2000 foram observadas secas intensas e prolongadas o que afetou sobremaneira a produção de café tanto a do ano como a do subsequente, pois como é de conhecimento os ramos desenvolvidos num ano servirão para a produção do ano subsequente.

E como a seca prejudicou este crescimento a produtividade foi baixa. E apesar de ser observado chuvas regulares nos anos de 2001 e 2002, a produtividade não atingiu o seu potencial, apesar da super-safra colhida em 2002.

E este fenômeno nunca irá acontecer, acho muito difícil a planta conseguir atingir sua máxima produtividade ou sua produtividade potencial, pois há inúmeros fatores que contribuem para isso, desde fatores climáticos até adubação, pragas e manejo do mato, que fazem uma grande diferença.

Portanto, acho delicado falar somente em seca. Eu desenvolvo, há algum tempo modelos matemáticos de previsão de safra, e infelizmente nosso entrave, ou seja, nosso calcanhar de Aquiles é saber (estimar) a produtividade potencial daquele ano safra.

Concordo que a seca é sem duvida nenhuma um dos fatores que mais prejudicam a produtividade, mas tem que se levar em conta a temperatura e a radiação do local também, pois são fatores que influem diretamente na fotossíntese.

Portanto gostaria de deixar nesta carta minha opinião sobre este assunto tão polemico. Também é de conhecimento geral que as previsões em alguns períodos são de cunho politico, apesar de ter um grande embasamento científico, a previsão tem seu lado subjetivo. Pois as previsões são feitas através de avaliações por pessoas ao campo, e sabe-se que a visão de uma pessoa pode ser diferente da visão de outra pessoa. Deste modo, acho prudente que nós, que trabalhamos no agronegócio café, tomássemos inúmeros cuidados ao tomar decisões nesta área.
Alexandre Miranda Leão Teixeira
ALEXANDRE MIRANDA LEÃO TEIXEIRA

VARGINHA - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 20/03/2008

Todos fazem comentários sobre os prejuízos causados pela seca mas fica sempre uma pergunta em questão? Será que estamos aproveitando a água da chuva ou estamos o tempo todo disperdiçando este patrimônio da natureza. Acredito fielmente que há várias soluções para este problema fora a irrigação, é nossa obrigação cuidarmos e aproveitarmos da água nos dada pela chuva. Temos que quebrar conceitos na técnica de produção e avaliarmos maneiras para mantermos está água no solo por muito tempo, em minha região já existem conduções diferenciadas para tal fim. Em vez de ficarmos lamentando pelas mudanças climáticas vamos aproveitar toda a água nos dada pela chuva, existem formas e maneiras para a solução deste problema basta largar o tradicionalismo e a mesmice e trabalharmos de forma racional e inovadora.
Juliano Tarabal
JULIANO TARABAL

PATROCÍNIO - MINAS GERAIS

EM 18/03/2008

Como sempre muito precisas as palavras do Sr. Carlos Brando. Permita-me tirar uma conclusão do referido artigo. Já que temos o advento da irrigação, desde que as condições financeiras do produtor permitam o uso da mesma, não podemos mais "sofrer" e perder com o infortúnio da seca.

Tecnologias devem ser aplicadas e estimuladas, pois uma irrigação bem manejada é muito eficiente e auxiliadora da produtividade.

Juliano Tarabal
Luiz Devos
LUIZ DEVOS

SACRAMENTO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 17/03/2008

Seria muito prudente que tal raciocínio fosse extrapolado para a safra deste ano. Aí sim, creio que teríamos números mais reais da safra a ser colhida. Calando assim estes futurólogos interessados em prejudicar os produtores com previsões sem embasamentos ou fundamentos legais e plausíveis. Aproveitando ainda o espaço para lembrá-los que esta safra vem também de uma forte seca por ocasião das floradas nos cafeeiros, além de tudo com calor acima da média para a época, prejudicando ainda mais o vigor da planta. Aproveito o ensejo para parabenizar o Dr. Carlos Henrique, pela feliz lembrança e excelente trabalho.