Café: mercado e perspectivas

Com base na sua metodologia de estimativa da safra mínima para atender o "desaparecimento" de café a cada ano, Sérgio Tristão justifica a queda de preços, desde o segundo semestre de 2005, como decorrente de uma relativa folga de oferta, mas aponta prognóstico promissor para o médio prazo.

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Recentemente, participando de um debate sobre o mercado no 7º Agrocafé em Vitória da Conquista, do qual participavam os principais exportadores brasileiros de café, fui provocado pelo moderador, Sr. Guilherme Braga, diretor executivo do Cecafé, com a seguinte questão:

- Se as evidências são tão positivas, por que então o mercado não vem refletindo este quadro, mas ao contrário, vem apresentando sucessivos movimentos de baixa?

Parece uma pergunta simples, mas sua resposta demanda diversas análises. Baseado nos indicadores do fluxo de café no mundo que acompanhamos sistematicamente, gerados pela OIC - Organização Internacional do Café, pelas Tradings internacionais, pelas entidades nacionais e pelos levantamentos internos da Tristão, podemos afirmar que vivemos hoje dois cenários distintos no mercado.

O primeiro reflete os números de curto prazo, as disponibilidades atuais. Estes dados indicam que não há déficit estrutural na composição da oferta e demanda mundial do produto, ou seja, existe uma relativa folga de oferta, que não justifica preços ascendentes. As cotações de US$1,20/1,30 por libra peso alcançadas em N.York no final de 2004 basearam-se muito em previsões pessimistas em relação à produção brasileira, que, de fato, não se concretizaram.

Vamos à análise dos números. Antes, porém, cabe esclarecer a metodologia que usamos para aferir nossas previsões de safra, conforme demonstrado pela tabela abaixo.

Ao final de cada ano safra, que consideramos em 31 de maio, por ser o menor estoque em mãos privadas no país - Vide série de estoques das cooperativas - contabilizamos o efetivo desaparecimento de café no país, através das exportações e do consumo interno, + ou - leilões de compra/venda do governo, + ou - a variação dos estoques das cooperativas. O resultado desta conta representa a safra mínima que terá sido colhida para atender à demanda. Vale ressaltar que, quando mencionamos safra mínima é porque neste cálculo consideramos somente a variação nas cooperativas, que representam perto de 1/3 dos estoques em mãos privadas.

Figura 1

Vamos à prova dos nove da safra 2005-06. As exportações em todas as modalidades (café em grão e solúvel) totalizaram 24,7 milhões de sacas. O consumo interno, segundo a própria ABIC, foi da ordem de 16,5 milhões de sacas. O Governo, por sua vez, injetou um milhão de sacas via leilão dos antigos estoques do IBC. O desaparecimento total, portanto, chegou aos 40,2 milhões de sacas. Para chegarmos à safra mínima mencionada acima, basta então aplicarmos a variação dos estoques. Segundo nossas fontes, esta variação foi negativa em cerca de 800 mil sacas nas cooperativas (Os dados oficiais não são mais divulgados pelo Conselho Nacional do Café)

Chegamos, portanto, a um número de aproximadamente 39 milhões, bastante próximo à nossa estimativa de 38 milhões e consideravelmente acima das previsões mais pessimistas do final de 2004.

Extrapolando agora para a situação global, acrescentamos aos 38 milhões do Brasil as exportações e o consumo interno dos demais países produtores, chegando a um nível de oferta mundial da ordem de 113 milhões de sacas. E quanto ao consumo, em que nível está?

Para calcular, usamos os mesmos critérios, analisando as exportações mundiais, a variação dos estoques nos países consumidores e o consumo interno nos países produtores. Estes cálculos nos levam a um consumo global de 118,5 milhões de sacas. Apesar deste número superar, consideravelmente, a produção, os níveis de estoque e a próxima safra mundial ainda são mais do que suficientes para cobrir este déficit. Daí considerarmos o cenário de curto prazo de relativa tranqüilidade, o que vem se refletindo nos atuais níveis de preço.

Já no médio prazo, entretanto, o quadro me parece bem mais positivo:

Projeção para 2007
Figura 2

Nota: O valor de 48 milhões de sacas é uma estimativa possível de ser atingida, pois um crescimento de cerca de 25% em relação à safra 2005/06 é cabível, tendo em vista as boas condições de clima, a melhora dos preços em 2005 e a fase de alta do ciclo bianual de produção. As empresas Tristão não divulgam previsões de safra.

O quadro acima demonstra nossa expectativa para os próximos dois anos, quando continuará prevalecendo o "swing" na oferta em decorrência basicamente da bienalidade da produção brasileira. Por outro lado, é consenso em todo o mundo que o consumo de café vem apresentando crescimento constante da ordem de 1,5 a 2,0% ao ano.

Isso significa que, partindo de um consumo hoje na faixa de 120 milhões de sacas, em 5 anos precisaremos de, no mínimo, 10 milhões de sacas a mais na produção mundial, sendo que praticamente só o Brasil, Vietnã e eventualmente a Índia têm potencial para tal crescimento.

Este crescimento, porém, só se materializa em conseqüência de preços remuneradores para os produtores, ou seja, o mundo não precisa incentivar agora o aumento de plantio, mas, inevitavelmente, em algum momento nos próximos 12 meses os preços deverão se tornar motivadores o suficiente para que os níveis de produção acompanhem o aumento do consumo.

Minha conclusão, portanto, é que o mercado cafeeiro vive bons momentos e que, se bem pilotado, poderá levar-nos a um novo ciclo virtuoso para toda a cadeia produtiva. Devemos, entretanto, evitar, de todas as maneiras, que este curto período de folga de oferta enseje a reedição das velhas políticas miraculosas de recuperação de preços, que, ao longo de toda a história, se mostraram totalmente inócuas.
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