Agenda do Mal - Capítulo 1

Ficamos assustados ao tomar conhecimento de algumas medidas já definidas na Agenda Estratégica do Café, como a utilização de mecanismos como o "Draw Back". A indústria não quer preços melhores, quer importar café para manter os preços deprimidos, pois com certeza pouco se importa com qualidade e muito menos deseja rotular o café ao consumidor. O que importa é o lucro a qualquer custo.

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A Agenda Estratégica do Café é um assunto de alta importância para o futuro da cafeicultura nacional. Um grupo de trabalho (mais um) foi criado em 03 de junho de 2008, e espantosamente em 03 meses concluiu uma Agenda que premia vários participantes de sua confecção.

Esta agenda deve nortear importantes passos políticos e econômicos da cafeicultura brasileira. Para se ter uma idéia da gravidade do problema, a Agenda aloca recursos de até R$ 344,5 milhões para diversos setores do agronegócio café, como marketing, indústria, exportação, pesquisa, etc.Naturalmente, o cafeicultor está excluído.

A Agenda é composta de 13 itens. Neste primeiro artigo vamos analisar o item 08, que tem o seguinte título: "Exportação de Café Industrializado". De acordo com o subitem "C" do Sumário Executivo, portanto, supõe-se que já esteja em execução a "importação de café em regime de Drawback" (Drawback como está escrito).

Vejam o que dizem as diretrizes deste item da Agenda : "Criar padrões de qualidade e outras salvaguardas para prevenir que no futuro os volumes importados de café industrializado (T&M e solúvel) prejudiquem a indústria nacional; a importação de café verde para a indústria de solúvel no regime de drawback, com segurança sanitária, de preços, qualidade, volume e relacionada ao aumento de exportações; ou a criação, como alternativa, de programas compensatórios para a manutenção da competitividade; a importação de café verde para a indústria de torrado e moído no regime de drawback com segurança sanitária, de preços, qualidade, volume e relacionada ao aumento de exportações".

Assustados, ficamos ao tomar conhecimento de que estas medidas estão definidas. A utilização de mecanismos como "Draw Back" só servem para as indústrias agregarem valor ao produto, mas apenas de forma tributária. A liberação de importação é apenas uma garantia para as indústrias terem liberdade de buscar café em outro país, em caso de faltar café no mercado interno, e evidentemente aliado ao lucro tributário. O sentido que a Agenda quer dar ao termo Draw Back significa em inglês "puxar para trás", ou seja, importa-se café, por exemplo, do Peru ou do Vietnã, industrializando-o para poder, assim, ser reexportado, com "valor agregado", para a indústria, naturalmente.

Temos hoje grandes feridas e desvios na cafeicultura brasileira. Não posso, neste momento de extrema gravidade, ficar alheio a estas colocações. Os cafeicultores brasileiros são extremamente competentes e aptos a abastecer a indústria nacional com café de alta qualidade, em quaisquer circunstâncias.

A indústria não quer preços melhores. A indústria quer importar café para manter os preços deprimidos, pois com certeza pouco se importa com qualidade e muito menos deseja rotular o café ao consumidor. O que importa é o lucro a qualquer custo. A importação e a reexportação de café serão uma espetacular transferência de renda do produtor primário de café brasileiro, para produtores de outros países.

Tudo nos leva a crer que, direta ou indiretamente, o sentido de todas estas ações é de propiciar a total quebra do cafeicultor brasileiro. As pessoas que falam em "Draw Back" são inimigas da cafeicultura brasileira e antipatriotas. Precisamos defender o Conilon e o Arábica brasileiros contra os inimigos da cafeicultura. Necessitamos de medidas estruturais urgentes para afastar estes fantasmas.

Reiteramos a monumental necessidade de reativar a Associação Brasileira de Café Arábica (ABCA), para nos defender desta perversa globalização, que está levando a cafeicultura ao desastre. Seria mais conveniente que esta proposta indecorosa de "Draw Back" ( voltar para trás) fosse, como diz a Agenda, chamada de Drawback, que significa "inconveniente" na língua inglesa.

Inconvenientes (Drawback) são os senhores que elaboraram esta Agenda.

Inconvenientes (Drawback) são os especuladores.

Inconveniente (Drawback) é a situação falimentar da cafeicultura.

Inconvenientes (Drawback) são os senhores que há anos gravitam em torno da cafeicultura, elaborando planos mirabolantes que nunca deram em nada, e levaram a cafeicultura ao momento atual de total desespero e desesperança.

Inconveniente não é o nosso amor pela cafeicultura, pelo cafeicultor e pelo Brasil.
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ricardo gonçalves strenger

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Jose Eduardo Reis Leão Teixeira
JOSE EDUARDO REIS LEÃO TEIXEIRA

VARGINHA - MINAS GERAIS

EM 17/09/2009

Prezado Sr. Carlos Dionizio dos Santos,

Defesa de posição é natural e procedente a todos aqueles que possuem interesses sobre o que lhe é afeto.

A aplicação ou não do Draw Back possui interesses por sua aplicação pela indústria, principalmente de solúvel, porém, não o possui pela maioria dos cafeicultores, principalmente por se tornar como uma forte ameaça externa, com reflexos negativos sobre o preço, já aviltado do produto grão cru.

Desta forma, sua manifestação na condição de corretor de café, fica suspeita de entendimento e compreensão, considerando que deva concentrar seus negócios na compra de cafés em grão cru dos próprios produtores. Se correta esta afirmativa, então como justificar sua opinião a favor do Draw Back? A qual segmento V.Sa. estaria defendendo? Poderia se justificar por este posicionamento, bem como por consistentes argumentações que possa ter em defesa de sua opinião?

Pela sua dissertação, afirma ter certeza que o Dr. Ricardo Strenger nada entende disto ou daquilo, porém não me aterei a este aspecto, pelo fato do mesmo já o ter respondido, contudo, questiono: V.Sa entende sobre o que? Entenderia ao menos o significado de Drawback ou Draw Back (em separado)? E sobre café, V.Sa. entenderia alguma coisa a não ser análise de defeitos e tipos e em seguida sugerir o preço?
A cafeicultura, principalmente de Arábica, está potencialmente comprometida e em sérios riscos.
Manifestações e opiniões contrárias e a favor são totalmente procedentes e naturais, assim como determinarmos e reconhecermos aqueles que estão de um ou outro lado, ou seja, os que estão a favor ou contra os cafeicultores. O apoio ao Draw Back identifica claramente aqueles que se posicionam contrários à cafeicultura, assim como V.Sa.

E, por estas, os cafeicultores, principalmente através de suas cooperativas, deveriam provocar a devida resposta através da própria comercialização de seus cafés, ou não.

Entenda minha manifestação como defesa também de posição, com a diferença de me situar claramente sobre qual lado defendo.
ricardo gonçalves strenger
RICARDO GONÇALVES STRENGER

LONDRINA - PARANÁ

EM 17/09/2009

Prezado sr. Carlos Eduardo Dionízio dos Santos,

Realmente, não entendo de torrefação e muito menos de café brasileiro industrializado para exportação, pois se assim fosse, já não estaria no Brasil. Certamente teria me mudado para os países onde a matéria prima é mais barata e ainda gozaria de todas as isenções fiscais que estes países oferecem.

Não compreendo nossa posição como ataque à industria. Se é necessário importar café sugiro ao Sr., como corretor que é, que intermedeie a compra de todo excedente da safra brasileira, onde o Sr. encontrará café para todos os gostos, e depois disso importe café.

Nossas propostas são claras e objetivas, peço que o Sr. como pessoa entendida no ramo, nos explique detalhadamente todas as vantagens que os cafeicultores brasileiros adquirirão desta importação, assim como o cidadão brasileiro.

Não esqueça de nos esclarecer sobre as questões fiscais que advirão desta transação. Quanto ao restante, concordo com o sr., e ainda peço uma análise desses representantes, não apenas insinuando "não sabemos o que".

Agradeço sua manifestação.
Carlos Eduardo Dionízio dos Santos
CARLOS EDUARDO DIONÍZIO DOS SANTOS

VARGINHA - MINAS GERAIS - TRADER

EM 17/09/2009

Quando li o que o Dr. Ricardo Strenger escreveu a respeito da operação de Drawback tive a certeza que este senhor não entende de Torrefação de Café para consumo interno, e muito menos do mercado de café brasileiro industrializado para exportação.

Defender a cafeicultura é um gesto sábio. Entendo e concordo que os cafeicultores estão passando por uma situação terrível de penúria, mas tenho certeza que o caminho da melhora da situação dos produtores não é o ataque aos segmentos da exportação, do solúvel e da torrefação e sim, exigir melhores ações por parte dos dirigentes dos cafeicultores.

Nós estamos vendo e vivendo o resultado das atuais ações políticas junto ao Governo Federal; o setor de produção realmente está numa situação humilhante. Portanto, seria oportuno uma análise desses representantes...
ricardo gonçalves strenger
RICARDO GONÇALVES STRENGER

LONDRINA - PARANÁ

EM 17/09/2009

Prezado Antonio Augusto Reis,

Suas colocações são perfeitas, mas exageradas nos elogios. Espero o apoio dos cafeicultores de arábica para incrementarmos nossa luta. Se houver omissão de outras lideranças, prosseguiremos da mesma maneira.

Seu exemplo de apoio me é muito importante, principalmente vindo de uma pessoa de alto nível intelectual como a sua.

Um grande abraço do Ricardo.
Jose Eduardo Reis Leão Teixeira
JOSE EDUARDO REIS LEÃO TEIXEIRA

VARGINHA - MINAS GERAIS

EM 16/09/2009

Prezado Antônio Augusto,

O agronegócio café, para sua eficiência, necessitaria possuir em todos os segmentos interrelacionados uma cultura empresarial movida a princípios de ética, moral e profissionalismo, para assim nortear ações que direta e indiretamente refletissem em efeitos positivos a todos, bem como à sociedade de forma geral.

Isto seria utópico, porém, poderia ser ao menos justo. Mas, para ser justo seriam necessários princípios, moral e ética, acrescidos de profissionalismo.
Princípios moral e ética se aprendem da infância até a formação educacional, enquanto o profissionalismo se adquire nas universidades ou escolas superiores.

Estes conceitos são os formadores do capital intelectual de qualquer empresa, associação, entidades, etc., criando e estabelecendo as condições de competitividade e sobrevivência. No mundo globalizado, conhecedores dos fortes elementos externos, que se traduzem pelas constantes ameaças, os segmentos variados que compõe o agronegócio café, devem procurar suas formas de eficiência pela sobrevida, porém, se algum destes fracassar em suas capacitações, será ferozmente espoliado pelos demais.

Esta é a filosofia do atual sistema capitalista, responsável pela criminosa crise deflagrada em 2008, e ainda em pleno exercício de seus conceitos.
Para que a cafeicultura recrie a condição de competitividade e sobrevivência, deverá necessariamente possuir e utilizar o capital intelectual, a qual absolutamente não o possui. Mas, terá de fazê-lo.

Concomitante a isto, deverá combater com firmeza os desvios e ações inadequadas que comumente a afetam, tornando-a escrava deste sistema aleijado sob os aspectos referenciados acima.

Antecipadamente a pensar em Drawback, deve-se analisar o atual estágio de desenvolvimento econômico, não das indústrias ou exportadores, mas fundamentalmente de quem produz a matéria prima, ou seja, o produtor primário.

Como dito por você, o mundo possui outros produtores primários de café, que comercializam seus produtos a preços inferiores. Neste caso, que a indústria nacional, quer seja de solúvel , T e T&M, desejando naturalmente a condição única de extrema lucratividade, então que instale nestes países suas unidades industriais.

Não é o que ocorreu no passado, com a atividade produtiva cafeeira que migrou do Estado do Rio de Janeiro, para o interior Paulista, passando ao Paraná, Minas, Bahia, Rondônia e Espirito Santo? Alguma indústria se importou com isto? Alguma indústria fora contemplada com benesses inacreditáveis por parte do Governo, quando de seus apertos econômicos, no passado? Certamente, algumas o foram de forma incrível, enquanto a cafeicultura continuava seu processo migratório.

Mas, agora, para onde migrar o café Arábica? Só tem um lugar, a última tentativa, a Associação Brasileira de Café Arábica- ABCA, com suas propostas e estilo competitivo.

Que o Drawback não seja aplicado, pois seria ação criminosa ao considerarmos a realidade da cafeicultura nacional.
ANTONIO AUGUSTO REIS
ANTONIO AUGUSTO REIS

VARGINHA - MINAS GERAIS

EM 16/09/2009

Dr. Ricardo Strenger,

O sr. está tornando-se um defensor aguerrido da produção. Não vejo a hora da produção posicionar-se em um mesmo caminho (o resultado de um esforço só será grande se tiver união, mesmo sentido e mesma direção).

Relembrando o pensamento de Miguel Cervantes:
"Nunca fique implorando por aquilo que você tem o poder de obter" e o do Vince Lombardi: "É hora de todos nós ficarmos de pé e aplaudirmos as pessoas empreendedoras, o realizador - aquele que reconhece o desafio e faz alguma coisa em relação a ele".

Estamos realmente numa guerra. Nós, os produtores, cansados, desanimados, descapitalizados, sem munição, com armamento inadequado para a batalha e desunidos, mais dias ou menos dias nessa situação, vamos sucumbir.

Aqui dentro, nós produtores querendo eliminar os PVA´s (pretos,verdes e ardidos) e por conseqüência ampliar a qualidade e rentabilidade dos nossos produtos, uma das propostas da ABCA - Associação Brasileira de cafés Arábica, e lá fora o café é encontrando muito mais barato e com baixíssima qualidade, dificultando a comercialização por parte da nossa indústria (que precisa disputar mercado para sobreviver).

Com o DRAWBACK tornando-se uma realidade, só venderemos café se estiver faltando café em nível mundial, e não quando estiver faltando em nível nacional (mais uma vez o produtor sendo o elo mais fraco da cadeia).

Precisamos urgentemente discutir e estruturar nossa atividade de produção, sem perder de vista a sintonia com os demais elos da cadeia.

A omissão dos representantes da produção, do governo, dos demais segmentos, nesses anos todos, com ausência de propostas estruturantes, está levando a dificuldades crescentes na acomodação e harmonização do setor.

Não custa lembrar: o fortalecimento da cafeicultura nacional será diretamente proporcional ao fortalecimento e equilíbrio (igualdade desejada) dos segmentos: PRODUÇÃO, EXPORTAÇÃO e INDÚSTRIA.

Temos que avançar muito...