A qualidade e os pequenos produtores
A seletividade da colheita seletiva tem baixado drasticamente, com conseqüente impacto negativo na qualidade da bebida. Para contornar a situação, que prejudica principalmente o pequeno produtor, o autor sugere a economia de escala. Basta organização para tornar possível o aumento da competitividade.
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A porcentagem de verdes, verdoengos e semi-maduros colhidos juntamente com as cerejas maduras está aumentando. Porcentagens de 5 a 10% de cerejas com maturação aquém do ideal estão se tornando um padrão ao invés de exceções, sem mencionar percentuais de 12 ou até 15% em algumas áreas, especialmente nos picos de colheita. O argumento de que os pequenos cafeicultores estariam livres do fenômeno descrito no parágrafo anterior, que em teoria só seria gerado ou causado pelos trabalhadores contratados, não se sustenta. Os pequenos produtores estão expostos às mesmas pressões que afetam os trabalhadores contratados para a colheita seletiva do café.
Xícaras com bebida adstringente e lotes de café devolvidos devido à adstringência causada pelas cerejas verdes e parcialmente maduras estão se tornando comuns em origens que nunca enfrentaram este tipo de dificuldade. A verdade é que a seletividade da colheita seletiva tem baixado drasticamente, com conseqüente impacto negativo na qualidade da bebida. O problema está se agravando em áreas onde o café é produzido por pequenos produtores, pois os cafeicultores médios e grandes estão resolvendo o problema com tecnologia. Eles usam modernos equipamentos de benefício úmido para separar os verdes e parcialmente maduros das cerejas maduras e despolpar separadamente as cerejas em diferentes estágios de maturação.
Apesar de disponíveis também para pequenos produtores, equipamentos que separam as cerejas de acordo com o estágio de maturação tem preços normalmente incompatíveis com a realidade financeira destes cafeicultores, mundo afora. Este fato apenas enfatiza o que há muito tempo é uma realidade econômica freqüentemente ignorada por serviços de pesquisa e extensão: a maneira mais eficiente de despolpar o café produzido por pequenos produtores é em benefícios úmidos comuns ou compartilhados normalmente chamados de "centrais de processamento", ao invés de despolpadores tradicionais pequenos e ineficientes operados por cada produtor individualmente. Se isto já era verdade antigamente, é muito mais válido agora, que modernos equipamentos de processamento úmido são necessários e a economia de escala das "centrais de processamento" permite reduzir investimento em equipamentos, assim como os custos de operação, ganhar eficiência, treinamento da mão-de-obra, etc.
Se os argumentos acima não são suficientes para mudar sua opinião, eu lhe convido a conferir a qualidade das cerejas que hoje chegam aos benefícios úmidos em vários países ao redor do globo. Pondere ainda sobre o fato de que o investimento requerido para equipar adequadamente pequenos produtores com despolpadores individuais convencionais, sem contar o investimento necessário para separar as cerejas, é de 10 a 20 vezes maior do que o custo de construir centrais de benefício úmido para processar todo o café produzido por eles.
Você deve estar se perguntando, o que isso tem a ver com o Brasil? Vejamos um exemplo nacional.
A Secretaria de Agricultura de Viçosa-MG e a torrefadora italiana Illycaffè estabeleceram uma parceria em conjunto com a Universidade Federal de Viçosa e a Associação Regional dos Cafeicultores (Arca) para a criação de um centro de colheita e pós-colheita de café na cidade de Viçosa-MG. A unidade já vende café processado para a Illy há mais de seis anos, e após o investimento de R$ 1 milhão da torrefadora, hoje possui capacidade para processar 5 mil sacas por safra. O Centro possui terreiros e equipamentos Pinhalense como despolpadores e secadores de uso coletivo dos produtores da região. Outro objetivo do centro é realizar pesquisas e experimentações na área de colheita e pós-colheita de café.
Sabemos que para ter qualidade é necessário um alto investimento, seja ele em tratos culturais, e/ou em equipamentos que assegurem um processamento adequado dos grãos.
Talvez os pequenos produtores de café do Brasil não estejam tão longe assim da realidade da cafeicultura de outros países. Iniciativas como a criação deste centro, que é administrado pelos próprios cafeicultores através de uma associação, podem inserir os pequenos cafeicultores brasileiros no competitivo mercado de cafés especiais. A prova está aí.
Seja no Brasil, na América Central ou na África a economia de escala continua funcionando. Basta organização para tornar o aumento da competitividade possível.
Material escrito por:
Carlos Henrique Jorge Brando
Engenheiro civil pela Escola Politécnica da USP; pós-graduação à nível de doutorado em economia e negócios no Massachusetts Institute of Technology (MIT), EUA; sócio da P&A Marketing Internacional, empresa de consultoria e marketing na área de café
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MANHUAÇU - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 08/06/2008
Ao palestrar sobre Colheita e Preparo do Café Visando a Qualidade, para cafeicultores familiares, temos feito duas observações:
Primeira: é possível para estes cafeicultores produzirem cafés de qualidade. Com o conhecimento necessário e ao alcance de todos, maquinário e instalações, adicionada uma boa dose de capricho, está resolvida a questão, por este lado.
Segunda: produzindo café de qualidade individualmente, em pequenas quantidades, será difícil obter a justa remuneração no mercado.
Tudo indica que o descascamento é o melhor caminho, pelo menos para a Região das Matas de Minas, onde a alta umidade do ar (orvalho) provoca a fermentação das cerejas maduras já na árvore, tornando difícil a produção do café natural de qualidade. Por outro lado a aquisição das máquinas e equipamentos de descascamento por pequenos produtores individualmente parece não ser recomendavel. É possível dentro da linha do PRONAF implantar Unidades de Beneficiamento comunitárias, onde o café de cada um, colhido diariamente, seria processado corretamente até o armazenamento, aguardando comercialização por aqueles que pudessem esperar.
Cada um retornaria com o "bóia" para sua casa para secagem em seu terreiro, sem maiores dificuldades. O tempo ganho (que não é pouco) seria revertido na dedicação mais integral da família na colheita, colhendo mais café por dia, e no ponto certo. O café bóia seria vendido mais rapidamente para cobrir as despesas com a colheita.
Enquanto a mentalidade do cafeicultor familiar não evoluir para o associativismo, tudo isso que parece tão claro e ao seu alcance, vai permanecendo como um sonho. Mas continuemos com nossas palestras sobre qualidade, pois água mole em pedra dura...
Parabéns pela objetividade do artigo.

GUARAPARI - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 07/05/2008
Parabéns pelo artigo.
De tudo, fica mais uma vez a necessidade da organização da produção e da comercialização. Mão-de-obra, mesmo para a agricultura familiar (AF), máquinas adaptadas à realidade da AF (pois temos também o fator distância entre as propriedades, nas associações e cooperativas...), boas Práticas na Produção e Processamento do Café, comercialização coletiva de lotes com qualidade para a exportação, etc... Esses são fatores recorrentes em todos as regiões cafeeiras do mundo. Todavia, gostaria de ressaltar a contribuição do Sr. Décio Barbosa Freire. De fato, é muito massante o enfoque atual dado à questão da qualidade (independentemente dos preços atuais e da relação arábica & conilon). Gostaria de analisar a necessidade de organizar e fazer qualidade, não pelo ponto de vista do prêmio ou ágio oferecido à qualidade (que pode ser conquistado com a organização dos produtores na comercialização), mas pelo ponto de vista das perdas econômicas (dimensão econômica da tão falada sustentabilidade) ocorridas durante os processos de produção, colheita e pós-colheita do café e que muitas vezes os produtores não conseguem analisar economicamente, ou mesmo percebê-las. Neste contexto, com certeza o artigo do Sr. é muito importante para alertar os protagonistas/atores desta discussão nos diferentes ambientes desta reflexão e para encaminhar soluções viáveis para esta pauta.
Atenciosamente,

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 24/04/2008
Como explicar a elevação do preço do robusta em relação ao arábica?
Não seriam apenas nichos do mercado mundial, fazendo a cabeça de cafeicultores para alcançar qualidade, e o mercado, exceto pequenos nichos, está se lixando para isto? A qualidade é onerosa e precisa ser recompensada. não com prêmios astronômicos para algumas sacas de café, mas com diferenciação acentuada de preços entre um café arabica de razoavel qualidade (bebida dura com 100 defeitos), e um rio. Se o mercado não reconhecer isto, parem de martelar a cabeça do produtor com temas de qualidade, e proponham formas de redução de custos e aumento de produtividade.
Atenciosamente,

CAMPINAS - SÃO PAULO - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS
EM 23/04/2008
O caso descrito da formação de grupos organizados é uma realidade.
Será necessário passar estas experiências para EXTENSIONISTAS CAPACITADORES, pois o sucesso da agricultura em qualquer segmento virá com união dos produtores para aumento de renda com desenvolvimento sustentável.
Estamos em formação de uma Associação de produtores familiares de Café, vou seguir seu exemplo.
Saudações

MANTENA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 18/04/2008
Sempre defendi o associativismo, o cooperativismo e a formação de centrais de compra e de venda.
O raciocíonio é o mesmo para o processamento da produção, conforme provado em seus argumentos.
Seria ótimo se os responsáveis pela política agrícola tivessem essa visão abrangente e a praticasse!
Parabéns.
PATROCÍNIO - MINAS GERAIS
EM 17/04/2008
Muito bem colocada essa questão de baixa qualidade na mão de obra, ou a falta da mesma, e também a questão da baixa tecnificação dos pequenos produtores de café.
Existem no mercado algumas máquinas de menor porte para despolpar e secar o café, mas não são máquinas voltadas totalmente para pequenos produtores e sim para grandes produtores utilizarem para fazer amostras ou sementes.
Contudo, é preciso que as indústrias de pós-colheita atentem para esse nicho de mercado que são os pequenos produtores, ou seja, projetarem lavadores, despolpadores e secadores voltados para os pequenos produtores, para o seu volume de produção.
Sabemos que não é uma tecnologia "engessada" a das máquinas de pós-colheita, e que dá perfeitamente para adequar esta tecnologia aos pequenos. Basta que a Industria entenda que não são somente os grandes produtores que consomem, os pequenos também, desde que a tecnologia atenda as suas necesidades
Atenciosamente,
Juliano Tarabal