Dirigindo por uma rodovia, eis que, no outro sentido, um carro sinaliza com o farol, indicando a existência de fato digno de atenção pelo caminho. A razão para o ato de solidariedade surge cerca de dois quilômetros adiante: a presença de uma viatura da polícia rodoviária. A cena descrita acima, corriqueira no Brasil, ilustra um interessante aspecto de nossa relação com as instituições.
O que são as instituições? Segundo a definição de Douglass North, estas constituem as "regras do jogo", responsáveis por assegurar maior previsibilidade às ações no campo social. Se os humanos sentem a necessidade de construí-las, é porque as instituições diminuem a incerteza em nossas vidas, permitindo que nos concentremos, por exemplo, na acumulação de riquezas.
Conforme North não se cansa de nos lembrar, uma descrição das instituições que se limitasse ao conjunto de regras formais seria incompleta. Evidentemente, nem tudo o que traz previsibilidade à existência humana está descrito na forma de lei. Por isso, os costumes de uma sociedade são tão importantes para a compreensão de suas relações quanto a legislação vigente.
Ao sinalizar a existência de uma viatura na estrada, o indivíduo não faz mais que perpetuar um costume. Este provavelmente nem se dê conta de todas as implicações do ato, realizando-o de forma mecânica. Como ocorre no uso de outras instituições, ali o objetivo é a diminuição da incerteza. Em outras palavras, a figura coercitiva do policial é interpretada como um fator de imprevisibilidade.
Haveria motivos, porém, para esse comportamento? Considerando que as rodovias, as placas de sinalização e a viatura manifestam a ação do Estado, e que este resulta de um acordo entre os cidadãos, chegamos à conclusão de que o costume é questionável. Embora paguemos impostos e votemos para a manutenção de uma estrutura capaz de administrar nossa convivência, possuímos práticas que sabotam a ação estatal.
Pior, identificamos perigos em algo que deriva de nossa vontade expressa. Confiamos mais na capacidade individual de resolver os problemas conforme estes apareçam - a expressão "jeitinho brasileiro" é inconfundível - do que nas respostas dadas pelas instituições formais. Em uma sociedade em que as regras não são valorizadas da forma como deveriam ser, é compreensível a (falta de) postura da maioria de nossos legisladores.
Alguns quilômetros adiante, próximo a um barranco, a multidão se aglomera. Pelas marcas de pneu na rodovia, é provável que um carro tenha perdido o controle e caído. Muitas vezes nos esquecemos desse detalhe, mas a incerteza constitui um aspecto inerente à vida humana. Ao criar regras de convivência, uma sociedade busca diminuir a possibilidade de acontecimento do imprevisível, segundo suas prioridades. Resta questionarmos que tipo de incerteza tem nos inspirado nas práticas cotidianas.
Que tipo de incerteza preferimos?
Dirigindo por uma rodovia, eis que, no outro sentido, um carro sinaliza com o farol, indicando a existência de fato digno de atenção pelo caminho. A razão para o ato de solidariedade surge cerca de dois quilômetros adiante: a presença de uma viatura da polícia rodoviária. A cena descrita acima, corriqueira no Brasil, ilustra um interessante aspecto de nossa relação com as instituições. O que são as instituições?
Material escrito por:
sylvia saes
Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)
Acessar todos os materiaisBruno Varella Miranda
Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri
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CARLOS EDUARDO COSTA MARIA
ANHEMBI - SÃO PAULO - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS
EM 02/08/2010
Bem a incerteza é inerente a condição humana e cada um tem lá sua preferência.O problema mesmo são as "certezas" que têm consequências mais significativas no nosso dia a dia.Só para citar algumas: da impunidade,do descaso governamental,do mercenarismo da justiça e por aí vai.