A relação produtor - comprador em foco

Temos tratado recorrentemente das oportunidades relacionadas à produção de cafés especiais, mostrando tendências globais de consumo e apresentando alguns de nossos principais concorrentes. Aqui, buscaremos apresentar um rápido perfil do cafeicultor dedicado a este filão do mercado, baseados em uma pesquisa recente patrocinada pela torrefadora illycaffè, importante compradora de cafés com qualidade superior. Indo além, comentaremos os fatores envolvidos na relação entre cafeicultores e seus parceiros na comercialização, com atenção especial a possíveis fatores de instabilidade.

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Temos tratado recorrentemente das oportunidades relacionadas à produção de cafés especiais, mostrando tendências globais de consumo e apresentando alguns de nossos principais concorrentes. Aqui, buscaremos apresentar um rápido perfil do cafeicultor dedicado a este filão do mercado, baseados em uma pesquisa recente patrocinada pela torrefadora illycaffè, importante compradora de cafés com qualidade superior. Indo além, comentaremos os fatores envolvidos na relação entre cafeicultores e seus parceiros na comercialização, com atenção especial a possíveis fatores de instabilidade.

Os dados aqui apresentados foram cedidos gentilmente pela ADS Assessoria de Comunicações. Isso posto, vale definirmos: quem observamos? Estamos tratando aqui de cafeicultores que em geral detém uma propriedade, localizada a uma altitude superior aos 800 metros. No que se refere à área plantada, a mesma varia, podendo ser menor que 80 hectares em alguns casos, ou ainda superior a 200 hectares em outros. Entre outras coisas, é interessante observarmos o quanto estes produtores se encontram ligados ao mundo, em busca de informações constantes. Para 75% dos cafeicultores consultados, o acesso à Internet faz parte da rotina diária.

Metade dos entrevistados possui terreiros de cimento, cujo tamanho médio varia entre os 6.000 e 20.000 m2. Grande parte dos produtores consultados possui produtividade média superior a 40 sacas/ha, possuindo mais de 3.000 covas por hectare. As variedades produzidas são diversas, ganhando destaque a Catuaí, a Mundo Novo e a Bourbon. Ou seja, em meio a algumas proximidades, há ainda espaço suficiente para a diversidade.

Entre os cafeicultores consultados, é ainda relativamente pequena a quantidade de propriedades certificadas. No entanto, a maioria dos produtores detentores de algum tipo de selo o obtiveram nos últimos três anos, o que demonstra uma importante tendência. Inclusive, a consolidação de iniciativas como a do CACCER contribuem para este novo quadro. É bem provável que em cerca de uma década a maioria esmagadora dos cafeicultores envolvidos neste segmento possuam ao menos um selo.

Ao analisar a sua relação com o comprador, são interessantes as observações mais comuns feitas pelos cafeicultores, tanto no que se referem aos avanços quanto aos desafios. Iniciando pelos avanços, são inúmeros os testemunhos de produtores que creditam ao estabelecimento de uma parceria com um comprador reconhecido a motivação necessária para melhorar seu padrão de qualidade. Igualmente, a possibilidade de reconhecimento e o potencial para o crescimento daqueles cafeicultores capazes de entender o mercado são citados como diferenciadores neste tipo de relacionamento. Isso tudo somado a vantagens mais óbvias, como a do aumento no preço.

Passando ao lado dos desafios, certamente mais interessante para nossos propósitos, são diversos os pontos a serem salientados. Alguns cafeicultores gostariam de obter maiores informações acerca dos gostos do consumidor final, algo que possibilitaria um maior cuidado com o resultado final da produção. Não necessariamente aquilo que é considerado sinal de qualidade para um cafeicultor é entendido como tal pelo habitante de uma grande metrópole, o que faz com que esta comunicação seja essencial, quando possível por meio da responsável pela comercialização do café.

Para outros, os critérios para a aceitação do café deveriam ser mais bem explicitados, algo que merece alguns comentários. Somente com o estabelecimento de canais adequados para o envio de informações relevantes aos agentes e a delimitação de uma estrutura de incentivos adequada foi possível o fortalecimento de um filão como o dos cafés especiais. Certamente estaríamos todos discutindo a minimização constante dos custos caso o preço fosse o único referencial envolvido no mercado cafeeiro.

Pois bem, tendo em vista este quadro, é interessante constatarmos o quanto a relação entre cafeicultores e o comprador ainda dá margem para melhoras, apesar de anos de convivência. Seja devido aos critérios, ou ainda o período escolhido para as vendas, são inúmeros os motivos para desalinhamentos de interesses, alguns ocasionais e outros recorrentes. Fundamentais pelo potencial que têm de modificar atitudes inadequadas por parte dos agentes, tais demandas, quando bem feitas acrescentam muito a todos.

Ou seja, a existência de discordâncias, antes de ser enquadrada como um sinal de desgaste de uma parceria como a aqui analisada, deve na verdade ser vista como uma conseqüência natural do relacionamento entre agentes na busca por coordenação constante. Desafios são impostos a todo o momento, graças ao quadro climático, as condições do mercado, as decisões de outros agentes, mudanças nos gostos do consumidor, entre outros. Nesse sentido, sempre haverá espaço para ajustes no relacionamento entre produtores e o comprador, tendo em mente o objetivo final de garantir a satisfação do consumidor final.

Finalmente, chama a atenção os comentários direcionados às oscilações observadas na facilidade de comercialização do café. De acordo com alguns cafeicultores, períodos de grande produção costumam trazer dificuldades para a venda de café mesmo em um segmento caracterizado pela diferenciação do produto. Além disso, muitos se queixam do baixo preço se comparado com a alta cobrança realizada na produção. Chegou-se mesmo a citar a crescente concorrência neste segmento.

Acerca deste tópico, alguns comentários cabem. Inicialmente, a inserção em um segmento como o de cafés especiais vai deixando cada vez mais de ser um diferencial, para se tornar uma obrigação. No futuro, será cada vez mais difícil um lugar ao Sol para aqueles produtores pouco preocupados com este quadro. Se determinados elos da cadeia se apropriam da maior parte dos ganhos, há aí um excelente ponto para o debate, e certamente ainda teremos diversas oportunidades para discutir esse ponto. É justamente a organização dos cafeicultores e a capacidade de "discutir produtivamente" um importante guia para o estabelecimento de relações mais harmônicas e benéficas a todos.

Independentemente dos desafios que esta parceria traz, um dado é fundamental: 96% dos entrevistados gostariam de aumentar suas vendas de café especial para o comprador deste exemplo. Este resultado, previsível, evidencia as vantagens da comercialização de um produto com atributos de qualidade, menos suscetível às variações de preço. Da mesma maneira, demonstra a importância da construção de relações estáveis ao longo da cadeia, afinal é justamente o oferecimento de incentivos adequados um elemento indispensável para a consolidação deste segmento de mercado.
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Material escrito por:

sylvia saes

sylvia saes

Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)

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Bruno Varella Miranda

Bruno Varella Miranda

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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Juliano Tarabal
JULIANO TARABAL

PATROCÍNIO - MINAS GERAIS

EM 21/09/2007

Muito pretensioso se colocar que dentro em breve só terá lugar ao sol o produtor de cafés especiais. Profissionais envolvidos na área estratégica do agronegócio café devem tomar muito cuidado ao colocarem determinadas colocações em seus artigos.

Primeiro que quando escrevemos nos tornamos automaticamente formadores de opinião, portanto é imprescindível que nos policiemos para transmitirmos idéias claras e palpáveis.

È importante deixar bem claro que commodity é commodity, café especial é café especial, gourmet é gourmet, glider é glider, e assim por diante. No caso como o artigo supracitado fala sobre café especial, é importante se esclarecer que este é apenas um dos vários segmentos que o produtor pode ou não adotar.

Primeiro que quem conhece bem uma propriedade de café sabe perfeitamente das dificuldades que se têm em produzir os cafés especiais, que também é bom ressaltar que diferentes significados e pontos de vista existem para definir especiais.

Uns apontam que se trata do manejo em geral que se dá a lavoura, tais como certificações, aplicação de MIP e MID, cobertura vegetal no solo, preservação de reservas, áreas de APP e etc; outros já atentam a questão da qualidade da bebida, da seca em si, do aspecto do grão, da peneira, etc.

Logicamente que café especial é um excelente caminho a se seguir, mas antes de optar por este caminho uma série de medidas devem ser adotadas como por exemplo uma pergunta básica que nos fazemos antes de enveredar rumo a um novo negócio:

Pra quem vender?

Contudo, ferramentas de comercialização devem ser antes verificadas, para que não aconteça com muitos produtores que fazem qualidade, certificam suas propriedades, investem em infra-estrutura, consultorias e depois esbarram no não conhecimento do mercado comprador.

E outra, é muito diferente se comercializar para países do sul e países do norte. O mercado de café especial cresce sim no mundo todo porém mesmo diante desse quadro a procura por cafés ditos commodities é e pelo menos por um bom tempo será grande, pois o mercado consumidor é bastante heterogêneo.

Juliano Tarabal
GEPECCAFE

<b>Caro Juliano,</b>

Talvez o significado da colocação "só terá lugar ao sol o produtor de cafés especiais" tenha tido impacto maior que o desejado. O que de certa forma não achamos ruim pelo fato que o mercado tende a ser mais forte do que os nossos desejos. O que queremos dizer é que durante muitos anos o produtor brasileiro incentivado pela política cafeeira e órgãos de pesquisas focou muito mais em produzir quantidade que qualidade. Isso, de certa forma, significou uma imagem negativa do café brasileiro tanto no mercado nacional como no exterior.

Atualmente, com a tendência do mercado em valorizar cafés especiais, os produtores brasileiros, de uma forma geral, têm se esmerado em adotar tratos culturais e investimentos (máquinas de despolpar, certificações etc.) que colocam a qualidade média do café em um novo patamar. Tanto é verdade que o café do Brasil no exterior tem sido valorizado. Ou seja, há um incremento médio da qualidade que vai se impondo (veja a questão das certificações) no momento que mais produtores passam a adotar boas práticas de produção.

Sabemos que café especiais é um nicho, mas este acaba criando externalidades para a média, que pouco a pouco vai agregando a qualidade.

Quanto a sua indagação: para quem vender? Nos agregaríamos uma outra: será que estamos recebendo pelo esforço? Estas são questões difíceis já que como você mesmo coloca, o café é uma commodity e se vê diante de preços de concorrência face a um mercado comprador oligopolizado. Como resolver este quebra-cabeça? Ainda não temos a resposta.

Sylvia e Bruno
Francisco Sérgio Lange
FRANCISCO SÉRGIO LANGE

DIVINOLÂNDIA - SÃO PAULO

EM 15/09/2007

<b>Caro Bruno e Maria Silvia,</b>

Este foco da qualidade é hoje o assunto do momento, como vocês mesmo afirmam neste artigo, a inserção no seguimento de cafés especiais deixa cada vez mais de ser um diferencial, para se tornar obrigação e também que 96% dos entrevistados gostariam de aumentar suas vendas de café especial. Isto é verdade mas, até parece que de uma hora para outra todo mundo tem café especial. Concursos de qualidade são feitos a todo instante e em todos os lugares.

Do modo como isto está se proliferando, acho que logo teremos que fazer concurso de qualidade da qualidade. Acho que nós, pequenos produtores (a grande maioria neste pais), estamos sendo levados por uma onda onde os maiores interessados nisto talvez não sejamos nós.

Digo isto porque sou produtor de café natural com qualidade e bebida superiores, interesso-me muito pelo assunto e o futuro muito me preocupa. Certificações, denominação geográfica e outros, se tornaram assunto rotineiro na vida dos produtores. Simples, né? Estabelece-se um conjunto de regras, normas, critérios e prêmios e nos cobram qualidade. Quando colocamos o tapume no burro é para forçá-lo a andar só para frente. O que iremos fazer com todo o café que não é de qualidade superior, porque só de qualidade como vocês já afirmaram é obrigação?

Não podemos nos esquecer de que o mercado é cruel e que também não temos força e representação política nos destinos e condução da politica econômica deste país. Aqui cabe uma indignação: Até quando teremos que aguentar estes políticos que tomam decisões como esta ultima do Senado?

Agora, quero aproveitar para convidar a todos que venham conhecer Divinolândia -SP: Terra do café de qualidade e bebida superiores, e também venham participar da nossa 1ª Festa do café, dias 28 e 29 de setembro/07 onde estaremos homenageando o Ilmo Dr. Fábio de Salles Meirelles.

<b>Caro Francisco,</b>

Confesso que não é fácil responder o seu email. Não temos respostas para as suas indagações. Elas, na verdade, são também nossas. Sabemos que a implementação de estratégias de qualidade são necessárias, mas isto não significa que são suficientes para elevar a renda do produtor. Pensamos, entretanto, que é nosso dever refletir sobre estas questões. Agradecemos o convite e desejamos muito sucesso na 1ª Festa do Café da região!

Abraços,
Sylvia e Bruno