Nem só de equilíbrio vive a economia
No capitalismo, nada é imutável. Uma vez criado pelos humanos, são as ações desses mesmos agentes que podem alterá-lo. No dia a dia, tendemos a pensar que não possuímos o poder de mudar o destino desse complexo arranjo, sobrando a cada um de nós um roteiro pré-estabelecido. Entretanto, podemos sim sermos todos protagonistas, desde que nos lancemos a explorar o novo.
Nas últimas décadas, muito se avançou na leitura e previsão desse complicado enredo, em que qualquer ator pode assumir o protagonismo subitamente. Dado que economistas não possuem, a princípio, qualquer dom especial de prever o futuro, suas análises devem se amparar em padrões recorrentes no passado. No entanto, tamanho esforço não esconde o fato de que, por mais que avancemos no desenvolvimento de ferramentas para a identificação de padrões, sempre haverá espaço para o imponderável.
Da mesma maneira, uma visão exageradamente focada no papel das cotações pode passar uma imagem imprecisa do processo econômico. Se amparada unicamente no papel da oferta agregada de um produto para a determinação do sucesso de uma iniciativa, por exemplo, uma análise pode soar demasiado simplista. Assim, quem considera somente o efeito das condições climáticas ou dos planos de expansão na produção para fazer previsões acerca das perspectivas para os cafeicultores certamente não captaria todas as nuances envolvidas nesse complexo setor.
Não que tal abordagem seja inútil; pelo contrário, acontecimentos como os supracitados trazem efeitos diretos para a determinação dos preços, e é disso que todo agente econômico vive. Entretanto, por trás desse eterno exercício de determinação do ponto de equilíbrio entre oferta e demanda, encontra-se inserida uma pressuposição de olhar sobre os setores como um todo. E sob esta ótica, ninguém influencia nada e o destino de todos já parece traçado de antemão.
Correndo o risco de ser demasiado crítico a esta visão, uma das consequências que muitas vezes passa despercebida desse tipo de análise é o alto grau de fatalismo que carrega. Com a ênfase sistemática em aspectos relacionados à formação dos preços, o risco é que o cafeicultor tenha a impressão de que nada pode fazer para tentar virar o jogo, ou que o final da história já foi escrito de antemão. Afinal, é importante que fique claro que, apesar da tendência de equilíbrio, há espaço para uma série de fenômenos no cotidiano econômico cujos efeitos são igualmente relevantes. Os casos de sucesso, em qualquer setor, são justamente representados por aqueles que conseguiram, de alguma maneira, ir além das tendências prevalecentes, estabelecendo espaços de domínio nos quais o fatalismo desse lugar a um novo filão a ser explorado.
O empreendedor na análise econômica
Insuficiência da observação do equilíbrio para uma ampla análise do processo econômico, reconhecimento do papel central da história para o refinamento da compreensão em outras áreas do conhecimento, estes e outros temas estão diretamente ligados a uma figura que trouxe relevantes contribuições para o estudo da economia: Joseph Schumpeter. Por isso, nada melhor que relembrar um pouco seu legado, ainda mais quando se tem em conta que janeiro marca o aniversário de sua morte, ocorrida há 59 anos.
Nascido no antigo Império Austro-Húngaro, Schumpeter teve, ao longo de sua vida, experiências na administração pública, na iniciativa privada e na academia, algo que lhe garantiu uma ampla visão de diversos fenômenos. Com a ascensão de Hitler, teve que deixar a Europa, passando a lecionar na Universidade de Harvard. Lá, teve a oportunidade de divulgar melhor sua obra, além de orientar uma série de estudantes cujas contribuições para a economia, apesar de pouco divulgadas, certamente mereceriam melhor sorte, como o matemático romeno Georgescu-Roegen.
Atento ao papel da história para a compreensão da economia, e especialmente preocupado com influências ideológicas e deterministas descoladas dos fatos, Schumpeter foi um dos principais defensores da importância do estudo do papel do empreendedor para a economia. Este autor nos lembra que o capitalismo compreende um processo evolucionário, sendo qualquer raciocínio baseado na hipótese de um estado estacionário distante da realidade. E aqui, a ação humana voltada à introdução de inovações e na diversificação das opções garantidas aos consumidores certamente mereceriam atenção especial.
Nesse sentido, "...o impulso fundamental que mantém o motor capitalista em movimento vem dos novos bens ao consumidor, novos métodos de produção ou transporte, novos mercados, ou novas formas de organização industrial que este cria" (1976, p. 83). Assim, a tendência dos mercados ao equilíbrio seria abalada, de tempos em tempos, pela ação empreendedora, que introduziria bens cobiçados pelos humanos, possibilidades de investimentos, enfim: dinamismo. Obviamente, esses pioneiros não agiriam sem que, para isso, tivessem algum interesse, de modo que a atividade empreendedora se relaciona diretamente com a busca por ganhos superiores àqueles proporcionados por um mercado em que todos oferecem o mesmo.
Sem maiores ambições de aprofundamento na obra de Schumpeter, o que parece fundamental apreender do raciocínio desenvolvido acima é o fato de que, no capitalismo, nada é imutável. Construído pelos humanos, é evidente que nesse sistema parcela esmagadora das mudanças depende das ações dos agentes. Muitas vezes, no dia a dia, tendemos a pensar que não possuímos o poder de mudar o destino desse complexo arranjo, sobrando a cada um de nós um roteiro pré-estabelecido. Pois bem, legados como o schumpeteriano somente nos alertam para a insuficiência desse raciocínio. Podemos sim ser todos protagonistas, desde que nos lancemos a explorar o novo. Aos bem sucedidos, a recompensa costuma ser farta.
Observação:
O trecho citado no texto acima foi retirado da obra: SCHUMPETER, Joseph. Capitalism, socialism and democracy. New York: Harper Perennial, 1976, cuja versão em português também pode ser encontrada em bibliotecas universitárias de todo o país.
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Material escrito por:
sylvia saes
Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)
Acessar todos os materiaisBruno Varella Miranda
Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri
Acessar todos os materiaisDeixe sua opinião!
TEIXEIRA DE FREITAS - BAHIA - COMÉRCIO DE CAFÉ (B2B)
EM 22/01/2009
Talvez eu não tenha conseguido exprimir exatamente o que tinha pensado. E sua resposta me facilitou bastante.
Tenho a sensação de que a forma de trabalhar destes produtores empresariais rompe com tantos paradigmas arraigados na cafeicultura tradicional a ponto de quase criar "algo absolutamente novo," garantindo assim, "para si um filão promissor a ser explorado".
Abraço,
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 20/01/2009
Em primeiro lugar, feliz Ano Novo!
Tua questão é interessante. Nesse caso não estamos falando de agentes econômicos que criam algo absolutamente novo, e assim garantem para si um filão promissor a ser explorado, mas sim de uma diminuição nos custos de produção por parte de uma parcela dos cafeicultores que acaba pressionando o grupo como um todo. Em ambos os casos, aqueles agentes menos eficientes tendem a sumir; no entanto, não acredito que as implicações de um caso e outro sejam necessariamente as mesmas. Enfim, trata-se de uma questão interessante para refletir, e que certamente poderia ser explorada em um artigo no futuro,
Gde abraço,
Bruno.
TEIXEIRA DE FREITAS - BAHIA - COMÉRCIO DE CAFÉ (B2B)
EM 20/01/2009
Feliz ano novo!
Delicioso artigo!
Acredito que haja espaço para, no atual quadro cambial, algum aumento do preço em reais do arábica brasileiro, principalmente se o câmbio se estabilizar um pouco mais.
Mas uma percepção que tem me instigado é que talvez o protagonismo de alguns cafeicultores, que estão conseguindo produzir café, principalmente arábica, no Brasil com custos bem abaixo da média, possa estar exercendo o papel do empreendedor de Schumpeter no sentido do deslocamento do equilíbrio de mercado.
Que parcela do total do arábica produzido Brasil vem destes empreendedores que têm menores custos e fazem travas de futuro talvez seja a grande questão.
Imagino que, em número, eles sejam poucos, mas tenham uma participação cada vez maior da safra brasileira. E, se isto for verdade, pode ser que a questão da remuneração dos produtores que não conseguem ter a mesma "eficiência" esteja, cada vez mais, migrando do campo social para o econômico, o que não diminui, de modo algum, sua extrema importância.
Vocês têm dados recentes sobre essa estratificação da produção? Caso não tenham, espero que gostem da sugestão de objeto de pesquisa.
Abraços
MURIAÉ - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 16/01/2009
É muito fácil inovar ou agregar valores quando se está capitalizado. Na atual situação da cafeicultura, as teorias podem explicar muita coisa, mas o real problema está no conceito de que ainda existe alguma renda no setor. Há excesso de submissão e poucas atitudes concretas.