Qual a cor do problema?

Como era de se esperar, dada a importância do tema, nosso último artigo, intitulado "Nem preto nem branco: cinza", motivou a participação de diversos leitores do CaféPoint. Juntamente com os comentários feitos ao texto original de Luiz Hafers e Marcelo Vieira, as contribuições recebidas demonstram o tamanho do desafio a ser enfrentado. O melhor de tudo é a predisposição ao debate, requisito para a resolução dos problemas que atingem a cafeicultura. Em meio a tantos tópicos de interesse, utilizaremos a resposta dada por Hafers e Vieira a nosso texto a fim de aprofundar um pouco mais a discussão.

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Como era de se esperar, dada a importância do tema, nosso último artigo, intitulado "Nem preto nem branco: cinza", motivou a participação de diversos leitores do CaféPoint. Juntamente com os comentários feitos ao texto original de Luiz Hafers e Marcelo Vieira, as contribuições recebidas nessas duas semanas demonstram o tamanho do desafio a ser enfrentado. O melhor de tudo, sem dúvida, é a predisposição ao debate, requisito para a resolução dos problemas que atingem a cafeicultura.

Em meio a tantos tópicos de interesse, utilizaremos a resposta dada por Hafers e Vieira a nosso texto a fim de aprofundar um pouco mais a discussão. Afinal, essa espelha, de maneira geral, as inquietações de outros participantes do debate, ainda que as conclusões não coincidam. A opção por seguir a estrutura da resposta, assim, busca principalmente estruturar as discussões.

Precisamos de regras ou de decisões?

A impressão deixada por "Café: fim de um ciclo", ao menos em nossa leitura, foi a de que o custo da mão-de-obra era a principal variável associada às dificuldades dos cafeicultores. Se não é o caso, melhor, já que podemos discutir as limitações inerentes a qualquer política que proponha um "começar de novo". Em outras palavras, gostaríamos de enfatizar a diferença entre a intervenção e a regulação, já afirmando, de antemão, que a proposta de Hafers e Vieira se enquadra na primeira categoria, por seu foco no curto prazo.

Não há dúvidas de que os custos para os produtores rurais são crescentes, e que as legislações ambiental e trabalhista impõem uma pesada carga ao setor. É evidente, da mesma forma, o efeito perverso de determinadas deficiências estruturais - como a inadequação de nossa infra-estrutura em boa parte do país e a falta de confiabilidade das instituições brasileiras -, prejudiciais à atividade econômica como um todo. A dúvida é: qual a melhor forma de conviver com esse panorama?

Ao reconhecer que as transformações sofridas pelo Brasil nos últimos anos são positivas, Hafers e Vieira chamam a atenção para um fato importante: teremos que lidar com diversos desses custos no futuro. Daí decorre o imperativo do aprendizado, por um lado, e da militância política, de outro. O que temos visto, nos últimos tempos, são queixas generalizadas e a instituição de uma agenda voltada para o passado nessas questões. Definitivamente, este não é o melhor caminho. É impossível imaginar qualquer solução que envolva a sociedade - e a faça arcar com os custos correspondentes -, enquanto parte das lideranças ligadas à agricultura sigam optando pelo discurso fácil da "agricultura X resto do Brasil".

O confronto dá a sensação de proteção e pode até render alguns votos. Desvia as atenções de todos, no entanto, daquele que deveria ser o foco do debate. O artigo de Hafers e Vieira possibilita a reflexão acerca de algo que vai além dessas transformações importantes no país: qual a melhor forma de regular as relações econômicas no Brasil? Quais as responsabilidades e direitos dos agentes atingidos por essas regras? Mais especificamente, o momento exige regras respeitadas por todos, em primeiro lugar, e que permitam a consecução de determinados objetivos - econômicos, ambientais ou sociais - sem que, para isso, uma parcela da população seja penalizada.

É sempre bom lembrar que nem sempre mais regras levam a uma situação melhor. Garantir informação aos agentes para que tomem as decisões que considerem pertinentes parece ser a melhor solução para qualquer setor econômico. A proposta de redução da dívida falha em oferecer ambos os resultados. Não discute tópicos estruturais, como as regras por trás da relação agricultura/sociedade, tampouco questiona a ausência de dados que nos permitam dimensionar o real estado da cafeicultura.

Cafés especiais e gestão: duas faces da mesma moeda

Concordamos que a comercialização de cafés especiais não representa uma solução para o conjunto da cafeicultura na atualidade. Inclusive, foi o que dissemos no artigo anterior. Isso não significa que essa alternativa deva ser esquecida, afinal, ainda que limitada, poderá trazer melhores condições a centenas, talvez milhares de cafeicultores. Seria um erro assumirmos uma visão estática do mercado, como se todas as oportunidades já estivessem esgotadas. Se os atributos éticos têm valorização crescente no mercado internacional - ainda que esse filão seja reduzido -, por que não explorarmos mais nossas potencialidades?

Da mesma maneira, reconhecermos a competência de nossos cafeicultores na administração de seu patrimônio não exclui o desejo de produtores mais conscientes de sua atividade. Hafers e Vieira, ao compararem a atividade agrícola com a dos antepassados, subestimam as mudanças ocorridas no mundo ao longo das últimas décadas e romantizam a atuação dos pioneiros do setor. A história do café no Brasil, em grande medida, é escrita por produtores com considerável consciência de seus interesses, o que os levou à militância política, e plena noção da estrutura do mercado internacional. O ideal seria que nossos milhares de cafeicultores tenham, da mesma forma como os barões do passado, acesso a informações e a oportunidade de participar ativamente da vida política do país.

Considerações finais

Em resumo, não acreditamos que a redução das dívidas trará benefícios de longo prazo à cafeicultura brasileira. Trará certamente alívio no curto prazo e a sensação de dever cumprido. Não que discutir a questão da dívida seja uma heresia. Podemos aproveitar, porém, a vontade de encontrar soluções para discutir outros temas, ainda que mais complexos. A experiência nos mostra que a resolução desses problemas exige uma resposta que vá além da conjuntura. A proposta original de Hafers e Vieira acerta ao identificar gargalos na cafeicultura brasileira, mas desliza ao acreditar que "começar do zero" eliminará boa parte das mazelas.

Nem mesmo há certeza quanto aos efeitos dessa iniciativa sobre a produção nacional. Uma dúvida pertinente diz respeito ao tamanho da produção dita ineficiente no Brasil. Seria a erradição dos cafezais via equacionamento do problema das dívidas uma ação que resultaria em uma diminuição consistente da produção? No momento é difícil apontar qualquer resposta, dado que não estão claros os incentivos de uma "regra de saída" sobre os cafeicultores, mas, de qualquer forma, essa é uma questão que merece tratamento aprofundado no futuro.

Ademais, se por um lado é certo que a situação de muitos cafeicultores está "preta", por outro cabe sublinharmos a necessidade de soluções para o setor que se encaixem no contexto do país. Daí a importância de uma análise que, na medida do possível, não se limite aos problemas imediatos de alguns de seus agentes. Ninguém sabe, na verdade, qual é a melhor cor para definir a cafeicultura; o que, sim, sabemos, é que descrições do mundo que exageram uma tonalidade ou outra tendem a refletir apenas um lado da história. Para acadêmicos, tantas vezes criticados pelo apego à teoria e ao distanciamento do mundo real, a defesa de análises "cinzas" constitui uma obrigação.

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Café, o fim de um ciclo - Alternativas de ação

Café, o fim de um ciclo
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Material escrito por:

sylvia saes

sylvia saes

Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)

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Bruno Varella Miranda

Bruno Varella Miranda

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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Renato H. Fernandes
RENATO H. FERNANDES

TEIXEIRA DE FREITAS - BAHIA - COMÉRCIO DE CAFÉ (B2B)

EM 24/02/2010

Caros Sylvia e Bruno,

Sua síntese:

"O que temos visto, nos últimos tempos, são queixas generalizadas e a instituição de uma agenda voltada para o passado nessas questões. Definitivamente, este não é o melhor caminho. "

é perfeita.

Mesmo com carência de dados e necessitando sim de estudos de impacto, acredito que a proposta de Luiz Hafres e Marcelo Vieira teve o grande mérito de ser realmente propositiva. Basta do velho discurso de reclamações e de busca de um passado que não vai voltar (estoques públicos, retenções, preços mínimos acima da realidade, café de consumo médio 100% arábica, etc.).

Concordo quando dizem que a proposta deles é conjuntural e torço para que, um dia, o planejamento estratégico da cadeia produtiva do café do Brasil se torne algo rotineiro e não mais uma sucessão de documentos pouco representativos e não implementados.

Abraços,

Renato