Quem gosta de futebol sabe que, depois de décadas de espera, o Corinthians enfim venceu a Copa Libertadores em 2012. O leitor sabe também que o time da capital paulista se encontra no Japão, onde disputará o Mundial de Clubes da FIFA. Finalmente, é provável que tenha visto nos jornais aquilo que muitos dizem ser uma "invasão alvinegra": a ida de milhares de torcedores para acompanhar o time do coração de perto. Loucura ou genuína mostra de amor pelo time, a ideia de voar até Tóquio para torcer por Tite e seus comandados custa caro. E isso nos leva a uma primeira pergunta: quanto vale a pena pagar para ver o Corinthians no Mundial de Clubes?
Obviamente, inexiste uma resposta única esta questão. E nem deveria ser diferente, dado que qualquer opinião refletiria as nossas preferências. O corintiano certamente aceitaria pagar mais do que um palmeirense, e mesmo entre os alvinegros há diversos níveis de propensão a abrir a carteira para realizar o sonho. Até aí, nenhuma novidade; trata-se de algo que a maioria das pessoas enxerga facilmente quando estamos diante de um plano que exige longas viagens, reservas de hotel, etc. Voltemos um pouco no tempo, porém: supondo que more na mesma cidade em que o jogo será realizado, quanto valeria a pena pagar para ver o Corinthians na final da Libertadores?
É aqui que a coisa complica. Quando perguntados, muitos dirão: R$ 500,00, R$ 1.000,00, R$ 2.000,00. Entretanto, a percepção geral é a de que um ingresso vendido a esse valor é um absurdo. Mais, se alguém compra um ingresso e depois decide revendê-lo, aí estamos falando de um pecado grave. Não por acaso, a imprensa de São Paulo deu enorme atenção a sites em que os donos das cobiçadas entradas podiam revendê-las. Em geral, a imprensão era a de que estávamos diante de um absurdo.
Isso posto, pergunto: dado que o estádio tem um tamanho limitado, quem mereceria estar ali no grande dia? Alguns poderão dizer que devem ir os mais fanáticos pelo time; desconheço, porém, um torcedor que não tenha ao menos uma história capaz de demonstrar o seu amor incondicional. Outros responderão: é preciso que os torcedores mais humildes tenham um lugar na festa. Entre os milhões de seguidores do Corinthians, quantos estariam nessa categoria? E qual seria o critério objetivo? Difícil, não? E assim por diante: busquemos o critério que for, que jamais encontraremos uma forma de assegurar "justiça" na distribuição das entradas.
Mesmo que a conclusão seja algo como "devem ir ao estádio aqueles que conseguiram comprar ingressos na bilheteria", há motivos de sobra para discordar. Suponha a existência de dois torcedores, um deles detentor de um salário diário de R$ 300,00 e o outro um estudante com agenda flexível. Imagine também que, para comprar um ingresso para a final da Libertadores, é preciso passar o dia inteiro na fila. Logo vemos que, para o indivíduo que ganha R$ 300,00, faltar um dia no emprego envolve custos bastante superiores aos incorridos pelo estudante. Indo além, é provável que o primeiro torcedor prefira pagar um pouco mais pelo ingresso, desde que isso não acarrete a perda de um dia de trabalho. Para que haja um acordo favorável às duas partes aqui, basta que ambos encontrem um preço que satisfaça o estudante e seja inferior aos R$ 300,00 que o primeiro torcedor ganha normalmente.
Em resumo, quem se escandaliza quando vê um ingresso sendo vendido por R$ 5.000,00 em um desses sites muitas vezes se esquece que o problema não está no preço em si. É possível que a entrada nem seja vendida e, caso algum "louco" a compre, é porque tem motivos de sobra para fazê-lo: suas preferências pessoais. Dito de outra forma, talvez o comprador gastão prefira pagar um alto preço do que ficar de fora da festa. Problemático seria se apenas um indivíduo - ou empresa - detivesse um grande número de ingressos, influenciando assim os preços. Desde que não haja poder de mercado, porém, é difícil encontrar um argumento de oposição à prática. Por sinal, a rotina nos mostra que a maioria das pessoas adora a liberdade para negociar as mais diversas coisas: basta entrarmos em algum dos inúmeros sites dedicados a leiloar artigos na Internet para termos noção disso.
Qual o preço de uma paixão?
Quando vale ver uma partida importante? Dando o exemplo do mercado de ingressos para jogos importantes, o colunista Bruno Miranda discute o sentido - ou a falta de sentido - de limitarmos a interação dos indivíduos nos mercados de determinados bens. O exemplo, embora pareça distante da realidade de muitos em um primeiro momento, ajuda na reflexão do significado dos mercados em nossas vidas.
Publicado em: - 3 minutos de leitura
Material escrito por:
Bruno Varella Miranda
Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri
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ERÁSIO JR.
FRANCA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 11/12/2012
essa comparação de ´´qual é o preço de uma paixão´´ pode servir também, para nós cafeicultores, por trabalharmos num país de possui uma economia que oscila diariamente como o câmbio, e por produzirmos uma commoditie que é quase bianual, que é o caso do café arábica. Só loucos mesmo, como nós dessa classe da cafeicultura, que faz isso. Gastamos todo santo dia com peças, insumos, encargos, serviços, etc ... e não sabemos se vamos ou não colher o sonho plantado e por que valor será realizado; por quanto vender? É sempre vivendo ´´com emoção´´ e sonhando.... Mas garanto ao senhor, Mestre, que sou a última geração que está pagando o preço por essa paixão, porque meus filhos não querem essa vida de sonhos para eles. Não por paixão, coração, mas sim , pela razão. É fato.