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O fim do começo: negociações Mercosul e União Europeia

BRUNO VARELLA MIRANDA

EM 31/07/2019

4 MIN DE LEITURA

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Por Bruno Varella   

Após duas décadas de complexas negociações, os integrantes do Mercado Comum do Sul (Mercosul) e da União Europeia (UE) finalizaram os últimos detalhes de um ambicioso acordo comercial. O evento representa um importante passo no processo de aprofundamento das relações econômicas entre os dois blocos econômicos. Ainda assim, pode-se dizer que a conclusão das negociações representa a abertura de novos desafios e oportunidades. Adiante, ao menos duas difíceis tarefas: a implementação do acordo – algo que depende da aprovação de dezenas de países – e a adaptação a um novo cenário competitivo que deverá beneficiar alguns setores e pressionar fortemente outros.

Nunca é demais lembrar, a finalização das negociações de um acordo comercial não significa a sua implementação. Antes é necessário que os Estados envolvidos nas tratativas internalizem as respectivas decisões. Nos próximos meses, testemunharemos intensas pressões por parte de setores potencialmente prejudicados pelo tratado entre o Mercosul e a UE. Entre os europeus, é grande o temor em relação aos efeitos do tratado sobre o setor agrícola do Velho Continente. Diante de tal cenário, é fundamental evitar qualquer “passo em falso” que impeça a conclusão desse processo. Mais especificamente, o momento é de atenção redobrada em dimensões como a ambiental e a social.

Contrariando tal orientação, a retórica recente do governo brasileiro parece desafiar a posição da coalizão política que controla as ações na UE no momento. A administração de Jair Bolsonaro tem buscado alinhamento com a chamada “ala soberanista” do bloco europeu, crítica à liderança de Alemanha e França. Ao mesmo tempo, vem adotando uma política de crítica aberta aos mecanismos de monitoramento das políticas sociais e ambientais estabelecidos ao longo das últimas décadas. No momento, não está claro até que ponto a estratégia é fruto do improviso ou de cálculo cuidadoso.      

Caso seja implementado, o acordo representa boas notícias para diversos setores da economia do Brasil. No caso do café, o acordo abre caminho para a mitigação de um antigo desafio para o setor: a chamada “escalada tarifária”. Os países da UE são clientes tradicionais do café verde brasileiro, utilizado por uma dinâmica indústria em países como Alemanha e Itália. Somados às importações de outros países produtores, o café brasileiro contribui para a criação de blends apreciados por consumidores de todo o mundo. Como a Europa não produz café, nosso desafio não era o de vender matéria-prima ao Velho Continente. O desafio era enfrentar a imposição de tarifas ao nosso produto industrializado – caso do café solúvel, para citar um exemplo de um produto made in Brazil competitivo.

Nesse sentido, a implementação do tratado comercial entre o Mercosul e a UE poderá facilitar a venda de produtos brasileiros já competitivos, mas afetados pela imposição de barreiras tarifárias por parte do bloco europeu. Por outro lado, o acordo não significa necessariamente a materialização de um upgrade no padrão de inserção dos produtos do Brasil no mercado da UE. Afinal, uma coisa é garantir o acesso ao mercado. Outra bem diferente é conquistar a atenção dos consumidores. Conforme exemplos como o do vinho da Argentina demonstram, a transformação do perfil de inserção de um setor nos mercados internacionais depende da sua habilidade de estabelecer estruturas efetivas de compartilhamento de conhecimento e do refinamento das estruturas organizacionais existentes.  

Por influenciar a remoção de barreiras tarifárias, o acordo entre o Mercosul e a UE deve ser encarado como o “fim do começo”. O que virá nos próximos anos dependerá em grande medida da nossa capacidade de traduzir as oportunidades derivadas da assinatura do acordo em criação de valor efetiva para o agronegócio brasileiro. Tendo em vista o provável impacto negativo do tratado sobre outros setores da economia do país, é fundamental que tais transformações não se limitem a uma mera expansão dos volumes embarcados de nossas principais commodities. Precisamos utilizar a nossa eficiência na agricultura para potencializar a venda de produtos com maior valor agregado no Velho Continente.  

De fato, a assinatura do acordo entre o Mercosul e a UE nos oferece a possibilidade de uma ampla revisão das nossas potencialidades e debilidades. Desafios de longa data, como o de construção de uma imagem mais sólida para os produtores agrícolas brasileiros junto aos consumidores internacionais, serão realçados. Escolhas difíceis também voltarão à mesa de debates. Por exemplo, se os principais players do mercado internacional vendem blends compostos por cafés de distintas partes do mundo, serão as empresas brasileiras capazes de participar desse jogo com as atuais regras existentes no país? Indo além, estarão os agentes do setor dispostos a correr os riscos que implicariam a busca por inserção em novos nichos do mercado?

Em outras palavras, não está claro se a concretização do acordo comercial representaria um impulso para que o país continue a fazer aquilo que já faz de forma eficiente ou um incentivo para a inovação e o desenvolvimento de novas oportunidades de negócio. Pensados como um instrumento para a exploração das vantagens comparativas encontradas no interior de um país, os acordos comerciais podem levar a uma ampla transformação da estrutura produtiva. Fala-se muito sobre os ganhos de eficiência derivados de uma maior exposição à concorrência. Entretanto, é preciso considerar também as mudanças de ordem estrutural que serão geradas após a abertura de novas oportunidades. Para isso, será preciso conjugar as já conhecidas potencialidades do agronegócio brasileiro com a transformação paulatina das organizações ligadas ao setor.

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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