Crise na cafeicultura: será o Estado um bom remédio?
Seja qual for o remédio proposto, dos preços mínimos ao calote generalizado, a impressão geral é a de que o curto prazo vem ditando o ritmo mais uma vez. Alívio imediato é o que parecem pedir as lideranças do setor. Porém, é necessário perguntar: qual a contrapartida? Haveria a intenção, por parte daqueles que clamam por ajuda governamental, de buscar soluções inovadoras que não estejam associadas à solução de sempre?
De fato, já não é de hoje que os consumidores absolveram o café. No entanto, o que explica a melhora da reputação do café frente à população não é tanto a queda de mitos associados à sua imagem. Mais que isso, foi somente quando o setor se uniu em torno de iniciativas sólidas que o brasileiro voltou a tomar gosto pelo café. Por isso, os excelentes números referentes ao consumo no país não se explicam a partir da capacidade da ciência em associar o café à saúde. Antes da explosão das pesquisas sobre o tema já havia muito a ser comemorado, como o melhor controle da qualidade do produto.
Resolvidos os problemas do café com a saúde de seus consumidores, é necessário entender os efeitos do café para a saúde de seus produtores. Indo além, são importantes pesquisas capazes de atenuar eventuais males trazidos a essa classe. Afinal, a enorme quantidade de reclamações dos cafeicultores nos últimos tempos certamente vem contribuindo para a deterioração de sua qualidade de vida.
Brincadeiras a parte, é considerável o grau de irritação de muitos produtores frente ao momento. Previsões catastróficas são frequentes, dando a impressão de que a cafeicultura não tem mais jeito. Um bom indicador desse quadro são as cartas publicadas aqui no CaféPoint. No geral, o produtor parece desanimado com sua atividade.
Soluções para o momento de desolação são variadas, e dependem do agente em questão. Em diversos casos, por exemplo, a busca por um controle mais atento dos custos já poderia garantir o alívio. No entanto, esse texto não se proporá a dividir os cafeicultores em grupos e receitar soluções para cada uma das reclamações. Pelo contrário, o que será aqui questionado é a saída apontada por diversas lideranças do setor, qual seja: a ajuda governamental.
Seja qual for o remédio proposto, dos preços mínimos ao calote generalizado, a impressão geral é a de que o curto prazo vem ditando o ritmo mais uma vez. Alívio imediato é o que parecem pedir as lideranças do setor. Porém, é necessário perguntar: qual a contrapartida? Haveria a intenção, por parte daqueles que clamam por ajuda governamental, de buscar soluções inovadoras que não estejam associadas à solução de sempre?
Por isso, é fundamental um pouco de autocrítica nesse momento difícil. Estará o setor fazendo tudo aquilo que pode? Que a cafeicultura é capaz de encontrar soluções para períodos de dificuldade, quanto a isso não resta dúvida. Além disso, não duvidamos que a cafeicultura tem todas as condições de se levantar frente aos tempos de dificuldade. Nos relatos desanimados, entretanto, a impressão passada é a de que a cafeicultura está fadada ao fracasso, e que sem o empurrão do Estado não há quem dê jeito nisso.
Em outras palavras, todos sabemos da importância da cafeicultura para a economia brasileira e o número de empregos que gera. No entanto, não parece prudente associar o Estado à tarefa de sustentar setores falidos, unicamente por sua suposta importância. Ou seja, ajudar a cafeicultura, do ponto de vista da sociedade, só faz sentido se a mesma for capaz de se manter sustentável no longo prazo. Ora, de nada adiantaria bancar os momentos difíceis se o fim da história é conhecido.
Da mesma forma como ninguém investe seu dinheiro em um negócio pouco promissor, é evidente que um Estado não deve fazer o mesmo. Assim, o principal desafio da cafeicultura no momento, mais do que angariar a simpatia dos formuladores de políticas públicas, é encontrar uma resposta independente do governo para a crise. Somente dessa forma o eventual empurrão dado no atual momento permitirá ao setor manter o ritmo no futuro.
Será melhor para o setor (e para o Brasil) se a resposta para a crise atual não estiver baseada unicamente na capacidade do governo de pagar a conta. Do contrário, seguiremos ouvindo os mesmos relatos, presenciando sugestões baseadas nos mesmos remédios e, consequentemente, perderemos ainda mais espaço no concorrido mercado internacional.
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Material escrito por:
sylvia saes
Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)
Acessar todos os materiaisBruno Varella Miranda
Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri
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SERRANIA - MINAS GERAIS
EM 05/03/2010
- de que adianta a ABIC ,,,,, muitas torrefações deven ser fechadas ,,,, chamem a vigilancia sanitaria !
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COROMANDEL - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 15/09/2009
Nós, pequenos e médios produtores, infelizmente estamos de mãos atadas, vendo nosso patrimônio indo pro BURACO. A falta de uma politica de renda, insumos carrísimos, leis ambientais absurdas, créditos escravatórios; um Fundo que é usado pra tudo, menos para ajudar quem realmente precisa (cafeicultores).
Precisamos realmente é acordar e buscarmos soluções condizentes com a relidade.

BARRA DA ESTIVA - BAHIA - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 09/09/2009

VENDA NOVA DO IMIGRANTE - ESPÍRITO SANTO - ESTUDANTE
EM 21/08/2009
Apenas queria colocar, como filho de produtor e estudante da área que a cafeicultura, que a atividade é a fonte de sustento de "milhões" de pessoas. Então, é preciso que o Estado analise com muito carinho essa situação atual.
Obrigado.

CABO VERDE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 18/08/2009

BOM SUCESSO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 14/08/2009
Caros consultores, é lógico que a solução da cafeicultura tem que ter a interferência do Estado. Afinal de contas, foi o governo com esta política cambial que tirou nossa renda. Hoje estamos vendendo café no câmbio de 1,80 e comprando insumos e pagando mão de obra no câmbio de 4,00. Além disso, o Estado via carga tributária é nosso maior sócio.
O mercado internacional está pagando em dólares um bom preço pelo café, mas o câmbio e o custo Brasil nocautearam a cafeicultura.

VARGINHA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 13/08/2009
De fato existe desespero, desesperança e descrédito, mas o bom de tudo é ver, no dia a dia, que o cafeicultor não se entrega; ele vem reduzindo custos e aumentando produtividade num ritmo nunca visto em outras atividades, e isto, por ser um apaixonado e tradicional produtor.
Não se busca no Estado " um pagador da conta"; o cafeicultor fez um fundo, justamente para os períodos de necessidade para ordenar a oferta, e, se possível, financiar o custeio. Porém, a gestão do fundo tem sido falha, e as politicas não tem surtido o efeito desejado.
Outros setores da cadeia ingerem na administração dos recursos e se utilizam dele, ficando o produtor, menos unido e articulado, com a conta. Muito poderá ser feito, bastando seriedade, competencia e a visão de que a produção é que origina tudo.
Estamos sem estoques, com ano de baixa safra e qualdade, teremos na próxima safra nova frustração, devendo faltar café, e não conseguimos fazer com que esta situação favorável e inusitada influencie os preços.
A manipulação precisa ser reduzida e o ESTADO precisa ter condições de dar a informação correta para o mercado, oferecendo credbilidade e agindo quando necessario.
Não vou continuar alongando, mas parabenizo-los e os convido para visitar a fazenda experimental de Varginha/MG (Fundação Procafé), uma experiência de sucesso.
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 13/08/2009
Mais uma vez vocês conseguiram conceituar a crise que passa na cafeicultura com grande sensibilidade que o assunto requer.
Com certeza temos de ter a participação ativa do Estado, mas de forma a resolver problemas e não de contemporizá-los com a postergação de pagamentos de dívidas.
O setor passa por um dilema de produção, onde aqueles que não conseguirem mecanizar as suas lavouras não serão competitivos com aqueles que possuem fazendas totalmente mecanizadas e pelo velho dilema de agregar mais valor ao produto vendido.
Nossas produções continuam crescentes, com um volume superior à demanda e isto acaba gerando deságios ainda maiores nos nossos preços para reconquistarmos fatias de mercado perdidas no passado. Nossos custos são maiores devido ao aumento de renda no campo, apesar que os aumentos de renda acabam gerando aumento de consumo, portanto, ambos positivos para nossa economia.
Não podemos deixar de elogiar a preocupação do governo em gerar renda, através da melhoria do preço mínimo, ainda insuficiente mas melhor que antes, e dos leilões de opções. Porém temos de analisar quem poderá ser competitivo e procurar formas de saída para aqueles produtores que não terão condições de permanecer no negócio.
Ao invez de sairmos conquistando o mundo com nossos produtos acabados, por um problema de gestão, acabamos sendo invadidos por grupos estrangeiros, devido a nossa falta de competitividade e continuamos passivos como exportadores de materia-prima, sem agregar muito valor à cadeia.
Se me permite, a questão da situação do café se tornou sim uma questão de Estado, pois este pouco tem promovido nosso produto de forma compatível com o tamanho da nossa cadeia. O Estado Brasileiro precisa ser sensibilizado das fortes barreiras a nossos produtos, haja vista a taxação ao produto acabado brasileiro na ECC de 9%, ao mesmo imposto na Turquia que sequer faz parte da ECC, aos 30% de taxas que a Russia impoe ao produto brasileiro e agora ao acordo que o Japão fez com a Comunidade Asiática de zerar o imposto de importação de 8% sobre o produto industrializado.
Temos sim de concentrar todos os esforços para passarmos a exportar produtos com a marca Brasil para mostrar ao mundo a qualidade do café brasileiro.
Os exemplos de nossos países competidores estão aí para comprovar que apesar do Brasil ter conseguido aumentar muito a sua produção, não conseguimos ter uma cadeia forte de forma a conquistar o resto do mundo, com lojas, marcas e uma indústria forte.
Para isso necessitamos sim de um Estado participativo, inovador, com politica cambial compatível, com estrutura de impostos competitiva, agressivo em marketing, com politicas reguladoras de estoques devido a nossas produções bi-anuais e, principalmente, ativo na remoção de barreiras ao nosso produto, da mesma forma como foi feito com a carne e com o álcool.
Somente assim mudaremso o foco das discussões.

OUTRO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 13/08/2009
Venho de uma familia tradicional na atividade rural. Nenhum de meus filhos quer saber de café. Muito trabalho e pouca renda.
Procuro uma saída da atividade que não seja inglória. Este é o nosso grande problema. Não vale a pena continuar numa atividade inviável. Só quem é cafeicultor é que pode dimensionar o estágio de deterioração a que chegamos.
A deterioraçao é técnica: num ano de baixa produção a desfollha dos cafezais demonstra o baixo padrão utilizado na safra; a deterioraçao é econômica: o número de cafeicultores com dificuldades com bancos é inusitado. As máquinas e equipamentos são velhas e ultrapassadas. Todo mundo se ressente de não ter vendido suas terras há mais tempo. Nunca vi tanta terra com café ser ofertada e de não existirem investidores interessados nas mesmas.
A deterioração da vontade: o desânimo é geral. A marcha do café demonstrou. Nunca tanta gente para pedir não se sabe o quê.
Acho que é o fim de um ciclo. Pelo menos de uma era, tenho certeza.