Densidade de plantio: influência na fertilidade do solo e na adubação
Em plantios adensados de café, os teores de nutrientes no solo aumentam gradativamente, devido ao processo de ciclagem, à menor adsorção de P no solo e à maior retenção de nutrientes que eventualmente seriam perdidos do sistema, seja por erosão, seja por lixiviação. Esse fato é de extrema relevância, uma vez que as doses de nutrientes são recomendadas levando em consideração os teores presentes no solo, além da produtividade esperada.
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Apesar da experiência que o trabalho contínuo confere, algumas vezes nos deparamos com questionamentos que nos obrigam a uma análise mais aprofundada. Mas isso é saudável, uma vez que o conhecimento é modificável e cumulativo, de forma que está sempre se enriquecendo com novas observações ou pontos de vista.
Alguns dias atrás, um amigo cafeicultor me disse que havia plantado uma lavoura adensada de café, e com alguma dúvida afirmou, querendo minha anuência, que deveria aumentar as doses de fertilizantes por hectare para manter a mesma produção de suas outras lavouras. Seu raciocínio foi lógico e claro, pois o número de plantas/ha será maior, necessitando de maior quantidade de nutrientes para sustentar a parte vegetativa das plantas, além da produção.
Eu disse que precisávamos nos aprofundar mais no assunto, pois uma maior necessidade de nutrientes não significa, obrigatoriamente, maior quantidade de fertilizantes. Assim, convido os leitores do CaféPoint a seguirem a linha de raciocínio que tentei desenvolver sobre o tema, me baseando, sempre, em resultados de trabalhos científicos.
Desenvolvimento
O efeito do adensamento de plantio na produção das lavouras cafeeiras já é conhecido de longa data, chegando a proporcionar o dobro de produtividade em relação a plantios menos adensados, como relatado por Miguel et al. (1983) e corroborado por Rena et al. (2003).
A produção por planta também se modifica de acordo com o espaçamento. Segundo Rodosevich et al. (1996), em baixas densidades de plantio, a produção total por área é determinada por elevada produção de poucas plantas, enquanto, em altas densidades, é definida por baixa produção de muitas plantas. Assim, deve ficar bem estabelecido que, em maiores densidades de plantio, a produção por hectare aumenta, mesmo que a produção por planta diminua, dado o elevado número de plantas/ha.
A redução na produção por planta, em plantios adensados, é explicada por Cannell (1985), para quem o principal efeito do sombreamento, no caso auto-sombreamento, é a redução do número de nós por ramo e de gemas reprodutivas por nó. Se o número de nós é o fator chave para a produção do café, esta poderá declinar, por planta, com o incremento do auto-sombreamento.
Esse fato tem influência direta na adubação das lavouras. Portanto, precisamos identificar as situações em que estaríamos sujeitos a cometer equívocos na recomendação de adubação. Partimos do pressuposto de que existem duas opções para a recomendação de adubação: ou se recomenda a dose por planta (g/planta) ou se recomenda a dose por hectare (kg/ha).
A recomendação por planta pode acarretar situações até irreais, como relatado por Miguel et al. (1983). Esses autores observaram que a aplicação de 125 g/planta de N ou de K2O, que é considerada adequada para plantios menos densos, equivale a 714 kg/ha em um cafezal com 5.714 plantas/ha, o que está bem além das doses comumente recomendadas para essa situação. Nesse caso, para Rena et al. (1998), a dose aplicada por planta deve ser menor, uma vez que a produção individual declina, e a recomendação de fertilizantes deve ser definida por área.
A recomendação por hectare (kg/ha) aparentemente resolve o problema, pois, apesar de fixar as doses para determinada produtividade, gera doses variáveis por planta, sendo estas compatíveis com o nível de produção individual, ou seja, quanto maior a densidade de plantio, menor a produção por planta e menor a dose/planta de fertilizantes. Dessa forma, bastaria definir a produtividade esperada, independente do número de plantas/ha, e recomendar as doses em kg/ha para a produtividade previamente definida. Esta é a prática geralmente adotada, e a resposta ao questionamento poderia findar aqui.
O adensamento de plantio, entretanto, modifica completamente o sistema solo-planta. Uma importante modificação ocorre na fertilidade do solo. Nesse sentido, Pavan et al. (1999) observaram que o adensamento das lavouras de café arábica causou alterações nas principais características químicas do solo, aumentando o pH, os teores de P, K, Ca2+, Mg2+ e carbono orgânico e diminuindo o teor de Al3+. Para o café conilon, Guarçoni M. et al. (2005) observaram que os teores de P no solo aumentaram em 315% e os de K em 189 % quando se passou de uma densidade de 2.222 plantas/ha para 5.000 plantas/ha, sendo que nas duas densidades de plantio as doses de nutrientes e os fertilizantes utilizados foram estritamente os mesmos. Vale ressaltar que uma lavoura com 5.000 plantas/ha de café conilon é considerada adensada.
Portanto, em plantios adensados de café, os teores de nutrientes no solo aumentam gradativamente, devido ao processo de ciclagem, à menor adsorção de P no solo e à maior retenção de nutrientes que eventualmente seriam perdidos do sistema, seja por erosão, seja por lixiviação. Esse fato já começa a emoldurar um novo quadro sobre o assunto, uma vez que as doses de nutrientes são recomendadas levando em consideração os teores presentes no solo, além da produtividade esperada.
Mas o aumento na fertilidade do solo não é a única modificação que ocorre no sistema. Pavan et al. (1994) destacam o incremento na densidade de raízes por área em plantios adensados, o que acarreta maior taxa de recuperação, pelas plantas, dos nutrientes aplicados, especialmente daqueles que apresentam maior mobilidade no solo. Além disso, atribuem ao elevado sombreamento, causado pelo adensamento, um aumento do conteúdo de água no solo, o que contribui para que os mecanismos de transporte de nutrientes no solo sejam favorecidos, facilitando sua absorção, além do efeito direto de uma maior absorção de água pelas plantas.
A soma dos fatores: aumento gradativo na fertilidade do solo, elevada taxa de recuperação de nutrientes e maior conteúdo de água no solo, indica apenas uma direção: maior aproveitamento dos fertilizantes aplicados em plantios adensados. Exatamente por isso, Pavan et al. (1994) obtiveram maior produtividade, em lavouras adensadas, com níveis médios de adubação, ao passo que, em lavouras plantadas em espaçamentos mais largos, o aumento da produção foi obtido com maiores níveis de adubação.
Essas observações dão suporte para que a prática de adubação geralmente adotada em lavouras adensadas seja gradualmente modificada. A partir disso, o amigo cafeicultor ficou um pouco decepcionado por seu pensamento estar equivocado. Mas, por outro lado, ficou muito satisfeito com as conclusões que apresentamos.
Conclusões
• Aplicando-se uma mesma dose de fertilizantes por área (kg/ha), a produtividade será maior em plantios adensados, quando comparados a plantios menos densos.
• Para uma mesma produção, podem-se reduzir as doses de fertilizantes por área (kg/ha) em plantios adensados, em relação às doses necessárias para plantios menos densos.
Literatura Citada
CANNELL, M. G. R. Physiology of coffee crop. In: CLIFFORD, M. N.; WILLSON, K. C. (Eds.). Coffee, botany, biochemistry and production of beans and beverage. London: Croom Helm, 1985. p. 108-134.
GUARÇONI M., A. ; BRAGANÇA, S.M. ; LANI, J. A. . Modificações nas características da fertilidade do solo causadas pelo plantio adensado de café conilon. In: XXXI Congresso Brasileiro de Pesquisas Cafeeiras, Guarapari - ES, 2005. Anais... XXXI Congresso Brasileiro de Pesquisas Cafeeiras, 2005. p. 208-209.
MIGUEL, A.E.; GARCIA, A.W.R.; CORREA, J.B. & FIORAVANTE, N. Efeito de três níveis de adubação N e K em cafeeiros Mundo Novo, Catuaí e Catimor, plantados em duas densidades de plantio. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE PESQUISAS CAFEEIRAS, 10., Poços de Caldas, 1983. Anais... Rio de Janeiro, Instituto Brasileiro do Café, 1983. p. 289-291.
PAVAN, M. A.; CHAVES, J. C. D.; ANDROCIOLI FILHO, A. Produção de café em função da densidade de plantio, adubação e tratamento fitossanitário. Turrialba, San José, v. 44, n. 4, p. 227-231, 1994.
PAVAN, M.A.; CHAVES, J.C.D.; SIQUEIRA, R.; ANDROCIOLI FILHO, A.; COLOZZI FILHO, A.; BALOTA, E.L. High coffee population density to improve fertility of an oxisol. Pesq. agropec. bras., Brasília, v.34, n.3, p.459-465, 1999.
RENA, A. B.; NACIF, A. P.; GUIMARÃES, P. T. G. Fenologia, produtividade e análise econômica do cafeeiro em cultivos com diferentes densidades de plantio e doses de fertilizantes. In: ZAMBOLIM, L. (Ed.). Produção integrada de café. Viçosa: UFV, 2003. p. 133-196.
RENA, A. B.; NACIF, A. P.; GUIMARÃES, P. T. G.; BARTHOLO, G. F. Plantios adensados de café: aspectos morfológicos, ecofisiológicos, fenológicos e agronômicos. Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v. 19, n. 193, p. 61- 70, 1998.
RODOSEVICH, S.R.; HOLT, J.; GHERSA, C. Physiological aspects of competition. In:______. Weed Ecology: implication for managements. New York. John Wille and sons, 1996. p. 217-301.
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Material escrito por:
André Guarçoni M.
D.Sc. em Solos e Nutrição de Plantas pela Universidade Federal de Viçosa-MG. Pesquisador do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper)
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MUTUM - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 09/02/2017
CAMPESTRE - MINAS GERAIS
EM 30/12/2015
Gostaria de saber o que você acha sobre reciclagem de nutrientes provenientes das folhas e sobre uso de reservas de "K" em profundidade...

SÃO JERÔNIMO DA SERRA - PARANÁ - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS
EM 15/09/2010

JACUTINGA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 01/06/2010
considerando que temos controle apenas da "porteira para dentro", trabalhos como este vem nos dar alento e sobrevida ao nosso negócio café.
vamos agarrar este princípio com unhas e dentes.

GUAXUPÉ - MINAS GERAIS - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS
EM 30/05/2010
BERIZAL - MINAS GERAIS
EM 25/01/2010

ITAGUARA - MINAS GERAIS - ESTUDANTE
EM 13/10/2009
NOVA VENÉCIA - ESPÍRITO SANTO
EM 14/09/2009

SERRA NEGRA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 13/09/2009
Com este artigo, principalmente o pequeno cafeicultor pode tomar providencias que melhorem a produtividade e custos.
Parabéns.
VENDA NOVA DO IMIGRANTE - ESPÍRITO SANTO - PESQUISA/ENSINO
EM 11/09/2009
Abraço e muito sucesso a todos!
André Guarçoni M.

GARÇA - SÃO PAULO - ESTUDANTE
EM 10/09/2009
Pensando rapidamente, acredito que a maioria das pessoas pensariam como seu amigo produtor, que achava que deveria adubar mais o café adensado. Entretanto, você conseguiu mostar que existem trabalhos que comprovam o contrário. Provavelmente seu amigo e os demais produtores devem ter ficado muito contentes com o resultado, visto o preço dos fertilizantes químicos atualmente.
Parabéns novamente e sucesso!

MARÍLIA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 30/08/2009
O problema todo são os encargos trabalhistas e a valorização da taxa de câmbio. Os preços internacionais do produto estão bons, mas o problema é que o cafeicultor brasileiro não recebe em dólares. e sim em reais. Na hora de se fazer a conversão em reais , o preço torna-se irrisório para o produtor brasileiro.
Resta ao cafeicultor brasileiro orar para que o Governo nos olhe aqui embaixo e rezar para o céu fazer chover na hora certa e abrir a florada no momento certo. Até a próxima colheita!

SERRA NEGRA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 28/08/2009
Caro amigo André, sou agrônomo recém-formado, trabalho na Casa da Agricultura de Serra Negra/SP, e acredito que precisamos trazer novas alternativas para a cafeicultura brasileira, pois a mesma está ficando desacreditada pelos produtores antigos. Trabalando com trabalhos técnicos como o seu, podemos mudar alguma coisa e criar alguma alternativa para baixar custos por área, como fornecer de modo correto e suficiente a lovouras adubações exatas e nao continuar jogando dinheiro fora em adubações como fazem!
Abraço e mto bom trabalho, parabéns...

CARATINGA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 28/08/2009

CAMPOS GERAIS - MINAS GERAIS - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS
EM 26/08/2009

TEÓFILO OTONI - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 26/08/2009