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Mares intranquilos à vista

Primeiro foi o anúncio de que o governo dos Estados Unidos imporia tarifas sobre o aço e o alumínio. Pouco depois, a administração de Donald Trump apresentou medidas voltadas a reduzir o déficit comercial com a China. Em conjunto, as decisões do governo estadunidense revelam a adoção de uma estratégia mais agressiva em suas relações econômicas com o restante do mundo. Ou seja, a impressão é a de que as ameaças por Twitter – uma prática recorrente na era Trump – não eram em vão. Resta saber qual será o desfecho de tal jogada. É bem provável, terminaremos todos enredados nessa polêmica.

O grande temor é o de que estejamos à beira de uma escalada de medidas retaliatórias entre as principais economias do mundo. É evidente que o governo chinês responderá aos anúncios do governo estadunidense. A dúvida é como tal reação se configurará. Optarão os chineses por uma solução mediada pelo arcabouço institucional oferecido pela Organização Mundial do Comércio (OMC)? Ou, apelando aos instintos de Donald Trump, optarão por uma negociação bilateral o mais aberta possível? Em jogo está não apenas a qualidade das relações entre dois países com um papel fundamental no sistema internacional. Bilhões de consumidores serão afetados no curto prazo caso barreiras ao intercâmbio de bens e serviços sejam impostas.  

Afinal, um conflito comercial entre China e Estados Unidos tem potencial para desestabilizar cadeias de valor em todo o planeta. De fato, distorções podem derivar tanto da discórdia quanto de acordos “criativos”. Suponhamos que o governo chinês decida responder com cautela às medidas de Donald Trump, propondo medidas simpáticas aos olhos do presidente estadunidense. Indo além, pensemos em uma resposta capaz de acalmar os ânimos na Casa Branca. Por exemplo, imaginemos que Beijing decida incentivar a compra de aviões produzidos pela Boeing – oferecendo à Trump um farto material de propaganda para sua estratégia “America First”. Como ficariam empresas como a Embraer diante de tal decisão?

O mesmo argumento pode ser aplicado a inúmeros setores da economia. No caso da agricultura, onde o protagonismo dos Estados Unidos é indiscutível, importantes desvios de comércio podem derivar de um conflito. O que será de países como o Brasil, caso tenham que provar a lealdade a um dos lados da controvérsia para obterem acesso ao seu mercado? As complexas negociações para a abertura do mercado da Rússia às carnes brasileiras – outro potencial contrincante em um mundo em crescente ebulição – mostram que, não raramente, o argumento econômico é insuficiente. Seremos capazes de garantir imunidade em meio ao conflito alheio, garantindo o acesso a todas as partes na atual polêmica?

No geral, a perspectiva de uma “guerra comercial” é uma péssima notícia em múltiplas dimensões. Na agricultura, o repertório de restrições e medidas distorcivas é enorme – regras sanitárias e fitossanitárias, programas de apoio, medidas antidumping, etc. Com o aprofundamento das tensões, perderia quem fez a lição de casa e produz de maneira eficiente, dado que as vantagens de hoje só se materializarão caso amparadas por decisões políticas potencialmente arbitrárias. Por outro lado, ganharia a burocracia e, quem sabe, a corrupção. Barreiras ao intercâmbio de bens e serviços costumam conceder poder a funcionários e órgãos públicos, criando incentivos para a venda de favores. Quando a competitividade de um setor depende de uma assinatura, o uso da caneta passa a ter um preço.     

Entretanto, a pior consequência de um acirramento das disputas entre a China e os Estados Unidos seria o enfraquecimento da OMC. Concebida com o objetivo de mediar os conflitos comerciais entre países e facilitar as negociações de temas polêmicos, a OMC se encontra diante de uma prova de fogo: caso sua estrutura institucional seja utilizada para resolver questões como as queixas derivadas dos anúncios recentes da administração Trump, a OMC corre o risco de perder o seu principal membro, os Estados Unidos. Por outro lado, um papel secundário na atual controvérsia poderia reforçar a visão de que a Organização perdeu relevância – algo que, no curto prazo, motivaria uma perda ainda maior do interesse pelas negociações ali conduzidas.    

O interessante dessa história toda é que o “mocinho” de outros capítulos – o presidente dos Estados Unidos – já mostrou certa falta de cuidado em manter a casa em pé. Mais especificamente, Trump não se orgulha dos princípios gerais defendidos por seus antecessores nas últimas décadas, e que trouxeram alguma estabilidade para a ação estadunidense no plano internacional. Daí a importância da reação da China para entendermos tanto o desenrolar da atual polêmica quanto o seu potencial desfecho. Enquanto isso, todo cuidado é pouco. 

BRUNO VARELLA MIRANDA

Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri - Columbia.

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