Dança da chuva
A agricultura, por suas características, é das atividades que mais sofre com a incerteza climática. Alguma margem de dúvida sempre haverá, mas a percepção é a de que, com o passar dos anos, tem ficado mais difícil lidar com a questão. Por se tratar de um fenômeno complexo, a mensuração dos efeitos é desafiadora: pesquisas recentes, porém, mostram que, aos poucos, produtores de diferentes partes do mundo têm notado os efeitos negativos do clima sobre a produtividade de seus cafezais.
Publicado em: - 3 minutos de leitura
A descrição dada por um diretor da Fundação é interessante. Segundo Osmar Santos, sua organização não apenas evitou chuvas durante o Carnaval como as desviou para São Paulo, onde a estiagem vem colocando em risco o suprimento de água a milhões de habitantes. Mais, a Fundação Cacique Cobra Coral afirma que possui convênios semelhantes com outros governos, tendo atuado em eventos como os Jogos Olímpicos de Londres e Sochi.
Sobre o convênio, talvez haja pouco a ser dito. Como a Fundação não cobra nada pela consultoria prestada a prefeituras, o poder público não pode, a princípio, ser acusado de mau uso de recursos. Por trás da reportagem, porém, há detalhes que incomodam. Em um momento marcado pelas duras consequências da seca sobre a cafeicultura, não deixa de ser desalentador notar como as decisões de governos podem ser permeáveis a métodos baseados na superstição ou em poderes sobrenaturais. Nada contra a ajuda do além, ao contrário. O problema é que tais “iniciativas” não têm sido acompanhadas por um investimento adequado na mitigação ou adaptação à mudança climática.
É aí que a história se torna interessante para nós. A agricultura, por suas características, é das atividades que mais sofre com a incerteza climática. Alguma margem de dúvida sempre haverá, mas a percepção é a de que, com o passar dos anos, tem ficado mais difícil lidar com a questão. Por se tratar de um fenômeno complexo, a mensuração dos efeitos é desafiadora: pesquisas recentes, porém, mostram que, aos poucos, produtores de diferentes partes do mundo têm notado os efeitos negativos do clima sobre a produtividade de seus cafezais. As estatísticas agregadas também sofrem. Menor produção em diversas regiões leva a um cenário em que os “sobreviventes” ganham, devido aos preços mais altos, enquanto milhões de “vítimas do clima” perdem muito.
Estabelecer uma relação entre a mudança climática e a cafeicultura é difícil porque qualquer conclusão não se limita ao trabalho de engenheiros agrônomos, físicos ou meterologistas. Aqui, variáveis sócio-econômicas também contam. Por se tratar de uma atividade desempenhada apenas em países em desenvolvimento, todas as transformações sociais observadas nas últimas décadas também explicam a trajetória da produtividade nos cafezais. No Brasil, o melhor acesso de milhões de produtores ao conhecimento e à infraestrutura nas últimas décadas levou a uma natural melhora nas suas estatísticas individuais. Com isso, é possível que, em muitos casos, eventuais perdas relacionadas com a mudança climática estejam sendo “compensadas” pelos ganhos derivados do uso de técnicas produtivas mais adequadas.
Nesse sentido, o desafio é separar ambos os efeitos, tratando de determinar até que ponto a aquisição de conhecimento e tecnologia por partes dos cafeicultores tem compensado os efeitos da mudança climática. Trata-se de uma tarefa especialmente importante para aqueles produtores mais vulneráveis, dado que possuem menor capacidade de adaptação no curto prazo. Ao influenciar a percepção dos cafeicultores, tais transformações podem estar comprometendo a perenidade da atividade no futuro. Afinal, sinais contraditórios comprometem a tomada de decisão. Quando o cenário ficar claro, pode ser tarde demais para uma parcela considerável dos produtores.
O ideal, portanto, seria evitar uma situação em que o avanço das consequências negativas anulasse todos os avanços colhidos nas últimas décadas, jogando por terra o trabalho duro de milhões de produtores. Parte dessa empreitada depende da ação pública, por meio de investimentos na adaptação à mudança climática e direcionamento de recursos a pesquisas capazes de compreender o fenômeno, entre outras medidas. A outra parcela cabe a todos nós: a progressiva consolidação de práticas destinadas a reduzir a incerteza climática facilita a sua implementação, algo que depende da decisão de cada produtor. Ações coletivas privadas também são necessárias, a fim de compartilhar eventuais custos derivados da aquisição de conhecimento ou tecnologias necessárias para lidar com o desafio. Em resumo, menos “dança da chuva” e mais ação concreta.
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Material escrito por:
Bruno Varella Miranda
Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri
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SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 01/04/2014
Muito obrigado pela sua participação. Fiquei particularmente interessado em conhecer casos de produtores que já estão abordando o desafio do clima. Aproveito, assim, o espaço para convidar leitores que tenham alguma experiência na área a compartilhar conosco as suas impressões.
Estando nas duas pontas do debate (pesquisando e colhendo café), você provavelmente seja uma das pessoas mais indicadas para nos passar informações sobre o tema que levantei. Caso tenha textos escritos sobre a questão, resultado de suas pesquisas, gostaria de ter acesso aos mesmos.
Atenciosamente
Bruno
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 01/04/2014
Agradeço a sua participação constante por aqui, sempre trazendo exemplos e argumentos para a reflexão de todos. Espero seguir contando sempre com a sua presença nesse espaço.
Atenciosamente
Bruno Miranda

PERDÕES - MINAS GERAIS
EM 01/04/2014

GUARANÉSIA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 01/04/2014
Como pode-se constatar a ação do Cacique não resolveu a falta de chuva em São Paulo com a ação no Carnaval, assim como não resolveram os bombardeamentos de nuvens contratados pela SABESP.
O que está acontecendo este ano associado à falta de chuva no Sul de Minas e no leste de São Paulo é um fenômeno extremo que se traduziu numa mudança do tipo de chuvas que tivemos no verão. Ao invés de passarmos vários dias seguidos com chuvas contínuas, que enchem reservatórios e saturam o solo, o que é típico de Janeiro, tivemos chuvas isoladas que chegam ao seu cafezal se você tiver sorte.
É um extremo climático e é válida a pergunta de se estamos vendo já os efeitos das mudanças climáticas ou se faz parte da variabilidade natural do clima.
De qualquer forma, um evento extremo expõe nossas vulnerabilidades e o melhor a fazer é aprender com os problemas enfrentados agora para no futuro estar prevenido.
Alem de ter uma fazenda de café no Sul de Minas sou professora de Meteorologia na USP e uma das autoras do relatório do IPCC que foi divulgado ontem. Todos os dias respondo a perguntas sobre o clima e como ele impacta nossas atividades. Considero que o artigo do Bruno Miranda toca em pontos que realmente são fundamentais para o produtor. Além de melhorar sua produtividade com todos os recursos tecnológicos disponíveis é preciso conviver com um clima em que os extremos se tornam mais frequentes, de forma que como ele diz, os ganhos de um não anulem as perdas devido ao outro.
E para enfrentar as intempéries o jeito é mais e mais tecnologia associada ao acesso à informação climática com produtos adequados para tomada de decisão do produtor. Este é um grande desafio de comunicação que vai sendo abordado com coragem e criatividade por alguns grandes produtores mas que ainda pode se expandir entre os pequenos e médios.

MONTE CARMELO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 31/03/2014
Há exatos 10 anos, minha lavoura de soja foi acometida pela então recente ferrugem asiática. Comprei o produto (à época caríssimo) e repassei para o meu funcionário, com ordens explícitas para que ele não entrasse com o tanque totalmente cheio, uma vez que havia ocorrido fortes chuvas e alguns pontos do terreno poderiam atolar o tanque e inviabilizar a pulverização.
Ele atolou o tanque, pois havia entrado com o bicho cheio. Demoramos 4 dias para desatolar o bicho, com um trator de rodado duplo do vizinho. Perdi a safra toda (colhi 17 sc/ha, em um ano que a saca de soja foi a inacreditáveis R$50).
Questionado, ele disse apenas que "ele tinha fé que tudo daria certo", insinuando que talvez eu não estivesse rezando o suficiente. Descobri, depois, que ele havia vendido o produto e simulou o incidente com o tanque cheio de água.
Essa reza do Cacique Cobra Coral me lembra muito isso.
Meu Deus, na mão de quem estamos? Haja paciência para aguentar esse "nível" de (des)governança...
Abraços e parabéns pelo artigo.
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 31/03/2014
Agradeço a sua leitura atenta do texto. Aproveito para convidá-lo a seguir postando comentários, sugestões de pautas e críticas aos conteúdos aqui publicados. Esse espaço é de todos!
Atenciosamente
Bruno Miranda
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 31/03/2014
Muito obrigado pelo comentário. Planejamento de longo prazo e uso do conhecimento acumulado até o momento são as chaves para lidar com o desafio. O relatório do IPCC, divulgado hoje, mostra que algo precisa ser feito.
Atenciosamente
Bruno Miranda

PERDÕES - MINAS GERAIS
EM 31/03/2014

SÃO JOSÉ DOS CAMPOS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 31/03/2014