O Vietnã é o de menos
Primeiramente, o atual debate ilustra a forma errática com que a equipe de Michel Temer lida com questões polêmicas. Nada novo em um país viciado em ações focadas no curto prazo. Por Bruno Varella Miranda, mestre em Administração pela USP e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri - Columbia.
Publicado em: - 3 minutos de leitura
Primeiramente, o atual debate ilustra a forma errática com que a equipe de Michel Temer lida com questões polêmicas. Nada novo em um país viciado em ações focadas no curto prazo. Por um momento, abandonemos a defesa de uma decisão específica. Independentemente da solução preferida, o desfecho menos indicado é aquele em que o governo oscila entre posições opostas segundo o calor do momento. Pelo conjunto da obra, a atual administração sugere não possuir um conjunto bem definido de critérios para avaliar os efeitos de suas escolhas. Tudo o que importa é maximizar a posição relativa no tabuleiro político, garantindo a perspectiva de votações favoráveis em um futuro que tarda em chegar.
Somos todos prejudicados por tamanha desorientação. Compartilhamos a responsabilidade por tal desfecho, entretanto. Uma coordenação mais efetiva entre os distintos agentes privados envolvidos nessa história poderia gerar uma solução que atrelasse o alívio à indústria com a reivindicação conjunta de políticas capazes de melhorar a rentabilidade dos produtores em momentos de maior oferta. Ademais, devemos pensar sobre como incentivar um maior uso de mecanismos de proteção contra eventos climáticos extremos.
Por outro lado, falta clareza sobre como estabelecer esse diálogo. Em certa medida, o setor público vacila por desconhecer as preferências dos cafeicultores. Ao setor, falta uma agenda propositiva que vá além das questões emergenciais, identificando mecanismos de mercado que atenuem problemas estruturais enfrentados pela produção. Como definir tal pauta? Trata-se de uma pergunta sem resposta até o momento. Demandas existem, mas a impressão é a de que os mecanismos institucionais existentes são insuficientes para fomentar o debate.
A discussão sobre a conveniência de importarmos café do Vietnã também revela sua parcela de surrealismo. Na era dos “fatos alternativos”, a diferença entre o estoque de 2,1 milhões de sacas estimado pelo governo e os 4,4 milhões de sacas apontados pelo setor é digna de nota. Com tamanha discrepância nos dados disponíveis, não há política bem intencionada que resista. Se somos incapazes de estabelecer um sistema de estatísticas em que todos as partes envolvidas na polêmica confiem, uma solução consensual é impossível. Tampouco poderemos sugerir estratégias de longo prazo para o setor.
De fato, do tal “longo prazo” não escaparemos. E ele sugere o aprofundamento de importantes desafios. O principal deles não é a ameaça trazida pela importação de café vietnamita, mas o fator que nos levou a esse debate: a seca. Inúmeros estudos publicados desde a virada do século XXI alertam para os efeitos nocivos da mudança climática sobre a cafeicultura brasileira. Devemos levar a sério o debate sobre estratégias de adaptação e mitigação aos distintos cenários apontados por nossos pesquisadores. Por exemplo, precisamos rediscutir as regras de proteção e uso dos recursos hídricos no Espírito Santo. Da mesma maneira, faz-se necessário um debate maduro sobre o atual padrão de uso da terra em áreas afetadas pela escassez de água. Necessitamos conscientizar agricultores que eventuais mudanças buscam proteger valiosos recursos para que sigam produzindo. Finalmente, apoiemos o valioso trabalho realizado por instituições como o Instituto Capixada de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), tão castigadas em momentos de vacas magras como o atual.
A lista de desafios acima é incompleta, e não poderia ser diferente. Quantas páginas não precisaríamos para apontar todos as questões a serem discutidas na cafeicultura? Tal missão, porém, pertence a cada um de nós. Se há algo de bom em momentos de descontentamento, é o aumento da predisposição das pessoas a deixarem sua opinião. Suspeito, porém, que a atual estrutura de governança do setor tem sido incapaz de organizar tais preferências. Tampouco parecem dadas as condições para que os diversos interesses existentes sejam acomodados em uma visão estratégica mais coerente. Nem mesmo temos clareza sobre aquilo que poderíamos abrir mão para chegar a consensos.
De fato, a controvérsia das últimas semanas nos demonstra o quanto somos reféns do curto prazo e das consequências aparentes de uma decisão política. Mudanças reais requerem o estabelecimento de canais de comunicação mais eficientes e uma conversa franca sobre os aspectos estruturais por trás da atual polêmica. Se falhamos em estabelecer um diálogo mais produtivo, certamente não é por culpa do Vietnã.
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Material escrito por:
Bruno Varella Miranda
Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri
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