Vantagens vietnamitas: até quando?

O custo de produção do Vietnã para produzir uma tonelada de café é de aproximadamente US$ 500, enquanto no Brasil este número mais que dobra, chegando a US$ 1200/t. Tal vantagem, a princípio, alarmaria qualquer produtor brasileiro. Entretanto, diversos fatores devem contribuir para o aumento nos custos de produção do Vietnã, entre eles o êxodo rural, limites quanto ao uso da água e problemas relacionados ao ambiente.

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O Vietnã é considerado por muitos o principal inimigo da cafeicultura brasileira. Tal percepção é, inclusive, mais forte do que aquela cultivada em relação aos colombianos, respeitados por seu exemplo na promoção da qualidade. Nesse sentido, a visão que temos dos vietnamitas é de um país que produz um café de pior qualidade, usando mão-de-obra extremamente barata e com ajuda internacional para tanto. Ou seja, exatamente o contrário do que temos aqui no Brasil.

De fato, motivos não faltam para as preocupações quanto à concorrência do Vietnã. Desde o início da década de 90, o país saiu de uma posição insignificante na produção mundial de café para um respeitoso segundo lugar. Ajudados ou não por recursos de instituições internacionais, a cafeicultura vietnamita é hoje fundamental na correlação de forças do setor.

Em relação aos custos de produção, o Vietnã está longe de fazer feio. Com um custo de cerca de US$ 500 por tonelada, os vietnamitas estão à frente de concorrentes como a Índia e a Indonésia, cujos custos se aproximam dos US$ 650 por tonelada. Igualmente, os US$ 1200 do Brasil são bastante superiores ao custo do Vietnã.

Tal vantagem, a princípio, alarmaria qualquer produtor. Afinal, com custos extremamente competitivos, a tendência seria de crescimento da participação vietnamita no mercado internacional de café. Entretanto, esse não parece ser o caso. Diversos fatores conspiram para tanto, sendo que alguns deles poderão contribuir para um aumento nos custos de produção do Vietnã.

Em primeiro lugar, a limitação territorial no país constitui um importante gargalo. As terras altas vietnamitas não são infinitas, de modo que a expansão dos cafezais naquele país já se encontra próxima do limite. Dessa maneira, o papel de principal protagonista no mercado internacional de café seguirá sendo do Brasil, a menos que façamos tudo errado.

Além disso, há fatores já atuantes no contexto do Vietnã que podem contribuir para a erosão de parte dessas vantagens do país na produção de café. No que se refere à mão-de-obra, o acelerado crescimento econômico vietnamita nos últimos anos, ao alavancar outras atividades, tem contribuído para um aumento do êxodo rural no país. Atraídos pelas oportunidades abertas em outros setores, os jovens estão se deslocando para os grandes centros, e isso deverá ter impactos profundos para a agricultura vietnamita no longo prazo.

Evidentemente, o fato do regime no Vietnã possuir um controle considerável sobre a economia e a sociedade faz com que tais processos sejam mais lentos do que em países como o Brasil. No entanto, a necessidade de mão-de-obra barata poderá fazer com que esse movimento se intensifique. A expansão da indústria poderá também vir a pressionar os salários do conjunto da economia, algo a ser checado no futuro.

Outras questões são igualmente importantes. O uso exagerado dos recursos hídricos do país imporá gargalos consideráveis ao Vietnã nas próximas décadas. Lidar com estoques de água decrescentes e contaminados deverá tomar tempo considerável dos vietnamitas, além é claro dos custos ligados a isso. Assim, não devemos estranhar se a natureza começar a cobrar ali o preço do crescimento descontrolado nas próximas décadas.

Da mesma forma, problemas ambientais ligados ao aquecimento global deverão prejudicar a cafeicultura vietnamita no futuro. Embora tais desafios devam fazer parte de todos os países do globo, no momento a vantagem brasileira no campo da pesquisa aplicada à cafeicultura não pode ser desprezada. Garantir que tal trunfo seja cada vez mais determinante constitui um das nossas principais "lições de casa".

Por isso, a grama do vizinho é muito menos verde quando vista de perto. Do lado de cá da cerca, devemos nos espelhar no exemplo dos outros quando tenhamos algo que aprender. Porém, em muitos momentos a melhor coisa a fazer é respirar fundo e se questionar se o modelo dos outros é o mais adequado para nossa realidade.

Ainda que a ideia de ampliar a participação brasileira na produção mundial de café robusta seja interessante, espera-se que tal passo seja dado com maior cuidado. Um vale-tudo em busca do menor custo possível pode até trazer suas vantagens no curto prazo, porém no futuro ninguém sabe como tudo acabará.

Ademais, o panorama atual fornece elementos suficientes para estimular o cuidado com nosso maior patrimônio, qual seja: a capacidade de manter uma produção tão expressiva de café arábica. Principalmente nos mercados dos países desenvolvidos, as evidências colhidas ao longo dessa crise nos mostram que este é um filão que tem futuro. Esse, porém, é um tema para outro momento.

Obs.: os dados de custo de produção apresentados nesse texto foram estimados pelo Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Agrário do Vietnã.
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Material escrito por:

sylvia saes

sylvia saes

Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)

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Bruno Varella Miranda

Bruno Varella Miranda

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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saulo antonio melo siqueira
SAULO ANTONIO MELO SIQUEIRA

CÁSSIA - MINAS GERAIS

EM 11/08/2009

Concordo com os autores do artigo, e, em parte, com o Edson. Acho que devemos levar em conta que as dificuldades de produção são diferentes no Brasil.

Vejamos: quais regiões poderão ter manejo e colheita totalmente mecanizados? Quais as regiões que não poderão incrementar a mecanização? Com tais diferenciais, não podemos, acho eu, colocarmos a viabilidade da cafeicultura em termos de Brasil, mas sim, de regiões. Atenciosamente,
Bruno Varella Miranda
BRUNO VARELLA MIRANDA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 28/07/2009

Prezado Edson,

Agradecemos a contribuição. De fato, a questão do êxodo rural é importante em um grande número de países, inclusive o Brasil. Uma série de fatores tem contribuído para tal quadro. É interessante notar que não é só o fracasso que leva as pessoas a abandonarem o campo: em muitos casos, o aumento do nível de escolaridade e a diversificação econômica na região contribui para que contingentes crescentes da população rural passem a buscar as cidades. Exemplo disso é a importância crescente do setor de serviços para a economia.

A princípio, acho que uma possível comparação entre o caso do Vietnã e a realidade brasileira estaria no que ocorre no país asiático hoje e o que aconteceu por aqui na década de 70. O rápido crescimento econômico, impulsionado pela atração de indústrias, contribui para um aumento da demanda por mão-de-obra. Como esses braços se encontravam originalmente nas zonas rurais, o resultado é o êxodo.

Atenciosamente,

Bruno e Sylvia
EDSON BARTOLAZZI
EDSON BARTOLAZZI

BOM JESUS DO ITABAPOANA - RIO DE JANEIRO - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 19/07/2009

Apesar de morar no noroeste fluminense, estou na divisa com sul do Espírito Santo. Minha região no passado teve um papel importante na produção de café. Até há pouco tempo, a região vizinha também produzia muito café. porém vejo um quadro decrescente, exatamente pela falta de mão de obra - êxodo rural , pois ninguém quer ficar na roça.

Tudo indica que só quem tem mão de obra familiar sobreviverá. Com tal escassez, os proprietários estão optando por outras culturas, como o eucalipto. Se esses fatores estiver ocorrendo também em outras regiões, não estaríamos no mesmo caminho dos Vietnamitas?