Consumo de café: BRIC ou BIIC?

Os países do grupo BRIC - Brasil, Rússia, Índia e China - chamaram a atenção durante a recente crise global por terem ajudado a evitar uma depressão mundial e liderado a recuperação. Se analisarmos o consumo de café nestes países, notamos que o Brasil é o líder disparado do grupo, com aproximadamente 18,5 milhões de sacas consumidas por ano. Como a Rússia não é uma nação produtora de café, vamos substituí-la pela Indonésia e cunhar a abreviação BIIC, para indicar os países exportadores com as maiores taxas de crescimento de consumo.

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Os países do grupo BRIC - Brasil, Rússia, Índia e China - chamaram a atenção durante a recente crise global por terem ajudado a evitar uma depressão mundial e liderado a recuperação. Se analisarmos o consumo de café nestes países, notamos que o Brasil é o líder disparado do grupo, com aproximadamente 18,5 milhões de sacas consumidas por ano, seguido pela Rússia, com quase 4 milhões, a Índia, a caminho de 2 milhões e a China, com mais de meio milhão de sacas por ano. Todos os países do BRIC têm grandes populações e, exceto pela Rússia, conseguiram superar bem a crise e devem manter sua forte taxa atual de aumento do consumo de café.

Como a Rússia não é uma nação produtora de café, vamos substituí-la pela Indonésia e cunhar a abreviação BIIC, para indicar os países exportadores com as maiores taxas de crescimento de consumo. Coincidentemente, os países do BIIC - Brasil, Índia, Indonésia e China são os países produtores que tem as maiores populações, somando mais de 2,5 bilhões de pessoas, ou seja, um potencial altíssimo para expandir o consumo nesta nova década.

Enquanto se espera que o consumo mundial de café cresça em torno de 2% ao ano nos próximos anos (e talvez somente 1% nos países importadores), os países do BIIC devem juntos crescer entre 5 e 6% ao ano. A fatia do consumo mundial referente aos países do BIIC pode crescer dos atuais 18% a mais de 25% nos próximos 10 anos e este crescimento não deve parar por aí. Embora a taxa de crescimento atual do Brasil, entre 4 e 5%, deva estabilizar-se ou mesmo cair porque o país está se tornando um mercado de café maduro, as taxas atuais superiores a 5% na Índia, Indonésia e China podem acelerar à medida que o café seja consumido por mais gente e entre na moda, como está acontecendo na Indonésia, onde algumas fontes dizem que a taxa de crescimento é de 10% ao ano.

O consumo atual dos BIIC, de 24 milhões de sacas, pode exceder 35 milhões em 2020, com Índia, Indonésia e China passando de 5 para 10 milhões, o que ainda assim está longe de seu potencial. Se considerarmos uma meta de consumo per capita de 2 quilos por ano para os IIC, que juntos possuem um total de 500 milhões de habitantes que tem poder aquisitivo para consumir café atualmente, haveria uma demanda de 19 milhões de sacas de café. Isto é o dobro de nossa estimativa de 10 milhões de sacas para 2020. Certamente demorará mais tempo para atingir tal volume de consumo, mas não devemos nos esquecer que as populações da Índia, Indonésia e China também crescerão e o número de pessoas com acesso ao café aumentará substancialmente até e mesmo depois de 2020.

A geopolítica do café, marcada nas últimas duas décadas pela ascensão do Vietnã à posição de segundo maior país produtor e do Brasil a segundo maior consumidor, talvez testemunhe mudanças ainda mais dramáticas nas próximas duas décadas:
- os países produtores responderão por uma porção muito maior do consumo;
- a definição de países produtores e consumidores em si tornar-se-á nebulosa, com a Índia e a China certamente tornando-se importadores de café verde (e a Indonésia também, a mais longo prazo);
- o consumo se moverá para o oriente, partindo de sua forte concentração atual na bacia do Atlântico (Europa, Estados Unidos e Brasil) para uma maior participação da bacia Pacífico-Indiana; e,
- a maior parte deste consumo adicional será inicialmente de café solúvel.

Dois outros países ainda não considerados nesta análise - Vietnã e as Filipinas - ambos produtores de café com populações de tamanho considerável, poderão também vivenciar todas ou a maioria das tendências acima. O consumo do Vietnã está se aproximando de 1 milhão de sacas por ano e seus quase 90 milhões de habitantes estão só agora começando a adquirir o gosto pelo café e o hábito de tomá-lo. As Filipinas já fizeram a transição de exportadores de café para importadores líquidos do produto.

As forças que movem o consumo no leste e sul da Ásia vão além das ações por parte da indústria do café - produtores de solúvel e torrefadores - e incluem o ambiente favorável criado pela produção e comércio de café locais, que apreciam o valor agregado e a segurança de mercado criada pelo consumo dentro de suas próprias fronteiras. Este ambiente favorável inclui os atuais programas institucionais de promoção de consumo, como na Índia, ações específicas, como na Indonésia, ou um programa de promoção futuro, como o planejado pelo Vietnã.
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Material escrito por:

Carlos Henrique Jorge Brando

Carlos Henrique Jorge Brando

Engenheiro civil pela Escola Politécnica da USP; pós-graduação à nível de doutorado em economia e negócios no Massachusetts Institute of Technology (MIT), EUA; sócio da P&A Marketing Internacional, empresa de consultoria e marketing na área de café

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