Consumo doméstico, taxa de câmbio e preço do café

O Real forte está reduzindo os ganhos dos cafeicultores brasileiros, que estão se tornando menos competitivos em relação a produtores de outras origens. Mas, ao contrário das expectativas, a área cultivada com café no Brasil não está diminuindo da maneira como seria previsível. A explicação para este fato é a grande demanda do mercado interno.

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O argumento tradicional em favor da promoção do consumo de café em nações produtoras é focado nos benefícios para os cafeicultores e seus países. Os produtores se beneficiam da oportunidade de agregar valor ao seu café, podendo integrar-se verticalmente e, mais importante, tem a oportunidade de operar num mercado cativo que até certo ponto independe do que acontece no cenário internacional. Por outro lado, os países se beneficiam dos impostos incidentes sobre produtos vendidos com maior valor agregado no mercado interno, ao invés de exportar café verde com pouco ou nenhum valor agregado. Outras vantagens para os países são a geração de empregos e o desenvolvimento econômico resultantes da industrialização e comercialização de café em seu mercado de origem. As lições do agronegócio café brasileiro em anos recentes mostram que a proteção dos produtores frente a uma moeda super-valorizada pode ser adicionada a esta lista de vantagens.

Segundo dados da OIC, os preços dos cafés naturais brasileiros aumentaram 107% em Dólares de Setembro de 2003 a Setembro de 2007. Entretanto, o equivalente de preços em Real aumentou apenas 36%, o que representou um ganho real de menos de 15% descontando-se a inflação. No mesmo período, os preços de referência da OIC para o Robusta aumentaram 148% em Dólares e 63% em Reais; com a correção da inflação, os preços aumentaram 40% para os produtores.

Figura 1

Figura 2

O Real forte está reduzindo os ganhos dos cafeicultores brasileiros, que estão se tornando menos competitivos em relação a produtores de outras origens. Mas, ao contrário das expectativas, a área cultivada com café no Brasil não está diminuindo da maneira como seria previsível. A explicação para este fato é a grande demanda do mercado interno. No mesmo período mencionado acima, o consumo doméstico passou de 13,5 para 17 milhões de sacas de 60 kg/ano. Hoje, praticamente 100% de toda a produção brasileira de Robusta (Conilon) é comercializada internamente, de 3 a 4 milhões de sacas para a indústria de solúvel e o restante para os torrefadores, que também compram cerca de 30% da produção de Arábica para fazer os blends oferecidos ao mercado brasileiro.

Com uma demanda interna tão grande, não é surpresa que os Conilons sejam vendidos no mercado local a preços superiores àqueles que poderiam ser obtidos com sua exportação. O mesmo pode ser dito de alguns tipos de Arábica comprados pelos torrefadores brasileiros. Se não fosse pela pujança de nosso mercado interno, os brasileiros, especialmente os que produzem Arábica, poderiam estar com problemas ainda maiores e a área plantada poderia estar diminuindo bastante como resultado do Real forte. Ao invés disso, os preços e custos de café que prevalecem no Brasil hoje apontam para um cenário onde o crescimento da área de Robusta irá continuar até que os preços no mercado interno estejam alinhados com os preços internacionais.
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Material escrito por:

Carlos Henrique Jorge Brando

Carlos Henrique Jorge Brando

Engenheiro civil pela Escola Politécnica da USP; pós-graduação à nível de doutorado em economia e negócios no Massachusetts Institute of Technology (MIT), EUA; sócio da P&A Marketing Internacional, empresa de consultoria e marketing na área de café

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Cesar Dracco
CESAR DRACCO

RIO CLARO - SÃO PAULO - TRADER

EM 18/11/2007

Com todo respeito, permito-me discordar do conceito pelo sr. lançado de independência no que concerne ao cenário internacional. A globalização da economia é um fato inegável e inexorável e qualquer posicionamento contrário é um retrocesso no desenvolvimento econômico interno e externo.

Relativo a "moeda supervalorizada", segundo minha ótica de leitura é uma tendência de atuação, ou política econômica, amparada no que permito-me denominar "âncora cambial" (Um plágio mal feito do nefasto "plano Collor", afinal, neste país, em termos de política econômica, nada se cria e tudo se copia, ou se repete.) Esta concentra-se estruturada, em uma série de mecanismos que permitem a entrada contínua de divisas e a continuação da igualdade cambial em níveis bastante baixos.

Embora o nosso saldo comercial seja cada vez mais ínfimo, a conta capital é plenamente superavitária, garantindo investimentos internacionais elevados e sustentando o real valorizado diante do dólar. O custo de manutenção dessa política é a absurda taxa de juros praticada no mercado interno, com resultados catastróficos para as contas públicas e para os produtores de café endividados ou não.

A política cambial causa também a entrada maciça de produtos importados com péssimos efeitos sobre os já massacrados produtores rurais. Um exemplo do impacto desta política cambial sobre as importações, são os dados referentes ao comércio de produtos em geral com os países em desenvolvimento da Ásia: as importações indicam 400% e as exportações 70%?! Contrariando radicalmente que o governo queira ou não, o Brasil é um país que por suas próprias características geo-econômicas possuiu um perfil eminentemente exportador.

Os dados da OIC, pelo sr. citados, são sem margem de dúvida indiscutíveis e verdadeiros. Entretanto, são dados relativos a um período de medição de quatro (4) anos, e podem por isso não refletir com absoluta precisão a realidade do momento atual, que é o que realmente interessa ao cafeicultor.

Os dados que possuo acerca de "valorização" do arábica no mercado externo em relação aos seus são bem mais modestos, porém mais atuais. Se levarmos em consideração o valor da saca de 60 kg na bolsa de Nova York em 12/10/2007, U$ 139,30, com o dólar valendo na data R$ 1,80 e compararmos com o fechamento em Nova York do dia 16/11/2007, U$ 124,90, com o dólar valendo R$ 1,74, teremos um coeficiente "real" de perda para os produtores de U$ 14,40 por saca de 60 Kg por queda de cotação entre os dois períodos medidos, o que implica em um índice de desvalorização de exatamente 10,36% no café arábica em um período de um mês e cinco dias.

Com relação aos produtores de robusta, fico sinceramente feliz, pois são trabalhadores que vivem do "suor de suas enxadas", porém creio que se muitos deles tivessem acesso a linhas de crédito abertas pelo governo, suporte agro-tecnológico, o café robusta voltaria a ser o parceiro natural do arábica para a formação de um bom blend. Com lugar garantido no mercado externo. Creio que muitos produtores de robusta iriam usufruir da livre escolha entre o mercado externo e o interno (assim que o governo reverter sua política econômica).

No caso do aumento das áreas plantadas isto pode ser entendido como uma medida heróica de nossos produtores, que para fazer frente as dívidas causadas pela perversa política cambial do governo, aumentam suas áreas plantadas, para tentar gerar uma renda compatível com suas gigantescas despesas.

Encerrando, gostaria que alguém me definisse o que é o "Real forte frente ao dólar?" O que um brasileiro compra com um real e o que um norte americano compra com um dólar, talvez fosse a resposta.

Cordiais saudações!
Milton Melo Silveira
MILTON MELO SILVEIRA

CÁSSIA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 13/11/2007

Diariamente lido com cafeicultores que se dizem insatisfeitos com o preço do café e com os ganhos por eles obtidos, porém, apesar disso irão plantar novas lavouras este ano. Penso que isso se deve ao fato de que o produtor, ao tomar uma decisão de aumento de área, analise não a perspectiva do mercado no médio prazo e sim a sua própria situação e a necessidade de aumentar sua renda, otimizar o uso de máquinas e instalações da propriedade, diluindo seus custos fixos, ou até viabilizar um investimento novo em mecanização de colheita. O aumento de área de café não deve ser lido pelo mercado como um momento de boa rentabilidade do setor, mas sim como a tardia inserção do café, quando comparado a outras culturas, na economia de escala.
Juliano Tarabal
JULIANO TARABAL

PATROCÍNIO - MINAS GERAIS

EM 13/11/2007

Muito oportuno o artigo do senhor Carlos Brando sempre nos brindando com inteligentes colocações, tanto em seus artigos como em suas palestras, como a da FENICAFÉ-ARAGUARI-MG em 2006.

É de extrema importância que olhemos sim para o mercado interno, pois em tempos de desvalorização do dólar frente ao real pode ser este mercado (interno) que vai dar equilíbrio e sustentabilidade aos produtores brasileiros e fazer com que nossa área plantada aumente sem sentir o peso desse câmbio tão baixo.

Por estes motivos supracitados é de extrema importância que se invista cada vez mais no marketing do café em nível nacional, fazer com que o brasileiro conheça mais a bebida que o acompanha todos os dias, fazer o consumidor entender que existem vários tipos de cafés, para várias ocasiões e para diferentes prazeres.

Campanhas como as que a ABIC vêem fazendo brilhantemente para que possamos fazer com que o consumidor também entenda a segmentação pela qual vêem passando a cafeicultura, no tocante às diversas formas de preparo do café (bebida) e assim assimile essa segmentação e possa definir claramente qual produto vai de encontro com o seu perfil: se é um gourmet, um tradicional, um especial, um solúvel, um espresso etc.

Enfim, vamos promover nosso produto! Conhecer para se consumir.