Quanto tempo demoraremos para aprender?

A cafeicultura brasileira, com sua história de mais de um século de engajamento político, já provou em diversas ocasiões ser capaz de liderar movimentos voltados a defender seus interesses. Na atualidade, espera-se que esse setor consiga, de uma vez por todas, estabelecer um planejamento de longo prazo, realmente preocupado com seu maior patrimônio, qual seja: a reputação do café brasileiro.

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A coluna dessa quinzena será mais curta que de costume, e isso por um só motivo. Infelizmente, a recorrência de erros do passado faz com que qualquer exagero descritivo soe redundante, frente a problemas que o setor já está cansado de saber que existem. Porém, refrescar a memória daqueles que vivem o cotidiano da cafeicultura constitui um exercício sempre salutar.

É com pesar que o setor cafeeiro toma ciência, mais uma vez, da ocorrência de irregularidades com cafés exportados para o Japão. No caso, as autoridades japonesas encontraram resíduos tóxicos acima do limite permitido pelas normas do país.

Segundo noticiado, devido à recorrência do evento, as autoridades japonesas podem até mesmo determinar a proibição total da entrada do café brasileiro, algo que já ocorreu com o café da Etiópia.

Este fato é tão grave que deve ser objeto de reflexão das autoridades brasileiras, das empresas de agroquímicos e do setor como um todo. As autoridades pecam por manterem um sistema de fiscalização obsoleto, incapaz de dar respostas às novas demandas do comércio internacional.

Já as empresas de agroquímicos pecam por não educar seus consumidores acerca do uso correto de seus produtos, ou o que é o pior, por não educar seus representantes para que estes, no afã de cumprir metas das empresas, acabem receitando mais do que o devido.

Por fim, peca o setor, que não assume a responsabilidade de propor ações coletivas de modo a evitar que todos saiam perdendo nessa história. Como um típico caso de externalidade negativa, ou seja, de erro que compromete todo um setor, ações para que a repetição de tal quadro seja evitada tem que ser adotadas por meio de estratégias coletivas.

Frente a consumidores cada vez mais exigentes, perdemos todos. A cafeicultura brasileira, com sua história de mais de um século de engajamento político, já provou em diversas ocasiões ser capaz de liderar movimentos voltados a defender seus interesses. Na atualidade, espera-se que esse setor consiga, de uma vez por todas, estabelecer um planejamento de longo prazo, realmente preocupado com seu maior patrimônio, qual seja: a reputação do café brasileiro.
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Material escrito por:

sylvia saes

sylvia saes

Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)

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Bruno Varella Miranda

Bruno Varella Miranda

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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Juliano Tarabal
JULIANO TARABAL

PATROCÍNIO - MINAS GERAIS

EM 29/06/2009

Prezado João Remédio,

Recebemos sempre a visita de produtores de outras regiões, nas quais trocamos muitas experiências e onde sempre visitante e anfitrião aprendem muito com esta troca.

A FUNDAÇÃO CAFÉ DO CERRADO está de portas abertas para os cafeicultores da sua região. Caso queiram nos visitar. Certamente que não temos e não existe receita para a nossa atividade, o que devemos buscar sempre é conhecimento e troca de experiencias.
João Carlos Remedio
JOÃO CARLOS REMEDIO

SÃO JOSÉ DOS CAMPOS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 26/06/2009

Juliano, eu e milhares de cafeicultores honestos deste país, gostaríamos de receber orientação desse grupo de cafeicultor que está feliz com a situação da cafeicultura. Vender café aos preços praticados e ainda dar uma condição de vida boa para seus familiares é motivo para ser seguido. Só queríamos essa receita. Obrigado!
Juliano Tarabal
JULIANO TARABAL

PATROCÍNIO - MINAS GERAIS

EM 23/06/2009

Prezado Joao Carlos Remédio,

Minhas criticas não foram em momento algum de cunho pessoal. Não sou cafeicultor, tenho familiares que produzem café, faço parte de um Sistema composto por produtores de café, mas eu sou há 13 anos profissional do café, hoje Eng. Agrônomo, e sempre estive totalmente envolvido na cafeicultura, em práticas associativistas e cooperativistas, na pesquisa pela qualidade e apoiando a cafeicultura na região em que vivo e sempre que posso conhecendo também outras regiões cafeeiras.

Realmente fiz sim criticas que na visão do sr. não condizem com sua realidade. Acho que usar o termo "nossa realidade" é muito generalista, pois graças a Deus ou a quem quer que seja, conheço produtores que se satisfazem em muito com sua atividade, criam suas familias, propiciam estudo a seus filhos, etc e tal. Agora, é óbvio, insisto em dizer. Toda atividade tem sua natural heterogeneidade quanto a seus membros ou/e produtores, neste caso. A realidade de um não é a realidade do outro. O custo de um não é o custo de outro.

O que quero alertá-lo sem nenhuma pretensão é quanto a olhar mais para a sua propriedade ou para os meios com os quais o sr. trabalha. O sr. realiza algum tipo de análise de custos de sua produção? O sr. é realmente um cafeicultor full-time ou apenas investe sobras de outra atividade na cafeicultura? O sr. participa efetivamente de alguma cooperativa ou associação ligada a sua atividade? O sr busca capacitação tanto para si mesmo quanto para seus funcionários? O sr. comercializa sua produção junto a estabelecimentos idôneos? O sr. tem a plena consciencia da qualidade do café que produz? O sr. utiliza dinheiro obtido em linhas de financiamento destinadas para sua atividade na compra de outros bens? Ex: Carros.

Prezado, quero lhe lembrar, acho extremamente produtivo estabelecer discussões que geram reflexões... e novamente, não creio sinceramente que mesmo com todas as dificuldades a cafeiculttura nacional esteja no "buraco" como o sr mesmo disse... Creio sim que uma série de erros cometidos ao longo do tempo por muitos produtores acarretam obviamente em endividamento, falência e outros resultados que certamente não são aqueles pelos quais trabalhamos em prol.
Alonso Banheti
ALONSO BANHETI

LAJINHA - MINAS GERAIS

EM 23/06/2009

A ideia seria a de não se criar um disputa de opiniões, mas de concatenação das mesmas, associando-as cada qual à sua. Entendo que todos tem os seus conflitos.

Compreendo a colocação do nosso amigo Hélio de serra Negra e acrescentaria a necessidade das organizações cooperativistas ou associações de córregos - na nossa região existem muitos, pela topografia regional - existirem com objetivos e ai sim eu diria, a seriedade está acima de qualquer outro pressuposto!

O Brasil é realmente, ainda, o mais importante produtor de café do mundo, mas até quando?

Não concordo em nos apoiarmos sobre o que somos ou já fomos, mas pela busca do "benchmarking" cotidiano! E entendo que o nosso pequeno agricultor ainda não está apto para atingir essa postura qualitativa que o mercado de primeiro mundo exige. Se não houver um esforço comunitário na erradicação da falta de conhecimento entre os pequenos e também dos grandes, o nosso passado nos enterrará como fornecedor do mundo. O Japão que o diga!

De quem seria a responsabilidade de fazê-los entender isso? Não se pode esperar qualquer atividade positiva de nosso sistema geral, mas somente as pequenas organizações comunitárias assim como cooperativistas poderiam sustentabilizar um desenvolvimento compatível com a demanda qualitativa mundial. Pequenos grupos defendem interesses geral do grupo, até porque um fiscaliza o outro. Mas Grupos macros tentem a se estabilizarem em função de poucos e dos mais influentes quantitivamente, perdendo o controle qualitativo.

Não podemos nos iludir. O crescimento quantitativo nos torna vulnerável! Mas o qualitativo nos transmite sustentabilidade, mesmo sendo fisico e organizacionamente, pequenos!
Helio Silveira
HELIO SILVEIRA

SERRA NEGRA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 21/06/2009

O cafeicultor que não faz parte de associações ou cooperativas, ou seja - a maioria agricultores familiares, morando na roça, vida simples, todo o serviço feito por eles - oferta um volume grande de café.

Nós, cafeicultores cada um dentro de seu município, temos que nos preocupar com a cafeicultura familiar para que a oferta diminua e os ditos familiares possam manter seus filhos na zona rural, pois muitos desses filhos trabalham nos vizinhos ou nas cidades.

Se cada município produtor de café se preocupar em orientar e ou capacitar os cafeicultores familiares, tenho certeza que a oferta diminuira. NA MINHA REGIAO VENDE-SE AINDA CAFÉ EM COCO.
Ernesto Lima Mena
ERNESTO LIMA MENA

PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 19/06/2009

Muy correcto!!
João Carlos Remedio
JOÃO CARLOS REMEDIO

SÃO JOSÉ DOS CAMPOS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 17/06/2009

Acredito que o "cafeicultor" acima deva estar vivendo outra realidade. Tudo que ele falou, as críticas que fez, não condizem com nossa realidade. Tudo seria "bonitinho" não estivéssemos nesse buraco.

O grande míope é o que não quer enxergar. Sou bastante sério com tudo que faço na vida. Jamais brincaria com um assunto tão sério e que muito me tem atingido.
Juliano Tarabal
JULIANO TARABAL

PATROCÍNIO - MINAS GERAIS

EM 16/06/2009

A CAFEICULTURA NACIONAL não deve ser penalizada por tal ocorrido. Muito me admira colega "cafeicultor" acima num discurso melodramático discorrendo sobre a sua realidade... Certamente que como quaisquer setor econômico a cafeicultura de ciclo em ciclo acaba sendo alvo de crises, assim como setor automobilistico, petrolifero, sucroalcooleiro e tantos mais setores estratégicos dentro de qualquer enconomia.

Agora, trazendo para a realidade, é sempre ruim sim recebermos noticias como esta que deu vida a este artigo, porém numa visão muito mais otimista nunca se viu falar tanto em Sustentabilidade e boas práticas agricolas como neste momento na cafeicultura nacional. Um dos selos mais importantes de certificação, que prega em muito a preservação do meio ambiente, que é Rainforest Alliance, vem tendo cada vez mais propriedades certificadas, o que nos leva a crer que os produtores vem sim tendo mais consciencia frente às novas tendencias conservacionistas e também a tendencias de mercado, pois este sim é quem "rege a banda".

Agora, se ainda há poucos e arcaicos "produtores" que teimam em manejar suas lavouras com técnicas destrutivas e ultrapassadas, francamente não creio ser a melhor maneira dizer que a cafeicultura nacional deva pagar o pato.

É neste momento que os responsáveis por nossas relacões internacionais devem se posicionar frente à situação e dizer que temos a cafeicultura mais competitiva do mundo e que não brigamos apenas por sermos os maiores em volume, mas que temos sim muita gente séria e competente trabalhando para que sejamos os melhores em qualidade, buscando indicações geograficas como aqui no Café do Cerrado e também Alta Mogiana, buscando Denominação de Origem, melhoria nos processos de pós-colheita, amarzenamento, etc.

Um caso que já aconteceu sim com a Etiópia, que produz um café - com o qual eu particularmente me delicio, por sua tamanha doçura - mas vamos falar de competência e mercado. Não podemos comparar Etiopia com Brasil. Se nosso poder de negociação não for maior que o da Etiópia, ai sim deveremos nos preocupar.

Creio que é importante sim debatermos tais assuntos para que que não ocorram mais situações desconfortáveis frente a um dos mercados que mais paga bem pelo café brasileiro, mas em contraproposta, acho no mínimo degradante dizer: "Será o final dos tempos para a cafeicultura?"

Francamente senhores, final dos tempos é um termo extremamente "bíblico" para ser aplicado a um tipo de assunto tão sério quanto este. Certamente podemos sim dizer que são tempos de reciclagem, tempos de renovação, de melhoria, de conscientização e principalmente tempos de competência, onde quem não se alinhavar as novas exigencias de mercado, de tecnologias, de conhecimento terá sim de abandonar sua atividade ou então ve-la se decair frente ao conformismo, frente ao conservacionismo e a tantos outros fatores que emperram o crescimento e deixam miopes muitos pensamentos.
maury faleiros
MAURY FALEIROS

FRANCA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 15/06/2009

Os agrônomos hoje são reféns das multinacionais: têm metas, metas e mais metas.
João Carlos Remedio
JOÃO CARLOS REMEDIO

SÃO JOSÉ DOS CAMPOS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 15/06/2009

Parabéns Maria Sylvia e Bruno por mais esse artigo. Obrigado por tê-lo escrito de uma maneira bem sucinta, que me encorajou a lê-lo, tamanha é minha falta de esperança com o café. Me sinto cada dia que passa um verdadeiro idiota, acreditando nessa loteria. Não bastasse tudo que vêm ocorrendo com o setor, agora mais esse fato, é de tirar o sono.

O desânimo com o café é tanto que têm cafeicultor rezando por geada. É como se a morte fosse o único remédio para a doença. Aí eu me incluo e gostaria que a geada chegasse primeiro em minha lavoura. Quem sabe, não tendo que jogar dinheiro fora já seria uma boa fonte de renda?

Chega de ficar sonhando com essa mega sena, ela está jogando a todos no buraco, é uma pena mais é a realidade. Quase todos cafeicultores estão endividados, estamos brincando de rolar dívidas. As medidas governamentais para com o setor são lentas e sem nenhum impacto perante o mercado. Perdemos de vez a credibilidade. Será o final dos tempos para a cafeicultura? Para mim parece ser!