Tudo ou nada?
Em resumo, precisamos diminuir progressivamente o "custo" derivado da derrota em uma eleição. Ou, olhando sob outro ângulo, uma saída inteligente seria limitar os "ganhos" da vitória.
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A irritação é plenamente justificável. Daí a partir em direção aos pedidos apressados de impeachment, entretanto, há uma distância enorme. O momento atual exige indignação, desde que amparada na busca pelo aumento da transparência no Brasil. Mudar o ocupante da cadeira pouco contribui para transformar o país, caso essa seja realmente a intenção. Se há algo que a atual conjuntura demonstra é a perniciosa relação entre os agentes que detêm o poder em nossa sociedade, sejam eles funcionários públicos, representantes eleitos ou as cúpulas de muitas das maiores empresas brasileiras.
Para ser mais claro, os problemas atuais não se traduzem apenas em nomes, mas principalmente na forma como estes se relacionam. Algo preocupante é perceber que, para milhões de brasileiros, o mal está personificado em um determinado grupo de políticos com grande visibilidade. É bem verdade, muitos deles merecem uma punição exemplar. Isso não significa, no entanto, a adoção de atalhos como o clássico "fora Dilma". Como o processo que levou à saída de Fernando Collor nos mostra, impeachment sem reformas institucionais pouco contribui para reverter as práticas pouco republicanas que caracterizam a condução de parcela considerável da chamada "coisa pública".
Além de não trazer uma solução mágica, os atuais apelos podem azedar ainda mais a situação no longo prazo. A democracia apresenta inúmeros defeitos. Ainda assim, nenhuma outra forma de organizar a sociedade é menos pior, conforme bem lembrou Winston Churchill. Entre as muitas vantagens de um regime democrático está o fato de "diminuir os custos" de perda de uma eleição. Em uma ditadura, estar do lado errado pode sair caro: oposições costumam ser perseguidas e, muitas vezes, devem escolher entre a masmorra e o exílio. Não por acaso, déspotas costumam lidar com grupos de resistência usuários de táticas baseadas na violência. Tendo em vista a truculência de muitos tiranos ao redor do mundo, faz sentido a lógica da "melhor defesa sendo o ataque".
Na democracia, por outro lado, os grupos derrotados têm inúmeras garantias. Se a busca constante pelo poder é a razão de existência de um partido político, é evidente que suas atividades serão direcionadas segundo as estratégias disponíveis. Por exemplo, minorias são representadas no Parlamento, impondo limites aos atos dos vencedores. A principal esperança dos perdedores, entretanto, reside na realização de eleições de tempos em tempos. Ao institucionalizar o voto e garantir sua periodicidade, a democracia garante que tal luta pela liderança, que em outras condições poderia desembocar em conflitos violentos, seja resolvida por meio das urnas.
Nesse sentido, não é uma coincidência o fato de observarmos eleições relativamente tranquilas nas sociedades mais avançadas do globo. Graças ao método estabelecido pela democracia, os grupos interessados em alcançar o poder canalizam recursos financeiros e tempo em métodos pacíficos de persuasão dos indivíduos. Da mesma forma, espera-se que, quanto menor o risco derivado da perda de um pleito, menor a tentação de adoção de práticas proibidas para um triunfo nas urnas. Afinal, tirando alguns casos extremos, a maioria dos humanos prefere, sempre que possível, levar uma vida de respeito à lei do que o contrário.
De fato, o uso "caixa 2", prática comum no Brasil, reflete o alto temor de derrota política. Exceções à parte, um empresário somente aceita contribuir para uma campanha usando caminhos proibidos porque sabe que, se ficar de fora da festa dos vencedores, terá dificuldades para seguir adiante com seus negócios. Os partidos, por sua vez, ao verem as inúmeras oportunidades de administrar recursos de forma "discricionária", sabem que uma derrota eleitoral pode complicar ainda mais as possibilidades de triunfo no futuro. O resultado: o vale tudo observado a cada 2 anos em nosso país.
Em resumo, precisamos diminuir progressivamente o "custo" derivado da derrota em uma eleição. Ou, olhando sob outro ângulo, uma saída inteligente seria limitar os "ganhos" da vitória. Um bom primeiro passo: blindar as tesourarias das empresas estatais. Outra medida efetiva constitui a redução do número de cargos cuja ocupação dependa dos humores políticos, o que reduziria o espaço para o pagamento de favores com empregos públicos. Finalmente, seria interessante o estabelecimento um "acordo de mínimos" entre os partidos políticos, em que os gastos com campanha sejam adequados a uma realidade menos pujante. À oposição, assim, talvez seja uma estratégia mais inteligente lutar por reformas que fortaleçam o caráter competitivo das nossas eleições, e não por decisões que tragam mais instabilidade para o processo. A grande dúvida é saber se algum dos grupos hoje presentes em nosso Congresso realmente querem uma mudança, ou apenas furar a fila e abocanhar os privilégios de sempre.
Material escrito por:
Bruno Varella Miranda
Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri
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SÃO GABRIEL DA PALHA - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 02/04/2015
Penso que a mudança de governo que se elegeu na mentira e que hoje tem 12% de sua aprovação é benéfica e constitucional: TODO PODER EMANA DO POVO E EM SEU NOME SERÁ EXERCIDO".
Quem viveu após Collor sabe que o Brasil melhorou, entrou nos trilhos. Agora , perdeu o freio.
Não sei se minha avaliação é errada ou radical e não gostaria que fosse verdade: todos os países desenvolvidos e com democracia plena, passaram por uma guerra civil...
Hoje temos o Levy carregando sozinho este país. E se ele "cair"?
Que Deus nos ilumine!
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 02/04/2015
Agradeço a visita e a leitura atenta do artigo. Eu concordo contigo.
Apenas um rápido comentário sobre a frase que encerra seu texto: como você bem aponta, considero lamentável essa tentativa de associação entre "protestos" e uma tal "oligarquia dos olhos azuis". São essas simplificações da realidade, convenientes para muitos, um dos fatores que envenenam o debate e impedem mudanças reais.
Todos aqueles que se dedicam a reproduzir as distorções do sistema atual são os primeiros interessados em transformar uma discussão complexa em uma mera coleção de frases de efeito.
Atenciosamente
Bruno
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 02/04/2015
Muito obrigado pelo comentário. Concordo: mudanças reais levarão tempo. Para que esse tempo chegue, temos que trabalhar desde já. Um primeiro passo é reconhecer que soluções mágicas inexistem.
Atenciosamente
Bruno
OURO FINO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 01/04/2015

MONTE CARMELO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 01/04/2015
Seu raciocínio é ótimo, e estaria completamente correto se... fôssemos um povo que apenas "errou" desta vez. Mas o problema é muito maior. O brasileiro é culturalmente propenso ao ganhar imediato, é fã incondicional da Lei de Gerson citada pelo companheiro Antonio Carlos em seu comentário anterior.
Isto posto, sou forçado a aceitar que apenas tirar a presidente atual simplesmente colocaria iguais no lugar. Talvez não no método, pois nisso o partido da estrelinha é imbatível, mas na forma: sempre os poderosos de plantão estariam urdindo formas de perpetuar-se no poder e/ou sugar ao máximo a pátria -- que já não existe mais como ideal do povo, mas como uma tia rica e chata que pode nos deixar herança.
As reformas são de prazo muito longo, e passam necessariamente pela educação. A geração atual já se perdeu. Os jovens de hoje idem. A esperança começaria nas nossas crianças. No mínimo duas gerações para começar a mudar.
Diante disso, creio que o remédio é, sim, muito amargo. Estamos doentes. Deixar tudo como está é ignorar a doença e continuar a sofrer. O impeachment seria apenas tomar um analgésico, ter uma pequena melhora e padecer novamente em seguida.
A cura seria uma cirurgia de alto risco. Que talvez nem o paciente nem o médico querem arriscar.
E assim caminhamos para (continuarmos a) ser apenas fornecedores de commodities ao mundo. Sempre sujeitos aos humores dos outros, sejam eles as indústrias chinesas ou os fundos de investimentos americanos. Ou, como já comentei antes em um artigo seu, vamos rápidos à venezuelização. O pouco que temos, damos de bandeja a alguns países "cumpanheros", claro que sempre cobrando uma taxa de sucesso via consultorias duvidosas.
E, se reclamo agora, é porque sou dazelite de olhos azuis.
Grato pelo artigo.
...Marden.
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 01/04/2015
Gostaria de agradecer a leitura atenta do texto e sua sinceridade. Permita-me discordar do seu argumento inicial: não é porque, no momento, vivo nos EUA que não tenho condições de apresentar minha opinião sobre o que está ocorrendo no Brasil. Imagina se eu argumentasse que, pelo fato de você morar em São Gabriel da Palha, não pode comentar o que ocorre em Brasília porque vive a mais de 800 km da capital?
Por outro lado, é evidente que minha opinião não é melhor nem pior que qualquer outra. Esta apenas reflete as informações que tenho no momento e a forma como as processo. Gosto de pensar nessa coluna como uma conversa aberta, em que talvez leve alguma vantagem porque proponho o tema inicial. A partir daí, estou aberto a qualquer sugestão que venha...
Nesse sentido, veja que meu texto não aborda a política externa brasileira. Tenho minhas opiniões sobre o tema, e, caso haja interesse, posso escrever um texto que inaugure um debate sobre a questão. Não seria a primeira vez: lembro que, há algum tempo, escrevi um texto sobre o Mercosul que levou a mensagens e e-mails interessantes por parte de leitores(as).
Tendo a ser resistente, porém, a determinados argumentos surgidos de uma ala dos chamados "formadores de opinião" em que tudo o que é publicado é feito para mostrar que determinado partido é ruim. Isso vale tanto para a esquerda quanto para a direita.
Finalmente, você tem todo o direito de estar irritado. Acredito, eu também estou. Muito. Só não acho que devemos correr o risco de jogar pelo alto mais de 25 anos de avanços institucionais apenas porque estamos irritados.
Atenciosamente
Bruno Miranda
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 01/04/2015
Obrigado pela participação. Fico feliz por seu comentário - "falou quase tudo" -, dado que isso significa que, para essa conversa ficar completa, precisamos da contribuição de vocês, prezados(as) leitores(as).
Acredito que, com regras claras e aumento da transparência, seremos capazes de controlar melhor o peso das "tentações" sobre os nossos representantes eleitos. Um problema é que esses mesmos deputados, senadores, vereadores, etc., legislam em causa própria. Logo, é necessário buscarmos formas de influenciar de forma mais direta a criação de instrumentos que limitem sua capacidade de capturar o que é de todos.
Atenciosamente
Bruno Miranda
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 01/04/2015
Agradeço a sua visita. Concordo plenamente contigo: cuidar do método segundo o qual escolhemos nossos representantes e trabalhar para seu fortalecimento deve ser um objetivo central em nossa sociedade.
Atenciosamente
Bruno Miranda

INCONFIDENTES - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 01/04/2015

BOA ESPERANÇA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 01/04/2015
O povo deste gigante deitado eternamente..... (você já deve estar cansado de saber) neste caso, desnecessário tecer maiores considerações quanto a cultura política. A Lei de Gerson impera em todos os setores da sociedade. Abcs.

SÃO GABRIEL DA PALHA - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 01/04/2015
O que você sabe do Foro de São Paulo?
A politica externa brasileira, não é polita de Estado e sim de partido!