258.500 desempregos diretos na cafeicultura

É sempre assim: as atividades urbanas mais centralizadas e com maior apelo político atingem mais rápido a sociedade e o governo. As atividades rurais não emanam seus anseios e suas dificuldades tão rapidamente quanto o setor urbano. O grito urbano ecoa rápido em Brasília e o grito rural ecoa nas campinas, grotas dos nossos rincões de extensão territorial.

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A cafeicultura vem sendo assolada por prejuízos contínuos desde o início dessa década. Como é do conhecimento de todos, o preço do café vem mantendo-se constante desde 1994 com elevação de tão somente 22%, enquanto o custo de produção subiu em torno de 600% em igual período.

Nessas últimas duas décadas dobramos a nossa produtividade; prova disso podemos verificar no livro "150 Anos da Cafeicultura, onde dados estatísticos mostram que de 1895 a 1995 a média da produtividade foi de 9 sacas por hectare, e atualmente estamos com 18 sacas por hectare, em média.

Praticamente nenhuma cultura no Brasil registrou um aumento de produtividade tão evidenciado como a do café, diretamente ligado ao empreendedorismo da cafeicultura nacional. Dobramos a produtividade e como prêmio da nossa eficiência, passamos a gerar um prejuízo insuportável. Na safra recém colhida de 46 milhões de sacas (Conab), estamos perdendo entre R$100,00 a R$ 150,00 por saca, dependendo do pacote tecnológico e de regiões produtoras.

Os cafeicultores situados nas regiões serranas, sem dúvida alguma, estão perdendo mais que os do cerrado (terras planas); O impacto da mão de obra varia entre 50 a 60% do custo de produção, sendo mais evidenciado nas regiões serranas / montanhas. Mas, de uma maneira ou de outra podemos afirmar que a cafeicultura está realizando um passivo devedor, somente nessa colheita entre R$ 7,6 bilhões a R$ 9,9 bilhões.

Dentro desse quadro, estamos vivenciando um total desestimulo do setor produtivo, e consequentemente, por falta de recursos, iniciou-se o processo de demissões dos trabalhadores. Já é perceptível o empobrecimento nas comunidades rurais e cidades que vivem da cafeicultura, a exemplo Três Pontas, que decretou estado de calamidade pública. Há em torno de 2.000 desempregados na cidade.

Basta viajar para o interior, onde estão os municípios produtores de café e observar o número de pessoas "paradas" nas comunidades rurais. É dificílimo mensurar esse número, dado o universo de 320.000 cafeicultores pelos 1.900 municípios produtores de café de nosso país. Mas a pobre cafeicultura, em termos econômicos é riquíssima como geradora de emprego (diversas fontes citam 8 milhões de trabalhadores).

É sempre assim: as atividades urbanas mais centralizadas e com maior apelo político atingem mais rápido a sociedade e o governo. As atividades rurais não emanam seus anseios e suas dificuldades tão rapidamente quanto o setor urbano. O grito urbano ecoa rápido em Brasília e o grito rural ecoa nas campinas, grotas dos nossos rincões de extensão territorial. O café está gritando, pois está perecendo, e quando estamos perecendo temos que pedir S.O.S CAFÉ.

Para dar uma idéia de dimensão do desemprego na cafeicultura constatamos no Sindicato dos Produtores Rurais de Guapé o seguinte dado: em 31/10/08 tínhamos registrados para os associados do Sindicato 456 trabalhadores fixos e hoje (15/01/09) temos 259; para um universo de 3.600 hectares de café. Segundo a Conab (12/08), o município possui 5420 hectares, com aproximadamente 3600 hectares sindicalizados.

Sendo assim, podemos afirmar que ocorreu um desemprego de 55 trabalhadores registrados para cada 1.000 hectares, sendo que não consideramos os temporários, que no mínimo equivalem aos fixos. Com isso podemos assegurar que esse número alcança ao redor de 110 trabalhadores para cada 1.000 hectares, e como o Brasil possui 2350,8 milhões de hectares de café, já atingimos um total de desemprego direto de 258.500 postos de trabalho. Isso diretamente, sem levar em consideração os trabalhos indiretos.

Esse número é um tanto generalizado, sem levantamentos precisos, sem análise estatística, mas é um número de ordem de grandeza - e assustador. Portanto, necessitamos urgente de medidas de apoio à economia cafeeira, para estancar essa avalanche de desemprego que gerará um caos social. Não podemos continuar adiando as decisões, esperando as tantas e tantas desculpas da esfera governamental, como férias, má vontade, ineficiência, ou como queiram entender, e deixando nossas lideranças de chapéu na mão na porta dos gabinetes em Brasília.

Armando Matielli*
Engº Agrônomo

André Luís Mattiello
Engº Agrônomo

Ambos autores são cafeicultores, com MBA na Fundação Getúlio Vargas.
* Diretor do Sindicato dos Produtores Rurais de Guapé/MG.
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Cláudio José da  Fonseca Borges
CLÁUDIO JOSÉ DA FONSECA BORGES

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 27/01/2009

A solução para os cafeicultores de regiões serranas é se unirem em associações para reduzir custos e agregar valor e preço sem atravessadores, sem cooperativas.
nailton castelari junior
NAILTON CASTELARI JUNIOR

NEPOMUCENO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 22/01/2009

Excelente texto

Mas será que alguém está olhando pra nós cafeicultores, além de DEUS, é claro?