Impressões da Coffee Outlook Conference (Vietnã)

Nos dias 29 e 30 de março, foi realizada, em Hanói, no Vietnã, a primeira conferência sobre as perspectivas do mercado internacional do café. Entender o significado do evento e das discussões não é nada fácil para um ocidental que foi convidado para apresentar uma palestra sobre o panorama do café no Brasil.

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Nos dias 29 e 30 de março, foi realizada, em Hanói, no Vietnã, a primeira conferência sobre as perspectivas do mercado internacional do café. O encontro foi patrocinado pela IPSARD (Instituto de Política e Estratégia para o Desenvolvimento Rural e da Agricultura), entidade criada pelo Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural do Vietnã, em 2005. Entender o significado do evento e das discussões não é nada fácil para um ocidental que foi convidado para apresentar uma palestra sobre o panorama do café no Brasil.

Até então, meu conhecimento do Vietnã era limitado. Nas memórias, principalmente imagens da guerra, com os bombardeios norte-americanos e as polêmicas em torno do "agente laranja". Por isso, mesmo, com o risco de ser bastante parcial, arriscarei dar minha interpretação sobre o que vi.

Como pano de fundo, em um país que em pouco mais de 10 anos se tornou um dos principais players do mercado de café, temos a história de um povo determinado e acostumado a lidar criativamente com as privações. A guerra do Vietnã (1959-1975) e a implantação da economia de subsídios (1975-1986) resultaram em períodos de relações sociais difíceis. Depoimentos dos anos de isolamento internacional, que podem ser vistos no museu de Etimologia, permitem que compreendamos um pouco melhor as imagens vivenciadas nas calçadas de Hanói.

O depoimento de um médico sanitarista descreve bem esse quadro. Durante boa parte do século XX a privação era tanta que não se podia advertir sobre as conseqüências nefastas à saúde pelo fato das pessoas se apinharem em diminutos cômodos dividindo o pouco espaço com porcos e aves. A escassez de alimentos era um grave problema para grande parte da população. Como conseqüência da política centralizadora, em muitos casos repleta de lacunas, a economia informal florescia. Ainda hoje, cerca de 60% dos vietnamitas trabalham nesse meio.

Apesar desse difícil quadro, a sociedade vietnamita não se desintegrou. Em um depoimento bastante significativo do período, uma senhora explica: "Quando vivemos em um espaço tão reduzido, temos que ser muito atenciosos e solidários uns com os outros. Portanto, a vida era difícil, mas vivíamos em paz e felicidade".

Talvez esta realidade explique a minha sensação de que Hanói está sempre em festa. Todo dia cedinho as calçadas se transformam em parte efetiva das casas. Mesas, banquinhos, fogareiros de carvão, baldes de água, espelhos, entre outros, vão para fora. As pessoas fazem de tudo nas ruas: cozinham; lavam alimentos, roupas, pratos; costuram; consertam objetos; cortam cabelo; fazem as unhas e comem em uma grande comunidade, sentados em pequenos banquinhos. Tudo em um ambiente descontraído, com muita conversa e gargalhadas, algo que só termina depois das nove da noite.

Após a abertura, que se iniciou em 1986, mas tomou forma nos anos 1990, a cidade se transformou. As bicicletas foram gradativamente substituídas por motos, embora a lógica da condução desse meio de transporte continue sendo a da bicicleta. São 3 milhões de motos em Hanói (média de 0,6 motos por habitante) e entender como atravessar a rua para qualquer estrangeiro leva tempo e coragem. A regra parece ser: atravesse que as centenas de motos que vem ao seu encontro desviam.

A conferência

É dentro desse cenário que devemos entender a primeira conferência internacional do café realizada no Hotel Meliá e que contou com a participação de cerca de 100 agentes ligados à produção e comércio de café, além de autoridades do ministério da agricultura do Vietnã. Considerando a importância do café do Brasil também estava presente o embaixador brasileiro Alcides Prates.

Após as palavras das autoridades locais, iniciou-se a conferencia com a palestra "Vietnã e Mercado Mundial de café", apresentada pelo consultor Jonathan Clark, de Daklak, região cafeeira do Vietnã. Na palestra foram destacados os determinantes da oferta e demanda de café no mundo. Os dados de produção e exportação dos principais produtores nos últimos cinco anos foram analisados em contraposição aos dados de crescimento do consumo. Como conclusão observou-se que em decorrência da queda dos estoques devido à diminuição da produção, os preços do café no mercado internacional tendem a se manter elevados. Ou seja, nada de muito novo para quem está no mercado.

A segunda apresentação foi a minha. Sedentos por informação em época de abertura, a sensação que tive era que esta palestra estava sendo a mais esperada. Isso por dois motivos:

i. pela própria importância do café do Brasil no mercado internacional;
ii. pelas lições de política cafeeira que eles esperavam obter da experiência brasileira.

Minha apresentação teve duas partes. A primeira tratou de caracterizar todo o sistema café com seus segmentos. Na segunda, por sugestão deles, apresentei algumas projeções de preços e oferta para os próximos anos. As conclusões foram na direção da palestra anterior com relação aos preços e oferta. Percebi que eles ficaram bastante impressionados com os dados apresentados e as fotos das regiões produtores. Entretanto, senti que houve uma frustração quando, depois de reiteradas perguntas acerca da política do governo, respondi que não havia mais IBC e que o mercado é livre. Não deve ser fácil entender livre mercado para quem passou anos de regulamentação.

A terceira palestra foi apresentada por Doan Trieu Nhan, vice-presidente da Vicofa, e tratou da "Visão sobre o desenvolvimento da produção de café no Vietnã". Como conclusões foram apresentadas as seguintes recomendações:

i. Renovar o parque cafeeiro, inclusive com a mudança da espécie robusta para a arábica em áreas ecologicamente propícias, como em na província de Lam Dong;

ii. Melhorar a qualidade do café exportado e expandir a produção de café certificados;

iii. Desenvolver a produção de café com valor agregado para o mercado externo e interno;

iv. Prevenir fungos e infecção da ocratoxina A, assim como garantir a inexistência de resíduos de pesticidas;

v. Encorajar o consumo de café no mercado interno;

vi. Treinar os trabalhadores em todas as fases do sistema; vii. Estimular o uso de mercados futuros;

viii. Realizar pesquisas sobre gerenciamento e organização da indústria de café de acordo com o mercado internacional.

Ou seja, conclusões que tomadas as devidas proporções são bastante aplicáveis ao nosso sistema café.

A última apresentação da manhã, intitulada "Impactos do café do Vietnã no mercado global", foi realizada por Donna Brennan, da Universidade de Western Austrália e Trang Cong Thang do IPSARD. Nesse caso, a exposição se mostrou um pouco bizarra para os estudiosos do mercado de café. Isso porque tratou dos efeitos nos preços se o Vietnã adotasse uma política de restrição da oferta, tanto sozinho como com a participação do Brasil. Como conclusões foram destacados os seguintes aspectos:

i.A política de restrição aumentaria a renda dos produtores;

ii. O tamanho dos benefícios dependeria da quantidade reduzida;

iii. As perdas nas exportações seriam inevitáveis;

iv. Os outros países se beneficiariam mais que o Vietnã.

Depois dessa apresentação, realizada pelo Instituto que me convidou para a conferência, entendi melhor a insistência das perguntar sobre a regulamentação.

Em contraposição às idéias apresentadas, tentei mostrar que dificilmente o Brasil voltaria a adorar uma política de cartel e que a experiência brasileira da política de "guarda-chuva" só resultou em queda da nossa participação no mercado internacional. Falei, entretanto, "brincando" que o Brasil ficaria muito grato se o segundo maior produtor do mundo segurasse a sua oferta para benefício dos produtores de café em todo o globo.

Na parte da tarde as apresentações versaram sobre qualidade e política cafeeira. A primeira palestra, "Qualidade do café do Vietnã no mercado internacional", alertou sobre a quantidade de café do Vietnã rejeitado no mercado internacional. O palestrante, Doan Trien Nham, o mesmo que apresentou uma palestra na manhã, mostrou que, em 2005/06, dos cafés rejeitados (1.485.750 sacas) nos principais portos, 72% eram procedentes do Vietnã. Desta forma, Nham afirmou que deveria haver um controle mais efetivo da qualidade do café a ser exportado.

Annete Pensel, representante do 4C (Código Comum para Comunidade Cafeeira) fez uma explanação sobre o que é a certificação, quais as entidades que estão envolvidas e quais os benefícios. A principal questão discutida e que tem também permeado a discussão do 4 C no Brasil é sobre o fato que não estão claros os ganhos de curto prazo dos produtores em adotar tal código.

Depois desta apresentação, o representante da certificação Utz Kapeh, Ngyen Van Thiet, mostrou os dados desse modelo no Vietnã. A certificação Utz Kapeh neste país teve início em 2002 e, em 2006, atingia 50.000 hectares.

A palestra seguinte, intitulada "Práticas de sustentabilidade no setor de café no Vietnã", mostrou os problemas de devastação da floresta, falta de água e erosão com o crescimento das plantações de café. Com relação aos problemas sociais foi destacada a situação crítica que os produtores passaram com o colapso dos preços em 2001. Como recomendação foi apresentada a necessidade de boas práticas agrícolas, sendo a adoção de certificação um caminho para isso.

Na seção política do café, Tran Thi Quynh Chi abordou os tipos de riscos e formas de prevenção. Ponderou sobre o fato de a pequena escala dos produtores no Vietnã resultar em altos custos de transação para utilização de instrumentos de riscos. A cooperação entre os produtores seria, entretanto, uma forma que possibilitaria a utilização de contratos futuros. Como impedimento para isso, a palestrante admitiu a baixa capacitação dos produtores para operarem com mercados futuros.

Conclusão bastante similar foi apresentada por Surendra Kotecha na palestra "Estudo da factibilidade do apoio do mercado das bolsas para melhorar a capacidade de comercialização".

Finalmente, a última conferência do dia foi de Vu Trong Binh e Dao Duc Huan, que versaram sobre "Indicação Geográfica (IG) e possibilidade para aplicação no mercado de café". Foram dados exemplos de IG no mundo, ressaltando-se como essa ação pode permitir aumento de renda dos produtores. Foi destacada a importância da ação do Estado e das organizações privadas para que esse sistema se torne efetivo.

O segundo dia

As apresentações do segundo dia de seminário tiveram como foco as estatísticas cafeeiras no Vietnã. Percebi que eles sofrem do mesmo mal do Brasil: há várias estatísticas com dados incompatíveis. A comparação no caso foi com os dados oficiais e o do Ipsard. Foi recomendada a utilização de imagens de satélite devido ao baixo custo (10000 USD/ província a cada 5 anos) e alta precisão (90%).

Na última apresentação da manhã, o Brasil voltou a ser destaque. Tran Thi Quynh Chi apresentou "Consumo de Café no Vietnã: lições do Brasil para estimular a demanda doméstica". Com as informações que havíamos passado para ela sobre o crescimento do consumo do café no Brasil, a apresentação buscou criar uma agenda de ações para o crescimento do consumo de café no Vietnã. Entre as propostas estavam: a criação de uma organização representativa da indústria de café, nos moldes da ABIC; a realização de pesquisas de mercado; e a implementação de uma estrutura institucional (governamental) que coordene e adote uma política de estímulo à demanda.

Na parte da tarde, foi realizada uma grande discussão das conclusões da conferência e algumas propostas de recomendações foram tiradas. A grande preocupação era com a renda dos produtores. Nesse sentido, o período de crise no início dos anos 2000 parece ter dado o tom das discussões sobre regulamentação do mercado. O que percebi é que eles se mostraram atentos a todas as possibilidades (IG, aumento do consumo interno, certificação de boas práticas agrícolas, informação estatísticas, mercado futuros etc.).

Conclusão

A minha principal conclusão é que a determinação e a capacidade criativa do povo vietnamita não deixam dúvidas o quanto competente é este nosso competidor. A preocupação do Vietnã em entender melhor a dinâmica do setor cafeeiro em países como o nosso é apenas um reflexo da crescente preocupação dos mesmos com o futuro da atividade em seu próprio território.
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Material escrito por:

sylvia saes

sylvia saes

Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)

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