Nada Será Como Antes
O início do Século XIX foi marcado por uma longa e amargurante crise do mercado do café, como acontece de tempos em tempos. Apesar de apresentarem uma temática absolutamente semelhante, em cada quadro sempre são retratados elementos inéditos, que acabam por criar a identidade daquele momento. "...foi quando observou-se o quanto o canephora havia tomado espaço do arabica...".
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Dois elementos saltaram aos olhos do mercado: o primeiro foi o exuberante aumento da produtividade média das lavouras cafeeiras do Brasil, que saltou olimpicamente de parcos 8 sacas de 60 kg/hectare no final dos anos 80 para mais de 23 sacas/ha; o outro, o surgimento de um novo país revestido de nova potência da cafeicultura, que era o Vietnan, que estava superando a Colômbia e assumindo o posto de segundo maior produtor mundial de café. Café da espécie canephora, é certo, porém um volume suficiente para ficar com folga à frente da Colômbia e todos os seus arabicas.
Enquanto isso, o mundo que consome café, a bebida quente mais consumida de todos os tempos, experimentava também uma formidável transformação, ampliando suas fronteiras como nunca, conquistando povos e esquinas até então inexploradas. Definitivamente beber café se tornou um hábito elegante e pleno de prazer ao redor do mundo.
O Espresso alcançou uma projeção até então impensável, assumindo o posto de Grande Embaixador das xícaras do Negro Vinho através das Competições Mundiais de Baristas (WBC – World Barista Championship), iniciadas na Europa e, em seguida, nos Estados Unidos até ganhar o Mundo.
Em meados dos anos 2.000, as cotações do mercado de café cru voltaram a assumir trajetória de subida, estimulando a renovação das lavouras decadentes, investimentos em maquinários de processamento de pós colheita e, como não poderia deixar de acontecer, novos investidores entrando no rol de cafeicultores. As novas tecnologias de produção adotadas no Brasil constroem lavouras de maior produtividade e de menor tempo necessário para sua primeira grande safra, entre elas as variedades modernas empregadas pelos cafeicultores, todas filhas de híbridos de Timor e de Vila Sarchi, portanto com um tanto de DNA de canephora. Costumo chamá-las de variedades de alto desempenho, como os Catucaís e Obatans.
Nesse meio tempo, um dedicado grupo de técnicos do INCAPER – Instituto Capixaba de Pesquisas e Extensão Rural começou a apresentar variedades de canephora com muita aptidão para produzir bebidas de muito boa qualidade. Em paralelo, várias iniciativas vindo de empreendedores privados no Espírito Santo buscando apresentar novas facetas sensoriais do Conilon criaram o movimento do Conilon Especial. Vale destacar o esforço em certificar um laboratório para promover os Exames para R Graders, que é a certificação de juízes sensoriais especializados em robustas pelo CQI – Coffee Quality Institute.
Depois de atingir valores que rondaram os US$ 300 a saca de 60 kg para o café cru, as cotações no mercado comum de café cru iniciaram seu caminho descendente, que por vezes se pareceu com movimento de queda livre. Foi quando observou-se o quanto o canephora (Robusta e Conilon, por exemplo) havia tomado espaço do arabica em muitos blends do grande mercado de café.
Com um custo de produção sensivelmente mais baixo, que se reflete no preço de aquisição pelas indústrias torrefadoras, rapidamente o famoso grão “bicudinho” conquistou a preferência dos compradores. Justifica-se o fato de que é muito melhor comprar um robusta de boa qualidade, isento de defeitos capitais de bebida, do que um arabica de baixa qualidade pelo mesmo preço, para compor os blends de grande escala.
A escassez de um dos produtos, no caso dos grãos crus de arabica, sempre provoca, além de uma reacomodação do mercado, uma busca por novas tecnologias de produção industrial. Por outro lado, promove um efeito perverso entre os produtores, que se desestimulam a produzir grão se melhor qualidade, pois o grande mercado paga preços muito bons mesmo para cafés arabica medianos nesses períodos.
A crescente elevação do padrão de qualidade de robustas vem surpreendendo o mercado. Ainda que timidamente, alguns baristas de renome começaram a usar blends com Robustas Especiais em alguns eventos, pois há uma certeza de se obter uma Crema espessa e abundante, valorizando seus Espressos.
Com um teor de lipídeos dobrado em relação às variedades do arabica, a nova geração de canephoras está conquistando um novo espaço: o remodelado mercado de cápsulas para espresso, onde a Crema abundante é sinal de qualidade para o consumidor médio. A queda de algumas das patentes da Nespresso, líder absoluta no segmento de cápsulas, escancarou as portas para um imenso número de novos competidores, fazendo do preço para o consumidor ou operador o novo balizador desse mercado.
É um segmento que está se tornando tão competitivo quanto o dos blends de Café para Todos os Dias encontrados nas prateleiras dos supermercados. Ou seja, vislumbra-se essencialmente uma briga de cachorro grande…
Para tornar o cenário ainda mais complexo, veio à público a patente requerida em 2008 pela gigante internacional do segmento de cafeterias, a Starbucks, de processo industrial para melhoria de qualidade de robustas e arabicas, como pode ser visto neste link do departamento de patentes dos Estados Unidos1.
Através de diferentes processos que envolvem desde tratamento com soluções aquosas com precursores de moléculas importantes para a alta qualidade percebida até o uso de sistemas de troca iônica para a extração de substâncias indesejadas, a Starbucks pretende, a partir de grãos de baixa qualidade, melhorar sensorialmente seus atributos, retirando tudo o que é de ruim ou inserindo o que pode torná-lo bom.
Esta iniciativa da Starbucks está inaugurando uma Nova Era do Café, quando a qualidade deixa de ser algo originalmente produzido na Natureza e pelas mãos dos cafeicultores, passando para a indústria a missão de ajustar artificialmente a qualidade sensorial dos cafés que serão bebidos.
Como primeiro impacto observado, cai por terra toda e qualquer iniciativa ligada à Origem do Café, suas Denominações e Tipicidades.
Definitivamente, nada será como antes…
Ou será que outras soluções virão a galope?
Artigo originalmente publicado no website do autor: The Coffee Traveler.
1 Leia também: Robustas de qualidade: dos laboratórios para o consumidor
Material escrito por:
Ensei Neto
Especialista em Cafés Especiais. Consultor em Qualidade e Marketing, Planejamento Estratégico e Desenvolvimento de Produtos & Novos Mercados. Juiz Certificado SCAA e Q Grader Licenciado.
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ESPÍRITO SANTO DO PINHAL - SÃO PAULO
EM 30/07/2013
PATROCÍNIO - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 27/07/2013
Sua observação é certeira ao apontar o maior teor de cafeína dos canephoras, bem como nosso consumo de café é regido pela saciedade: "bateu na tampa", mesmo o café mais deliciosa se torna sem graça, pois precisamos de tempo para metabolizar a cafeína e, assim, retomar a vontade de beber.
Enfoquei o grande mercado, o mercado de alto volume e das grandes torrefações no texto. Como esse pessoal está direcionando suas baterias comerciais para o modelo Monodose (cápsulas, por exemplo), estão utilizando tecnologias de extração para ajustar o teor de cafeína na xícara. A Nespresso, por exemplo inaugurou a dosagem de 5 gramas ante as tradicionais 7 gramas da Escola Italiana de Espresso; porém sua tecnologia de extração dá a percepção de uma grandiosidade de aroma, sabor e crema.
Outras empresas, em sistemas semelhantes, estão seguindo o mesmo caminho ao empregar o que chamo de Tecnologia Hiperbárica (muito mais que as 9 atm clássicas): Menos cafeína por dose no Espresso.
Isso é Ciência Aplicada.
No caso dos cafeicultores, existem produtores que estão intensamente utilizando bases científicas para seus processos produtivos. Eles estão hoje na vanguarda.
Grande abraço
Ensei Neto
PATROCÍNIO - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 27/07/2013
O mundo está em constante mudança, por isso que se diz que nem mesmo as pedras ficam paradas...
E digo que, ao contrário, o mercado não está ficando sem graça, porém com muito mais possibilidades. Há que se lembrar que, como expus, isto serve para o grande mercado, porém na medida que consumidores com maior conhecimento surgem, a "régua da referência" sobe automaticamente.
O grande mercado é realmente muito competitivo, por isso é que ele baliza a média dos competidores, seja na produção, seja na industrialização, seja no serviço. E sobreviver significa estar acima da linha média. Ter sucesso é ficar muito mais distante.
O papel que suas instituições devem desempenhar é continuar na busca do conhecimento, treinamento e despertar inovação.
Grande abraço,
Ensei neto
PATROCÍNIO - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 26/07/2013
Grato pelas palavras de elogio.
Quando se trata de alterações que têm impacto na percepção sensorial, estas são feitas ao longo de vários meses, pois estatísticamente muita gente (mais de 75%) tem capacidade de perceber que algo está diferente. Em se tratando de marcas líderes, a facilidade de se promover essa alteração é ainda maior porque existe uma relação de fidelidade do consumidor perante à marca, de modo que ao comprar com alta frequência um determinado produto, dificilmente será observada qualquer sutil modificação. Somente se esse consumidor for sensorialmente educado ou ter excelente percepção é que essas sutilezas se tornam aparentes.
Se você observar no caso de bolachas, iogurtes, bolos e chocolates em barra, todos produtos industrializados de grande penetração, as alterações foram dramáticas nos últimos anos.
Para se ter idéia do que estou comentando, minha filha de 15 anos comenta com frequência como os produtos industrializados que ela adorava desde pequena estão horríveis, hoje em dia! As receitas mudaram; para pior.
No caso dos blends, o mesmo vem acontecendo. Basta você dar um intervalo de tempo maior entre a aquisição de dois lotes, que essas diferenças saltarão aos olhos! Ou melhor, ao seu palato...
Grande abraço,
Ensei Neto
PATROCÍNIO - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 26/07/2013
realmente houve um problema de digitação. O correto é Século XXI, quando as cotações foram agoniantemente baixas (2000 a 2004/2005).
Grande abraço
Ensei Neto
LINS - SÃO PAULO
EM 26/07/2013
Como entusiasta do Segmento, queroo também parabenizar pela Excelente Artigo.
Originário de família cafeicultora, apreciador de um bom café, daqueles da "melhorrrrr qualidadiiiii " . Nos orienta um rumo , um "norte : "Negócio bom,...não acaba nunca !!!!" .
Sempre teremos os aromáticos e saborosos arábicas.
Parabéns.
Mattosinho

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 25/07/2013
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VARGEM ALTA - ESPÍRITO SANTO
EM 25/07/2013
Sinceramente, não tem limites a ganancia e a busca por maiores margens por parte das indústrias, matando s produtores e enriquecendo cada vez mais os especuladores.
Lamentável.

GOIÂNIA - GOIÁS
EM 25/07/2013
Nossos cumprimentos pelo texto.
Gostaria apenas de fazer uma observação. Provavelmente deve ter havido um erro de digitação na frase inicial quando diz que no "início do século XIX"....
O século XIX começou em 1801 em terminou em 1900!! E no seu início a cafeicultura era ainda incipiente(1810-1820) no Brasil. E é a partir de 1870 que a cafeicultura paulista revelou-se promissora. E a crise referida deve ser a de 1906-1907, . Ou seja. Início do século XX.
Informações mais detalhadas podem ser encontradas nas seguintes obras:
1)- "Pequena História do Café no Brasil", de Affonso de E. Taunay, Edição do Departamento Nacional do Café, RJ, 1945;
2)-" LE CAFÉ dans l´État de Saint Paul (Brésil", de A.Lalière, Eng. Agrícola, Anvers,Bélgica, Edição de Rotschild & Cia. São Paulo. 1909.
Cordialmente,
Percy infante Hatschbach, med.veterinário aposentado (74 anos); nascido e criado em uma fazenda de café em Santo Antonio da Platina, Norte do Paraná.

PEDREGULHO - SÃO PAULO
EM 25/07/2013
Obrigado pela atenção.
ESPÍRITO SANTO DO PINHAL - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 25/07/2013
Como nossa amiga Roseli disse, muito interessante seu artigo!
E, ao contrário do nosso amigo André, os café arábicas especias sempre terão mercado e ele é crescente !
Caro Ensei:
Você acredita que com a escassez da mão-de-obra atual podemos apostar na colheita manual no futuro?
Por mais que o processo industrial retire defeitos, a qualidade sempre terá valor de mercado!
Na minha modesta opinião, quem vê uma amostra de café robusta ao lado de um café arábica entende que não é possível os preços se manterem tão próximos por muito tempo.
Grande Abraço !

AMPARO - SÃO PAULO
EM 25/07/2013
Muito interessante seu artigo. Me faz pensar que a cotação do arabica e robusta num prazo muito curto se igualará, que o mercado do café é customizado e ainda pouco explorado, e que qualidade é a vantagem competitiva à ser perseguida pelo produtor, mas que defeitos de bebida poderão ser corrigidos artificialmente....está ficando muito sem graça...
Abço

SÃO PAULO - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE CAFÉ
EM 24/07/2013
CAMBUQUIRA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 24/07/2013
Uma dúvida ainda me restou somente. Como o senhor consumidor de uma determinada marca de café que vinha tomando café com aquela proporção de 30 % Robusta e 70% Arábica, e repentinamente a indústria passou praticamente a inverter esta proporção passando para 70% de Robusta e 30% de Arabica, ele não percebeu na xícara esta mudança? Ele aceitou bem estas mudanças, nada percebeu? - Me admira que as estatísticas não nos tenha mostrado nada neste sentido até o momento.
De qualquer maneira, muito obrigado pelo seu artigo esclarecedor e muito bem redigido. Abraços.