A necessidade move a humanidade. Assim, por esta necessidade, o presidente da Abic defende que a solução para a crise recorrente pela qual vive a cafeicultura brasileira passa por uma mudança radical no discurso, e efetiva participação de todos os elos da cadeia produtiva na definição de uma política para o setor.
É estranho que após tantos e tantos anos, só agora a indústria ache que este é o caminho. Mais conversas? Não, acho que não. Seria por que estão vendo o fundo do poço em que se encontra o cafeicultor? Estão preocupados com o cafeicultor? Acho que só estão preocupados consigo mesmo.
Discordo totalmente do Presidente da Abic quando diz: "No passado, o entendimento era de que o governo fornecia benesses e as pessoas disputavam estas benesses. Hoje temos de falar em cadeia e, por isso, não há mais espaço para disputa". Primeiro, porque o governo nunca forneceu benesses ao setor produtivo do café. A história do café mostra que, desde 1900, as intervenções do governo sempre foram no sentido de beneficiar o país que detinha 70% a 80% da exportação de café e representava 80% da balança comercial. Houve épocas gloriosas para a cafeicultura e o país foi forjado pela atividade. A indústria paulista floresceu graças à cafeicultura. Quando os preços eram altos, veio o confisco e o governo ficava com a parte substancial do lucro. Naturalmente que as pessoas disputavam os poucos recursos que havia, mas nunca no sentido pejorativo que o presidente da Abic quis dar.
Segundo, não concordo que "temos que falar em cadeia", pois isto não é realidade. O agronegócio brasileiro é dividido em duas partes: o agro e o negócio, que é da porteira para fora. O lucro é todo do negócio. Para se ter uma idéia, existe uma Associação Brasileira do Agribusiness (em inglês?), a Abag, que é comandada por um diretor da Bunge. Queremos a cadeia do agronegócio brasileiro, mas hoje ela não é uma realidade, e não pensem que é culpa do submisso produtor. O produtor é oprimido no sistema e não tem como se defender. Vendeu-se a idéia de cadeia para se obter benesses do governo.
Terceiro: disputa. Sim, tem que haver disputa para podermos equilibrar todos os elos da pretensa cadeia. Disputa sem a qual nunca haveremos de resolver a situação da cafeicultura brasileira. Ninguém dá nada para ninguém, muito menos a indústria e o exportador. O produtor brasileiro, como diz o ditado, é como boi no pasto, se soubesse a força que tem não haveria cerca que o segurasse. Temos que entender que o produtor primário tem que ser elo forte na cadeia. Hoje o produtor e consumidor assistem a tudo passivamente e pagam a conta.
Quando o sr. presidente da Abic diz que a indústria teme perder o selo de pureza que premia os melhores cafés, segundo a reportagem da Agência Estado, não é verdade, pois este selo, que teve seu mérito no passado, não é um selo da qualidade e portanto, não pode premiar melhores cafés. Ele é ultrapassado e tem que ser substituído por um selo da qualidade emitido pela produção. O selo da Abic é somente um selo de pureza. Pureza é obrigatório por lei e o atual não tem poder de punição, pois é fornecido para associados de uma entidade privada. Lembramos que é no mínimo imprudente a indústria se auto-fiscalizar.
Quando diz que temos que discutir a distribuição dos recursos do Funcafé, é um verdadeiro absurdo. A indústria há décadas usufrui das benesses do governo e não é só no setor café, vide últimos acontecimentos. Como podemos distribuir os parcos recursos construídos à custa do setor primário? Todos sabem que a indústria tem acesso a outras fontes de recursos baratos, inclusive a financiamentos do BNDES, a juros baixos, e nós produtores primários, não. A indústria tem lastro suficiente para buscar recursos em bancos privados e até mesmo no exterior.
É necessário lutar contra a desigualdade, tanto isto é verdade que a história da humanidade mostra que todas as conquistas de igualdade e liberdade foram implantadas após muitas lutas. Vejam as lutas dos cristãos na Roma antiga, as lutas dos negros americanos, as lutas contra o apartheid e tantas outras... chegou a hora da luta dos cafeicultores. Isto se dará através da implantação de nossas propostas estratégicas, com as quais venceremos, e aí sim, teremos a tão sonhada igualdade na cadeia do agronegócio café. A Indústria tem direito de defender seus interesses, e ela é competente para isso. Nós não queremos destruir nada, só queremos o nosso lugar na história do Brasil.
Como dizia o sociólogo francês Pierre Bourdieu: "Vivíamos uma época de desigualdades crescentes, mesmo durante o capitalismo selvagem, havia limites. Agora, caminha-se para o capitalismo ilimitado, introduzem formas de gerenciamento antes inimagináveis. É a lógica do lucro sem limites. Isso é muito perigoso. Pode nos levar à barbárie" : Igualdade já!
Igualdade já
O produtor brasileiro, como diz o ditado, é como boi no pasto, se soubesse a força que tem não haveria cerca que o segurasse. Temos que entender que o produtor primário tem que ser elo forte na cadeia. A Indústria tem direito de defender seus interesses, e ela é competente para isso. Nós não queremos destruir nada, só queremos o nosso lugar na história do Brasil.
Publicado por: ricardo gonçalves strenger
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BENEDITO ANTONIO DA SILVEIRA PINTO
RIBEIRÃO DO PINHAL - PARANÁ - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 16/09/2009
Conheço o Ricardo e sei de seu empenho pela cafeicultura. Você tem meu apoio, meu voto e minha admiração pela luta e por sua persistência neste tema.
Obrigado Ricardo, conte conosco.
Obrigado Ricardo, conte conosco.
FRANCISCO SÉRGIO LANGE
DIVINOLÂNDIA - SÃO PAULO
EM 03/09/2009
Brilhante, Ricardo.
Quando iremos para a luta?
Quando iremos para a luta?