O desafio de garantir maior produtividade
Boa parte dos esforços para o aumento da eficiência na cafeicultura se relaciona a uma análise apropriada do papel dos custos de produção no desenvolvimento dessa atividade, bem como da produtividade. Estas variáveis estão interligadas de forma direta.
Nos últimos anos, são muitas as vozes na cafeicultura que chamam a atenção para a necessidade de melhor administração dos produtores para a obtenção de resultados positivos. É cada vez mais evidente para os agentes do setor que a atividade rural deve pautar-se pela eficiência, como requisito para a sobrevivência em um mercado cada vez mais competitivo.
Boa parte dos esforços para o aumento da eficiência na cafeicultura se relaciona a uma análise apropriada do papel dos custos de produção no desenvolvimento dessa atividade, bem como da produtividade. Estas variáveis estão interligadas de forma direta, conforme veremos a seguir. Ou seja, isso nos leva a uma área na qual é fundamental o conhecimento apropriado das atividades realizadas da porteira para dentro, por meio da coleta de dados.
Apesar de serem bastante controversos, os dados referentes ao mundo do café constituem ferramentas valiosas para a projeção de tendências e observação dos movimentos do mercado. Embora a precisão dos resultados médios possa ser discutida, é evidente que os padrões estabelecidos após pesquisas dessa natureza detém um valor informativo fundamental para a readequação da cafeicultura brasileira aos novos tempos.
Dados coletados pelo agrônomo Guy Carvalho e gentilmente cedidos pelo Rabobank lançam uma luz nesse campo. Os mesmos foram utilizados em encontro recente entre cafeicultores e pesquisadores do setor, no qual buscou-se traçar um quadro para a atividade no Brasil ao longo dos próximos anos.
Conjuntura do mercado mundial
Inicialmente, faz-se necessário traçarmos um prognóstico para os próximos anos. Em um contexto marcado pelos baixos estoques e o aumento da demanda, espera-se para as próximas safras a sustentação das cotações internacionais do café. Isso sem falar das más notícias vindas de agrônomos nas últimas semanas, que apontam uma queda na produção brasileira de café ainda maior do que a prevista pela bianualidade.
Após um ano marcado pela menor oferta de café brasileiro, é esperado que nos anos subseqüentes haja uma expansão na produção mundial, sustentada pelo aumento da demanda do produto, superior ao crescimento da produção. Dados apresentados no encontro mostram que no período compreendido entre 1990 e 2006, o consumo cresceu a uma taxa média de 1,2% a.a., enquanto a produção cresceu a uma taxa de 0,8% a.a. Em relação aos estoques, observa-se uma retração de 5,1% a.a., o que explica o baixo nível em que os mesmos se encontram na atualidade.
E de que forma poderá o Brasil se inserir nesse quadro? Estamos falando do maior produtor mundial de café, porém um país detentor de uma produtividade média que pode ainda aumentar, por meio da utilização de técnicas mais avançadas nos cafezais. Se por um lado é improvável que o Brasil volte a deter a mesma participação do mercado da qual já foi dona no passado, e isso porque não interessa aos compradores de matéria-prima depender tão fortemente de um único fornecedor, por outro lado é evidente que uma parte considerável dessa fatia originada pelo aumento do consumo no mundo deverá ser suprido por café brasileiro.
Fato é que essas tendências demonstram a necessidade de aprofundamento em direção a uma característica fundamental da atividade agrícola para as próximas décadas. A utilização de tecnologia adequada passará a ser um fator cada vez mais fundamental para os cafeicultores, sendo a negação desse quadro um importante fator limitante para a inserção dos mesmos no mercado. Portanto, nessa nova dinâmica se encontra uma variável que fatalmente levará os produtores nacionais a obterem maior produtividade.
Produtividade e tecnologias de produção
Entre as principais regiões produtoras do país, podemos citar, o sul de Minas, o Triângulo mineiro, a Região Mogiana e o Oeste baiano. Sendo o estado de Minas Gerais o principal produtor de café no Brasil, é interessante observarmos que no sul mineiro predomina a colheita familiar e manual, ao contrário do observado em outras regiões como a Mogiana ou o café baiano. Nessas últimas predomina a colheita mecanizada, denotando as próprias características das novas regiões produtoras de café, dependentes de insumos e da aquisição de pacotes tecnológicos.
De certa forma, conforme foi mostrado no encontro, a área colhida de café no Brasil responde aos estímulos do mercado, aumentando em resposta aos melhores níveis de preço observados internacionalmente. Além disso, é observado um aumento na produtividade a uma média da ordem de 0,32 sc/ha por ano. Esses dois fatores contribuem para a queda dos preços, na medida em que contribuem para o aumento da oferta total de café.
Do ponto de vista dos custos, vemos que os custos variam entre R$ 157 por saca e R$ 235 por saca, dependendo do grau de tecnologia utilizado na lavoura, o que determina o sistema de produção e a produtividade. Em um quadro marcado por cotações elevadas, tais custos garantem uma margem operacional relativamente folgada para os cafeicultores, algo que em tempos de vacas magras não se aplica.
Nesse sentido, quem seriam os principais afetados de uma queda nas cotações internacionais de café? Seguindo uma tendência mundial, são esperadas grandes dificuldades no futuro para os médios produtores de café. A tendência é que sobrevivam sobretudo os grandes cafeicultores, além dos produtores familiares, donos de pequenas propriedades. No Brasil, cerca de 75% dos cafeicultores respondem por 25% da produção nacional. O número de pequenos produtores é bastante grande, bem como a quantidade dos médios.
A tendência à concentração das propriedades agrícolas não é um fenômeno típico do Brasil, mas segue os padrões mundias. Se observarmos o caso norte-americano, veremos que no período entre 1997 e 2002 o número de fazendas com mais de 2000 hectares aumentou bastante, tendo sido observadas diminuições nas quantidades de fazendas pequenas e médias. Entre estas, foram especialmente afetadas de forma mais intensa aquelas propriedades entre 100 e 400 hectares, ou seja, as médias propriedades.
Apesar de não estarmos falando nesse exemplo de cafeicultores, mas de produção em que a escala é fundamental, tais como soja, algodão, milho e trigo, o quadro observado nos EUA representa uma realidade que provavelmente se aprofundará também em nosso país.
No caso brasileiro, levando-se em conta a curva de produtividade média dos cafeicultores nacionais, vê-se atualmente o predomínio de propriedades com dados oscilando entre as 20 e 30 sacas por hectare. A projeção apresentada no encontro aponta uma diminuição importante na população produtora de café estacionada nessa faixa de produtividade, ganhando espaço os extremos da curva, representados exatamente pelas grandes propriedades detentoras de tecnologia avançada e as propriedades familiares, tradicionalmente pouco produtivas. O fenômeno é explicado tanto pela possibilidade de utilização da mão-de-obra familiar na colheita, já que se trata de uma importante variável de custo, como a possibilidade de diferenciação, ou seja de venda do produto por um valor superior dado algum atributo de qualidade.
Por exemplo, dados apresentados por Guy Carvalho acerca dos custos de produção e a produtividade da cafeicultura manual no Brasil em Minas Gerais inserem esse sistema na faixa de custos situada entre R$ 235 e R$ 138 por saca. O maior valor corresponde justamente a propriedades detentoras de baixa tecnologia, com produtividade em torno de 20 sacas por hectare. No segundo caso, a produtividade atinge cerca de 40 sacas por hectare, sendo os custos por saca bem menores. É importante observamos que em ambos dos casos, a mão-de-obra é o principal componente para o cálculo dos custos, afinal estamos tratando aqui das regiões tradicionais montanhosas.
Em contrapartida, o plantio de café em regiões dependentes de irrigação, e com alta dependência de tecnologia, se depara com custos de produção que variam entre R$ 208 e R$ 156 por saca. Uma vez mais, é a produtividade da propriedade um fator fundamental para a determinação do custo, estando os cafezais capazes de produzir na faixa de 60 sacas por hectare no melhor dos cenários expostos. Uma produtividade de cerca de 40 sacas/ha acarreta em custos superiores aos R$ 200, conforme mostrado. Nesse caso, os custos maiores são originados da utilização de insumos.
Apesar de ser difícil estabelecer um quadro, é esperando que entre as regiões tradicionais, aqueles produtores com produtividade superior a 30 sacas por hectare consigam manter-se na atividade sem problemas, o mesmo sendo observado entre os produtores das novas regiões, viabilizadas por meio de irrigação, e que deverão possuir uma produtividade média de 50 sacas por hectare caso queiram garantias de prosperidade.
Em resumo, produtividade passará a ser um dos temas mais quentes da cafeicultura nos próximos anos. Disso dependerá em grande parte o aumento da produção, dado que a menor quantidade de terras disponível e a pressão de outras culturas faz com que não possamos vislumbrar um quadro de expansão significativa dos cafezais, ou ainda porque esta variável se encontra diretamente ligada aos custos de produção, de cujo controle depende a sobrevivência dos cafeicultores.
De que maneira os produtores lidarão com esse desafio é algo que veremos nos próximos anos. No entanto, a introdução de tecnologia nos cafezais passa a ser cada vez mais um imperativo, de modo que é melhor prevenir-se em períodos favoráveis.
Boa parte dos esforços para o aumento da eficiência na cafeicultura se relaciona a uma análise apropriada do papel dos custos de produção no desenvolvimento dessa atividade, bem como da produtividade. Estas variáveis estão interligadas de forma direta, conforme veremos a seguir. Ou seja, isso nos leva a uma área na qual é fundamental o conhecimento apropriado das atividades realizadas da porteira para dentro, por meio da coleta de dados.
Apesar de serem bastante controversos, os dados referentes ao mundo do café constituem ferramentas valiosas para a projeção de tendências e observação dos movimentos do mercado. Embora a precisão dos resultados médios possa ser discutida, é evidente que os padrões estabelecidos após pesquisas dessa natureza detém um valor informativo fundamental para a readequação da cafeicultura brasileira aos novos tempos.
Dados coletados pelo agrônomo Guy Carvalho e gentilmente cedidos pelo Rabobank lançam uma luz nesse campo. Os mesmos foram utilizados em encontro recente entre cafeicultores e pesquisadores do setor, no qual buscou-se traçar um quadro para a atividade no Brasil ao longo dos próximos anos.
Conjuntura do mercado mundial
Inicialmente, faz-se necessário traçarmos um prognóstico para os próximos anos. Em um contexto marcado pelos baixos estoques e o aumento da demanda, espera-se para as próximas safras a sustentação das cotações internacionais do café. Isso sem falar das más notícias vindas de agrônomos nas últimas semanas, que apontam uma queda na produção brasileira de café ainda maior do que a prevista pela bianualidade.
Após um ano marcado pela menor oferta de café brasileiro, é esperado que nos anos subseqüentes haja uma expansão na produção mundial, sustentada pelo aumento da demanda do produto, superior ao crescimento da produção. Dados apresentados no encontro mostram que no período compreendido entre 1990 e 2006, o consumo cresceu a uma taxa média de 1,2% a.a., enquanto a produção cresceu a uma taxa de 0,8% a.a. Em relação aos estoques, observa-se uma retração de 5,1% a.a., o que explica o baixo nível em que os mesmos se encontram na atualidade.
E de que forma poderá o Brasil se inserir nesse quadro? Estamos falando do maior produtor mundial de café, porém um país detentor de uma produtividade média que pode ainda aumentar, por meio da utilização de técnicas mais avançadas nos cafezais. Se por um lado é improvável que o Brasil volte a deter a mesma participação do mercado da qual já foi dona no passado, e isso porque não interessa aos compradores de matéria-prima depender tão fortemente de um único fornecedor, por outro lado é evidente que uma parte considerável dessa fatia originada pelo aumento do consumo no mundo deverá ser suprido por café brasileiro.
Fato é que essas tendências demonstram a necessidade de aprofundamento em direção a uma característica fundamental da atividade agrícola para as próximas décadas. A utilização de tecnologia adequada passará a ser um fator cada vez mais fundamental para os cafeicultores, sendo a negação desse quadro um importante fator limitante para a inserção dos mesmos no mercado. Portanto, nessa nova dinâmica se encontra uma variável que fatalmente levará os produtores nacionais a obterem maior produtividade.
Produtividade e tecnologias de produção
Entre as principais regiões produtoras do país, podemos citar, o sul de Minas, o Triângulo mineiro, a Região Mogiana e o Oeste baiano. Sendo o estado de Minas Gerais o principal produtor de café no Brasil, é interessante observarmos que no sul mineiro predomina a colheita familiar e manual, ao contrário do observado em outras regiões como a Mogiana ou o café baiano. Nessas últimas predomina a colheita mecanizada, denotando as próprias características das novas regiões produtoras de café, dependentes de insumos e da aquisição de pacotes tecnológicos.
De certa forma, conforme foi mostrado no encontro, a área colhida de café no Brasil responde aos estímulos do mercado, aumentando em resposta aos melhores níveis de preço observados internacionalmente. Além disso, é observado um aumento na produtividade a uma média da ordem de 0,32 sc/ha por ano. Esses dois fatores contribuem para a queda dos preços, na medida em que contribuem para o aumento da oferta total de café.
Do ponto de vista dos custos, vemos que os custos variam entre R$ 157 por saca e R$ 235 por saca, dependendo do grau de tecnologia utilizado na lavoura, o que determina o sistema de produção e a produtividade. Em um quadro marcado por cotações elevadas, tais custos garantem uma margem operacional relativamente folgada para os cafeicultores, algo que em tempos de vacas magras não se aplica.
Nesse sentido, quem seriam os principais afetados de uma queda nas cotações internacionais de café? Seguindo uma tendência mundial, são esperadas grandes dificuldades no futuro para os médios produtores de café. A tendência é que sobrevivam sobretudo os grandes cafeicultores, além dos produtores familiares, donos de pequenas propriedades. No Brasil, cerca de 75% dos cafeicultores respondem por 25% da produção nacional. O número de pequenos produtores é bastante grande, bem como a quantidade dos médios.
A tendência à concentração das propriedades agrícolas não é um fenômeno típico do Brasil, mas segue os padrões mundias. Se observarmos o caso norte-americano, veremos que no período entre 1997 e 2002 o número de fazendas com mais de 2000 hectares aumentou bastante, tendo sido observadas diminuições nas quantidades de fazendas pequenas e médias. Entre estas, foram especialmente afetadas de forma mais intensa aquelas propriedades entre 100 e 400 hectares, ou seja, as médias propriedades.
Apesar de não estarmos falando nesse exemplo de cafeicultores, mas de produção em que a escala é fundamental, tais como soja, algodão, milho e trigo, o quadro observado nos EUA representa uma realidade que provavelmente se aprofundará também em nosso país.
No caso brasileiro, levando-se em conta a curva de produtividade média dos cafeicultores nacionais, vê-se atualmente o predomínio de propriedades com dados oscilando entre as 20 e 30 sacas por hectare. A projeção apresentada no encontro aponta uma diminuição importante na população produtora de café estacionada nessa faixa de produtividade, ganhando espaço os extremos da curva, representados exatamente pelas grandes propriedades detentoras de tecnologia avançada e as propriedades familiares, tradicionalmente pouco produtivas. O fenômeno é explicado tanto pela possibilidade de utilização da mão-de-obra familiar na colheita, já que se trata de uma importante variável de custo, como a possibilidade de diferenciação, ou seja de venda do produto por um valor superior dado algum atributo de qualidade.
Por exemplo, dados apresentados por Guy Carvalho acerca dos custos de produção e a produtividade da cafeicultura manual no Brasil em Minas Gerais inserem esse sistema na faixa de custos situada entre R$ 235 e R$ 138 por saca. O maior valor corresponde justamente a propriedades detentoras de baixa tecnologia, com produtividade em torno de 20 sacas por hectare. No segundo caso, a produtividade atinge cerca de 40 sacas por hectare, sendo os custos por saca bem menores. É importante observamos que em ambos dos casos, a mão-de-obra é o principal componente para o cálculo dos custos, afinal estamos tratando aqui das regiões tradicionais montanhosas.
Em contrapartida, o plantio de café em regiões dependentes de irrigação, e com alta dependência de tecnologia, se depara com custos de produção que variam entre R$ 208 e R$ 156 por saca. Uma vez mais, é a produtividade da propriedade um fator fundamental para a determinação do custo, estando os cafezais capazes de produzir na faixa de 60 sacas por hectare no melhor dos cenários expostos. Uma produtividade de cerca de 40 sacas/ha acarreta em custos superiores aos R$ 200, conforme mostrado. Nesse caso, os custos maiores são originados da utilização de insumos.
Apesar de ser difícil estabelecer um quadro, é esperando que entre as regiões tradicionais, aqueles produtores com produtividade superior a 30 sacas por hectare consigam manter-se na atividade sem problemas, o mesmo sendo observado entre os produtores das novas regiões, viabilizadas por meio de irrigação, e que deverão possuir uma produtividade média de 50 sacas por hectare caso queiram garantias de prosperidade.
Em resumo, produtividade passará a ser um dos temas mais quentes da cafeicultura nos próximos anos. Disso dependerá em grande parte o aumento da produção, dado que a menor quantidade de terras disponível e a pressão de outras culturas faz com que não possamos vislumbrar um quadro de expansão significativa dos cafezais, ou ainda porque esta variável se encontra diretamente ligada aos custos de produção, de cujo controle depende a sobrevivência dos cafeicultores.
De que maneira os produtores lidarão com esse desafio é algo que veremos nos próximos anos. No entanto, a introdução de tecnologia nos cafezais passa a ser cada vez mais um imperativo, de modo que é melhor prevenir-se em períodos favoráveis.
QUER ACESSAR O CONTEÚDO?
É GRATUITO!
Para continuar lendo o conteúdo entre com sua conta ou cadastre-se no CaféPoint.
Tenha acesso a conteúdos exclusivos gratuitamente!
Material escrito por:
sylvia saes
Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)
Acessar todos os materiaisBruno Varella Miranda
Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri
Acessar todos os materiais