Administrar os custos e principalmente, as ilusões
A geada não veio, as chuvas vieram. A ilusão agora é a queda dos chumbinhos. Ser cafeicultor hoje em dia é "administrar os custos e principalmente, as ilusões". Administrar os custos significa reduzir a tecnologia ao mesmo tempo que rezamos para que a redução não afete a produção. Seria cômico, se não fosse trágico! Administrar as ilusões, como é isso? Alguns torcem para cair geada, chuva de pedra, queda de chumbinho ou qualquer coisa que estrague bastante a lavoura...do vizinho...mas que Deus preserve a sua lavoura intacta.
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Numa ponta sobem os preços dos adubos, sobem os preços dos insumos e o custo vai às alturas. Na outra ponta sobe o Real (e cai o Dólar), cai a produção (e sobe o custo da saca produzida), sobem as dívidas e cai a capacidade de endividamento do produtor. No final das contas ele vende sua produção na bacia das almas para pagar as dívidas.
Administrar as ilusões, como é isso? Alguns torcem para cair geada, chuva de pedra, queda de chumbinho ou qualquer coisa que estrague bastante a lavoura...do vizinho... mas que Deus preserve a sua lavoura intacta. Critica-se a falta de uma política cafeeira, não se acredita nos números dos estoques mundiais (acredita-se piamente que vai faltar café no mundo) e culpa a queda do dólar (que está caindo no mundo todo), pelos prejuízos contabilizados.
Se a estimativa de produção da Conab vem baixa, acreditamos. Mas, se vem alta, desdenhamos. Quando vem a realidade, choramos.
Aí vem a colheita. Um momento que deveria ser de alegria. A hora de colhermos os frutos que plantamos. E o que acontece? O lucro esperado vai para a mão dos turmeiros e dos panhadores. Êta ilusão danada, sô!
E ainda tem o tal do "Investment Grade" ou Grau de Investimento, que está batendo na porta do Brasil e certamente fará o dólar derreter à patamares em torno de R$ 1,70 ou R$ 1,60. Temos que lembrar também, que os grandes importadores estão se precavendo, caso houver queda de safra no Brasil. A Starbucks está promovendo projetos de implantação em larga escala de lavouras de café na África. Dizem que além da produtividade ser boa, a qualidade da bebida não fica nada a dever à do Brasil. Você já pensou quanto ganha um panhador na África?
E aqui no Brasil as coisas também estão mudando. Lavoura de café daqui para frente só irrigada e mecanizada, e no cerrado ou na Bahia. Reduz os custos e não tem turmeiro nem panhadores comendo o seu lucro e te levando na justiça. Resumo da ópera: está ficando muito caro administrar as ilusões.
Não vemos uma política para o café porque isso não interessa a ninguém. Os importadores, as cooperativas e toda cadeia produtiva parecem querer mais é que continuemos desorganizados e sem força, para assim poderem comprar nossa produção a preços humilhantes. Mas isso tem um preço. Eu, por exemplo, estou apostando em gado de corte; outros, na cana; outros, no milho. Qualquer coisa menos café. Não será a queda de chumbinho que vai salvar o cafeicultor, mas sim uma política que inclua redução no preço dos insumos, condições para financiamento da safra, (incluindo a colheita), melhor remuneração do produto final , menos ganância por parte das cooperativas (que se transformaram em agentes financeiros) e importadores.
Pára o mundo, que eu quero descer. Ou melhor, arranca o café e planta braquiária, que eu quero engordar gado. Plantar café -para o pequeno agricultor - é sinônimo de prejuízo. E essa história de queda de chumbinho e outras similares, só servem para nos trazer mais ilusões, aumentar nossos prejuízos e adiar nossa vontade de acabar com a lavoura, já!
Isso é papo de importadores e demais componentes da cadeia produtiva do café que não querem perder a galinha (que somos nós) dos ovos de ouro. Pobre do produtor que precisa contar com a desgraça alheia (geada, granizo, queda de chumbinho etc) para viabilizar o seu negócio. Tem muita coisa para fazer nessa vida do que apenas tomar prejuízo plantando café.
Eu lanço um desafio! Quero que me apresentem um único pequeno produtor que ficou rico produzindo apenas café e contando apenas com sua cooperativa como parceira, assim como eu. Se esse "cara" existir, gostaria de lançá-lo como candidado à presidência da cooperativa, porque esse merece! Desculpe o desabafo, mas eu estou "cheio". E não é de dinheiro, nem de café, é de desilusões e prejuízos. Só vejo uma saída para o pequeno produtor de café, assim como eu: "Criar uma Associação dos Produtores de Café, pois só assim seremos capazes de reduzir os custos dos insumos - pois compraremos em grande quantidade -, aumentar os preços dos nossos produtos - através do beneficiamento e seleção de grãos - e vender diretamente para o consumidor final ou importador, sem a intermediação hoje existente, seja ela qual for.
Assisti a uma apresentação do Presidente da Associação dos Produtores de Café de Carmo de Minas, em Belo Horizonte, e com ele aprendi que a única forma de viabilizar o pequeno produtor de café é criando uma Associação. Porém, como o produtor de café do sul de Minas é o mais egoísta do Brasil, os intermediários continuarão a sua política sufocadora por muito tempo ainda.
Ps: queda de chumbinho é coisa de reveillon no Rio de Janeiro. Lá sim, tá caindo chumbinho e chumbão, na cabeça dos outros....
Material escrito por:
Cláudio José da Fonseca Borges
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IRUPI - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 19/12/2012

SÃO JOSÉ DO RIO PARDO - SÃO PAULO - DISTRIBUIÇÃO DE ALIMENTOS (CARNES, LÁCTEOS, CAFÉ)
EM 18/12/2012
Algumas idéias gostaria de compartilhar e repetir:
Sr Claudio: " Se a estimativa de produção da Conab vem baixa, acreditamos. Mas, se vem alta, desdenhamos. Quando vem a realidade, choramos. " Neste ponto eu realmente espero que a conab tenha melhorado suas estimativas e o mercado não tem acreditado ( descobriremos mais a frente).
Sr Claudio: "Não será a queda de chumbinho que vai salvar o cafeicultor, mas sim uma política que inclua redução no preço dos insumos, condições para financiamento da safra, (incluindo a colheita), melhor remuneração do produto final , menos ganância por parte das cooperativas (que se transformaram em agentes financeiros) e importadores".
Sr. Humberto Soares: " Cláudio, ainda bem que temos cafeicultores como você que estão enxergando em meio a esse pântano de informações errôneas, mentirosas e estapafúrdias, muitas delas respaldadas por agrônomos que se entregaram ao lucro fácil e não à construção de uma reputação baseada na boa informação.
Alardeiam safras pequenas, falta de café e o que vemos são recordes de exportações de café no mundo. Libertem-se disso, passem na medida do possível a diversificarem suas culturas, principalmente os que estiverem em áreas montanhosas com necessidade de muita mão de obra humana para tocar o café."
Sr Renato Fonseca: " Seria preciso um movimento dos produtores no sentido de pressionar, de forma organizada e consciente, as suas cooperativas, para que deixem de ser fonte de prestígio pessoal e de poder para um pequeno grupo de dirigentes, transformando-se naquilo que deveriam ter sido desde sempre: um valioso instrumento de defesa dos direitos dos produtores.
A nossa inação nos transformará em bois na fila do matadouro, esperando a hora crucial ou algum fato fortuito que nos livre temporariamente do trágico destino que nos espera. De outro lado, se reagirmos a tempo, colheremos os frutos de nossa luta e olharemos com orgulho e confiança para o futuro."
Enfim, parabéns a todos, sábios relatos que mexem nas grandes e verdadeiras feridas muitas vezes escondidas e mal cicatrizadas. Me fazem crer que ainda existe salvação para essa cadeia extremamente importante ao Brasil.
Abraço a todos

TRÊS CORAÇÕES - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 17/12/2012
Somente faltaram dois comentários em seu perfeito artigo, o primeiro é o da falta de apoio dos Bancos Estatais quando ocorrem desvios de produção, e o segundo a falta do programa "Bolsa Pequeno Agricultor"....
Existe um pequeno ditado popular que diz : " O que não tem remédio, remediado está " .
Plantar café é uma constante ilusão.
Um grande abraço, (e não desista nunca, pois você é um brasileiro).
Wilson Bocardi

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 05/03/2008
Acredito que as suas observações correspondem ao sentimento médio do produtor do Sul de Minas. O produtor de café não tem controle sobre o seu negócio e sobrevive aos trancos e barrancos. A situação é insustentável, pelo menos para os produtores de pequeno/médio porte.
Seria preciso um movimento dos produtores no sentido de pressionar, de forma organizada e consciente, as suas cooperativas, para que deixem de ser fonte de prestígio pessoal e de poder para um pequeno grupo de dirigentes, transformando-se naquilo que deveriam ter sido desde sempre: um valioso instrumento de defesa dos direitos dos produtores.
Nunca é tarde para reagir. O Brasil tem que fazer valer a sua condição de maior produtor mundial e o Sul de Minas a sua posição de maior região produtora do mundo, de café arábica. Temos que negociar de forma dura e implacável com os fornecedores de insumos numa ponta e com os compradores de café na outra ponta. Temos que eliminar os intermediários e buscar o contato direto com os importadores, estabelecendo relações duradouras e lucrativas para as partes envolvidas.
Vamos identificar as nossas vantagens competitivas, reforçando-as e transformando-as em barreiras intransponíveis para os nossos competidores, sejam eles os já estabelecidos produtores da Colômbia, Vietnã e outros ou os futuros pretendentes da África ou de qualquer outra região.
A nossa inação nos transformará em bois na fila do matadouro, esperando a hora crucial ou algum fato fortuito que nos livre temporariamente do trágico destino que nos espera. De outro lado, se reagirmos a tempo, colheremos os frutos de nossa luta e olharemos com orgulho e confiança para o futuro.
Abs,
Renato Fonseca

VARGINHA - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 29/02/2008
Os parabéns seriam dados se tivesse obtendo resultados financeiros, o que não tem nada a ver com produzir muito ou pouco.
Conseguiu de forma clara apresentar o cenário real vivido pelos cafeicultores, quer sejam de qualquer tamanho.
O produtor de porte menor, ou seja, aquele que produz menos de 2.000 (duas mil) sacas está sendo o primeiro a deixar a atividade, mas não se iluda, pois os maiores são a "bola da vez". O segmento produtivo cafeeiro é um "ótimo prato" para se banquetearem e "lambuzarem os beiços" os aproveitadores, pois basta uma palestra movida a salgadinhos ou churrasquinhos e lá estarão cafeicultores para comprar até mesmo "avião caindo"- desde é claro que o modelo seja novo e que caia na fazenda dele, pra fazer bastante barulho.
Café, muito ao contrário do que a maioria imagina, tem de tradicionalismo apenas a quebradeira financeira/econômica. Conheço profundamente a história da cafeicultura, assim como a produção e o sofrimento. Mas, também conheço como se pode obter resultados positivos. Porém, isto é outra história pois a estrutura de apoio à cafeicultura como você bem disse não deseja que o cafeicultor se emancipe e assim deixe de ser teleguiado.
Vamos aguardar 05 (cinco) anos, apenas isto, e veremos para onde, geograficamente, a cafeicultura de Minas Gerais irá se deslocar. Existe uma possibilidade de se transferir para alto-mar...
E observem, quanto mais rápido isto ocorrer, melhor será para aqueles que vivem por explorar os cafeicultores, pois assim, mais rapidamente enriquecerão.
Abraços e boa sorte em seu novo empreendimento
José Eduardo

VARGINHA - MINAS GERAIS
EM 28/01/2008
Estudei há muitos anos atrás (teoria de administração de algum guru que não me lembro mais) "que todo trabalho deve ser remunerado". Resumindo: este é o problema da quase totalidade dos produtores de café. Não estamos sendo remunerados pelo aquilo que fazemos.
Sem renda, extrapola qualquer capacidade administrativa dos gestores. Alguns acertam na base da sorte enquanto outros usando os mesmos fundamentos, perdem. Outros, ganham por valorização de suas terras não pelo que produziu nelas. Nossa atividade não deveria ser um jogo, mas uma vez bem administrada, deveria ter sua rentabilidade sustentada.
Daí o risco do nosso país, maior produtor mundial e com boa penetração no mercado, perder muito daquilo que já foi conquistado. Continuamos a brincar com as "galinhas de ovos de ouro".
Abraço do companheiro,
Antônio Augusto

AIMORÉS - MINAS GERAIS - ESTUDANTE
EM 26/01/2008
Alardeiam safras pequenas, falta de café e o que vemos são recordes de exportações de café no mundo. Libertem-se disso, passem na medida do possível a diversificarem suas culturas, principalmente os que estiverem em áreas montanhosas com necessidade de muita mão de obra humana para tocar o café.
LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 25/01/2008
Seu artigo é muito lindo, porque expressa a alma do cafeicultor, sempre esquecido nas políticas. E posso afirmar uma coisa: a cafeicultura brasileira não tem estrutura para aguentar o tranco de larga escala no continente africano, que utiliza mão-de-obra barata e tem financiamento captado no mercado internacional, barato também.
Sucesso para o senhor e família.