100% Arábica: a alma do café

Os cafés arábica são aromáticos, saborosos e possuem corpo. Os cafés robustas são neutros e, por possuírem baixo custo de produção, são utilizados em misturas para baratear custos dos torradores de todo o mundo. Evidentemente que tais agentes comunicam ao grande público que seus blends são fórmulas mágicas que resultam em cafés perfeitos, mas a verdade nua e crua é que o artifício da blendagem ou mistura de arábicas nobres e robustas baratos é no fundo a alquimia do lucro dos poucos.

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A cooperação sempre existiu como forma de aumentar a competitividade dos cooperados no processo de competição. Nesse contexto, o marketing setorial evoluiu para criar e comunicar vantagens competitivas de segmentos, categorias ou até setores inteiros. Os produtores de vinho da região de Bordeaux na França são beneficiados pela construção da reputação da região; algo planejado. Por sua vez, produtores da uva cabernet sauvignon a consideram a "rainha dos vinhos tintos" e criam estratégias para que tal conceito seja aceito e valorizado pelos consumidores. Tais exemplos fazem parte do que chamamos estratégias de marketing e têm como objetivo construir percepções no mundo dos homens.

No mundo do café isso também acontece. Quênia e Colômbia são percebidos como, por exemplo, as cervejas Bohêmia e Original; Costa Rica e Guatemala são a Skol e a Brahma; o Brasil é a Nova Schim e os robustas, tanto africanos (Costa do Marfim, Burundi e Uganda), como asiáticos (Vietnam, Índia e Indonésia) e até mesmo o conilon do Brasil são a Krill ou a Polar. São as origens do café e suas percepções.

Em meu livro, A Guerra do Café, defendo primeiramente a tese de que o café arábica brasileiro encontra-se mal posicionado. A verdade é que não planejamos ser a Nova Schim. Isso simplesmente aconteceu e estamos perdendo com isso. Em função do mal posicionamento sugiro um novo posicionamento e isso inclui cinco diretrizes estratégicas. Eis a primeira. O café arábica do Brasil precisa criar estratégias para combater os blends ou misturas entre arábicas e robustas.

Os cafés da espécie arábica são aromáticos, saborosos e possuem corpo. Os cafés robustas são neutros e, por possuírem baixo custo de produção, são utilizados em misturas para baratear custos dos torradores de todo o mundo. Evidentemente que tais agentes comunicam ao grande público que seus blends são fórmulas mágicas que resultam em cafés perfeitos, mas a verdade nua e crua é que o artifício da blendagem ou mistura de arábicas nobres e robustas baratos é no fundo a alquimia do lucro dos poucos. A verdade é que tal procedimento, aliado a outros poucos fatos, que não descrevo para não perder o foco, resultam na triste verdade de que os muitos 60 países produtores ficam com menos de 10% do faturamento do setor cafeeiro do mundo.

Isso precisa ser mudado e tal mudança precisa de um início. No livro, a sugestão é de que os produtores de cafés arábicas do Brasil precisam se unir em torno de uma associação que defenda o interesse do arábica; assim como fazem os produtores de cabernet sauvignon. Um programa de educação ao consumidor precisa ser desenvolvido. A verdade precisa transformar-se em percepção. O consumidor precisa ser educado para entender de café. Café não é tudo igual. Um blend 100 % arábica é diferente e melhor que um blend que possui robusta. O arábica é a alma do café.

Ainda não é o momento de tratar de estratégia. O momento é de criar uma visão clara que sirva como porto de chegada, para que tenhamos a vontade de percorrer o caminho. A visão do 100% arábica é idealista e factível; é motivadora e oferece a nós produtores de arábica uma visão de futuro comprovadamente melhor. O desafio agora é o da mobilização das lideranças. Precisamos incentivar o compromisso. A motivação de nossos dirigentes será simples. Eles poderão escrever seus nomes na história.

A associação de café arábica está criada pelo paranaense Ricardo Strenger, presidente da Associação de Produtores de Café do Paraná. É o início de nossa revolução. No livro, defendo que os arábicas do Brasil perderam duas grandes guerras: a da qualidade e a do custo. Está na hora de juntarmos esforços para enfrentarmos outra guerra. Que as derrotas de outrora sirvam de lição. O heroísmo não está associado somente vitórias. Herói é quem cai e levanta.

Convoco todos os produtores de café arábica do Brasil. Guerra aos robustas. Guerra ao blend. Viva o 100 % arábica, Viva a alma do café. 100 % Arábica: the spirit of coffee.
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Lucio Garcia Caldeira

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gilberto castro
GILBERTO CASTRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 23/06/2013

ótima descrição, procurei por arabica  cem por cento,voces tem que melhorar seus marquetins e comerciais pois o café de vocês  é uma iguaria  perfeita, comecei conhecendo o café do otavio por um amigo e não largo mais,continuem a divulgar com mais comerciais. êxito a todos Gilberto castro SP São Paulo
Francisco Sérgio Lange
FRANCISCO SÉRGIO LANGE

DIVINOLÂNDIA - SÃO PAULO

EM 11/08/2009

Tanto <i>arabica</i> como <i>canephora</i> são café. Nada contra os produtores de canephora mas, que apreciar um café puro arabica tem muita diferença entre um puro canephora, isso ninguem pode contrariar portanto, os arabicas acabam sendo prejudicados quando misturados.

Aproveito então para perguntar ao colega Lucio: Como fazer para fortalecer esta associação proposta? Estou de pleno acordo. Fico Então no aguardo.
José Sebastião Machado Silveira
JOSÉ SEBASTIÃO MACHADO SILVEIRA

LINHARES - ESPÍRITO SANTO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 08/08/2009

Este artigo demonstra uma preocupação em relação à sobrevivência da cultura do arábica como uma atividade economicamente viável. Na realidade, a percentagem de produtores de robusta que conseguem altos lucros com a atividade é bem maior que os de arábica. Entretanto, produtores de robusta de baixa produtividade estão em situação semelhante ao do arábica.

O grande diferencial dos que obtém altos lucros está na sua alta produtividade, resultado do uso sistemático de tecnologias objetivando este fim. Na realidade, o problema do arábica não é o robusta, e sim, a sua baixa produtividade. Produtores de arábica de alta produtividade estão tendo lucratividade semelhante aos de robusta e muito satisfeitos com a atividade.

O problema principal da maioria dos produtores de arábica é a baixa adoção de tecnologias visando o aumento de produtividade. Pesquisas neste sentido existem aos milhares, portando sem adoção. A quantidade de pesquisas desenvolvidas em arábica é muito superior às em robusta, algo em torno de 100 para 1. Entretanto, a velocidade de adoção de tecnologias pelos produtores de robusta em relação aos de arábica é de 100 para 1. Este é o grande diferencial entre as duas culturas.

Qualidade é muito importante. Mas fazer qualidade custa muito caro. A impressão que se tem é que o foco sistemático das grandes empresas pela qualidade encobriu a importância da produtividade e os produtores acharam que iam ganhar dinheiro investindo somente em qualidade. Dificilmente vemos produtores de arábica discutindo ou planejando estratégias para aumento de produtividade. O produtor de conilon investiu e investe pesadamente em produtividade.

Com relação aos blends, não são os produtores nem os industriais que irão definir o que o consumidor vai beber. Diversas pesquisas mostraram que a grande maioria dos consumidores preferem blends de arábica com robusta ao arábica puro. Alguns especialistas dizem (mas não escrevem) que o aumento de consumo de café no Brasil está relacionado com o aumento de robusta nos blends.
ANTONIO AUGUSTO REIS
ANTONIO AUGUSTO REIS

VARGINHA - MINAS GERAIS

EM 06/08/2009

Caro Lúcio Caldeira. parabéns pela matéria.

Se os produtores de todo o país perceberem a importância que isto pode representar em termos de valorização do nosso produto, acredito que a mobilização da nossa união em torno de uma associação somente de cafés arábicas, será rápida e grande.

A associação do Café Arábica tão bem defendida pelo Sr. no seu livro "Guerra do Café" já criada pelo paranaense Ricardo Strenger, atual presidente da Associação de Produtores de Café do Paraná, é da mais absoluta necessidade para os produtores de Café Arábica do país, pois será o instrumento de defesa do cafeicultor de Arábica, que é o mais prejudicado nos dias de hoje, devido aos altos custos de produção e os baixos preços praticados no mercado.

Os principais objetivos da ABCA - Associação Brasileira de Café Arábica. serão:

1. Equacionamento econômico;
2. União dos cafeicultores de café Arábica;
3. Esclarecer o consumidor sobre a qualidade do café Arábica;
4. Agregação de valor (exportação de café torrado e moído e torrado);
5. Normatização da qualidade do grão cru;
6. Rotulação do café;
7. Selo da qualidade da ABCA e OMCA;
8. Multinacional Brasil Café;
9. Marketing para o café Arábico;
10. Criação da Organização Mundial de Café Arábica (OMCA);
11. Políticas específicas para o café Arábica;
12. Dignificar a cafeicultura.

Um dos pontos apresentados pela APAC a meu ver um dos mais importantes nesse primeiro momento, desde que haja uma adesão maciça de produtores a essa nova associação, será a Normatização da Qualidade do Grão Cru o que ajudaria eliminar uma grande quantidade de café do mercado equilibrando a oferta e a demanda, conforme abaixo:

"Todos sabem que nós produtores ao vendermos o café, os compradores determinam o tipo, ou seja, a tal da cata, 10%, 20%, 30%, sabe-se lá, o que interessa é que esta porcentagem que é catada é o que determina o preço que nos será pago. Notem, a cata não é paga mas é carregada e utilizada pela indústria sem custo da matéria prima.

Isto é muito importante pois temos pelo menos 4 a 8 milhões de sacas de cata que, repito, não nos é paga. Então porque não destinar este café, o PVA (preto, verde, ardido), para outros fins mais nobres, que nos trarão renda, que não sejam empurrar para o consumidor um café de péssima qualidade. As medidas acima, propostas pela APAC eliminarão "café" do mercado, regulando a oferta e melhorando os preços, diferentemente dos leilões de opções, pois o mercado sabe que o café eventualmente adquirido pelo governo federal continuará disponível e voltará para o mercado a qualquer momento, deprimindo os preços. Ou vocês acham que o café adquirido vai para onde? Claro que voltará para o mercado."

Companheiros, a hora é de mobilização em torno de alternativas factíveis, estruturantes e autossustentáveis. Esta alternativa apresentada é uma delas.

VAMOS TODOS LUTAR PELO RETORNO DA NOSSA DIGNIDADE - NÃO COMO BARÕES DO CAFÉ, MAS COMO PRODUTOR DE CAFÉ COM MUITA HONRA.