Culturas intercalares: vantagem ou prejuízo ao cafeicultor?
Nos primórdios da cafeicultura no Brasil, as áreas escolhidas para o cultivo do cafeeiro eram sempre aquelas de alta fertilidade natural, oriundas da derrubada de matas. O espaçamento então utilizado, bastante largo, nunca menos de 4 metros nas entrelinhas, aliado ao solo fértil e à necessidade de prover alimento aos colonos que trabalhavam na lavoura, faziam da cultura intercalar uma prática bastante comum e que pouco ou nada interferia na cultura principal. Atualmente as culturas intercalares têm sido úteis na geração de renda adicional em cafés novos ou podados, na redução de injúrias por ventos e na fixação da mão-de-obra na fazenda. Também têm sido encaradas como alternativas em épocas de preços baixos do café.
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Breve histórico
Nos primórdios da cafeicultura no Brasil, as áreas escolhidas para o cultivo do cafeeiro eram sempre aquelas de alta fertilidade natural, oriundas da derrubada de matas. O espaçamento então utilizado, bastante largo, nunca menos de 4 metros nas entrelinhas, aliado ao solo fértil e à necessidade de prover alimento aos colonos que trabalhavam na lavoura, faziam da cultura intercalar uma prática bastante comum e que pouco ou nada interferia na cultura principal.
Com a renovação dos cafezais, promovida na década de 1970, e a partir de resultados de pesquisas realizadas nas décadas subseqüentes, foram introduzidos espaçamentos mais adensados, tanto na linha como nas entrelinhas. Esta nova realidade modificou as possibilidades de intercalar outras culturas com o cafezal, uma vez que o espaço para tanto foi reduzido. Além disso, desde o aparecimento da ferrugem, criou-se a necessidade de trânsito constante de máquinas para realizar pulverizações.
Atualmente as culturas intercalares têm sido úteis na geração de renda adicional em cafés novos ou podados, na redução de injúrias por ventos e na fixação da mão-de-obra na fazenda. Também têm sido encaradas como alternativas em épocas de preços baixos do café.
Competição
A competição por água, luz e nutrientes ocorre todo o tempo, mas muitas vezes não nos damos conta disto. Quando adensamos o cafezal, aproximando as plantas umas das outras, estamos deliberadamente aumentando a competição entre os pés de café e reduzindo a produção de cada um deles. Entretanto, como o número de plantas por área cresce mais que a perda de produção individual por planta, o resultado é uma maior produtividade (produção por área) e uma melhor eficiência no aproveitamento dos recursos, especialmente fertilizantes.
Como a cultura intercalar é, usualmente, de outra espécie, o cuidado deve ser redobrado, pois muitas vezes o aumento da produtividade do feijão ou do milho intercalar se dá às custas da redução da produtividade do café. Para que isso não aconteça, alguns cuidados devem ser tomados:
Adubação
Em solos férteis, a concorrência por nutrientes é menor. Ao contrário, em solos pobres, a concorrência da cultura intercalar com o café tende a ser maior. Assim sendo, a segunda cultura deve sempre ser adubada, para que não haja dano ao cafeeiro. Mesmo em solos bastante férteis, recomenda-se a adubação nitrogenada da cultura intercalar. E o retorno dos restos (palhada) é importantíssimo.
Escolha da espécie e cultivar
Culturas que acumulam mais biomassa, de modo geral, competem mais com o café. A grosso modo, quanto maior o porte final da cultura, maior a competição com o café. Culturas de ciclo rápido também tendem a competir menos. Assim sendo, o feijão interfere menos com o cafezal que o milho. E um milho precoce, de porte mais baixo, tende a interferir menos que outro de ciclo mais longo e porte mais alto. Pode-se colocar a seguinte ordem crescente de interferência no café:
Arroz < Feijão e amendoim < milho e algodão < mamona
Distância da cultura intercalar ao café
Este é um ponto crucial e muitas vezes passa despercebido. Quando a pesquisa agropecuária sugere que o melhor arranjo espacial para a produção de determinada cultivar de feijão é com 10 plantas por metro e 45 cm entre linhas, uma valiosa informação está ali embutida: em espaçamentos menores que 45, a competição entre as plantas de feijão possivelmente diminuirá a produtividade.
Com o cafeeiro se daria o mesmo: a menos de 45 cm a competição é certa. Portanto, na prática recomenda-se, no mínimo, que a distância entre a projeção da copa do cafeeiro e a linha da intercalar seja igual à distância recomendada para as entrelinhas da cultura intercalar. Ou seja, para o mesmo feijão, a distância entre sua linha de plantio e a projeção da copa do cafeeiro deve ser de 45 cm, no mínimo.
Idade e espaçamento do cafezal
Cafezais novos ou recepados tem seu sistema radicular reduzido. Sistema radicular explorando menor volume de solo significa menor competição por água e nutrientes. Nestes casos, pode-se plantar maior número de linhas da 2ª cultura. No extremo oposto, cafeeiros velhos ou adensados na linha, em que as pontas dos ramos quase se tocam no meio da rua, não devem receber nenhum cultivo intercalar.
Carga pendente
A carga pendente deve ser considerada na medida que cafeeiros mais carregados são mais sensíveis à competição. Em cafeeiros muito carregados e com pouca área livre na entrelinha não é recomendável o cultivo da cultura intercalar.
Alteração da radiação solar incidente
É muito comum ver a campo plantas novas de café sentidas, com escaldadura, após a retirada do milho intercalar. Isto porque seu aparato fotossintético, depois de meses de exposição à luz "filtrada", não suporta a súbita exposição ao sol pleno. Para se evitar este efeito convém realizar adubação nitrogenada nas mudas de café 10 a 15 dias antes da colheita do milho e, preferencialmente, retirar paulatinamente o milho. Pode-se colher as espigas e deixar a palhada se desfazendo aos poucos.
Observados estes cuidados, a cultura intercalar pode ser interessante aliada na diluição dos custos de formação ou reforma do cafezal.
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Material escrito por:
Guilherme Rosa
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ORIZÂNIA - MINAS GERAIS - ESTUDANTE
EM 23/01/2023

VITÓRIA DA CONQUISTA - BAHIA - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 20/06/2016

EM 03/03/2016

CABO VERDE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
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SÃO MATEUS - ESPÍRITO SANTO - ESTUDANTE
EM 04/09/2012
SÃO SEBASTIÃO DO PARAÍSO - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 24/09/2008
Obrigado pelas suas informações, que complementam de forma muito oportuna meu artigo. Sem dúvida, o grande problema do consórcio milho-café, desde que observada a distância mínima entre as culturas, não é PÓLEN DE MAIS, mas ADUBO DE MENOS!
Cordiais saudações.
LAVRAS - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 21/09/2008
Após ler este bom artigo sobre cultivo intercalar, creio que posso contribuir um pouco com meus 22 anos trabalhando com a cultura do café, seja como pesquisador ou como consultor técnico. Devemos ter em mente o seguinte conceito: para a cultura principal, a adubação de solo e foliar não devem ser alteradas, sempre seguindo suas necessidades de acordo com as análises de solo e folhas. Para a cultura intercalar, devemos utilizar adubações e espaçamentos corretos, indicados pelas pesquisas, para cada cultura a ser plantada.
Com relação ao plantio de milho, há muitos anos indico o seu cultivo, e nunca ocorreu amarelecimento dos pés de café com o pólen. O que pode estar acontecendo é que, nesta fase da cultura, a necessidade de nutrientes é mais alta e pode não ter havido uma adubação de cobertura com nitrogênio suficiente para sua nutrição. Por isso, o milho fui buscar o alimento do pé de café, ocasionando uma competição por nitrogênio e enxofre. Consequência: pé de café amarelado. Não tem nada a ver com o pólen.
Atenciosamente,

RESPLENDOR - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 15/08/2008

MARINGÁ - TOCANTINS
EM 31/05/2008
Vale a pena lembrar que, no caso de haver meloidoginose (nematóides), é vantajoso o plantio de espécies de plantas que diminuem a população da praga, como a crotalária.

CAMPO BELO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 31/03/2008
Já fui um pequeno produtor de café, há anos atrás, mas abandonei a atividade. Hoje, pretendo formar uma pequena lavoura de café, em área que há uns cinco anos estava ocupada com essa mesma cultura, restando ainda alguns troncos que insistem em brotar. Porém, pretendo utilizar este mesmo terreno com o cultivo de milho, pelo menos uma vez.
No entanto, obtive informações de pessoas ligadas à atividade cafeeira que não devo plantar o milho nesta área porque o mesmo pode prejudicar seriamente a futura lavoura de café a ser formada. Até que ponto isto é verdade e porque? Que cuidados devo tomar quanto aos restos da antiga cultura de café (pragas, doenças, etc.) em relação à nova cultura a ser formada? Muito obrigado, e parabéns pelo excelente artigo.

VITÓRIA DA CONQUISTA - BAHIA
EM 23/03/2008
SÃO SEBASTIÃO DO PARAÍSO - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 27/02/2008
Não conheço trabalhos ou ensaios a campo com esta espécie em consórcio com o café, portanto nada poderia lhe dizer a respeito de sua capacidade de competição. Entretanto, experimentos com espécies utilizadas em arborização, como grevilea, apontam que o sombreamento ótimo para café está entre 20 e 30% (de área sombreada). Acima disto há cada vez maior redução da produtividade.
Att.
Guilherme Rosa
NOVA VENÉCIA - ESPÍRITO SANTO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 27/02/2008
Aqui na região norte do ES é comum o consórcio de milho e feijão com o cafeeiro, principalmente em pequenas propriedades. Já ouvi vários produtores comentarem que o pólen do milho provoca um amarelecimento e um atraso de crescimento nas plantas de café recém plantadas. Na tentativa de evitar esses danos faz-se o corte do pendão quando o milho começa a secar.
Gostaria de saber se realmente o pólen influencia na cultura do café, ou há outros fatores que podem estar interferindo negativamente os cafeeiros jovens principalmente.
Quanto o consórcio com feijão observa-se um melhor desenvolvimento dos cafeeiros recém plantados, pelo fato de haver um número maior de irrigadas.

SANTA CRUZ DO SUL - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 24/02/2008
Ótimo e esclarecedor seu artigo. Gostaria de ir um pouco além e perguntar à você quanto à vantagem do plantio de leguminosas, como o feijão, junto com o café no que diz respeito à fixação de nitrogênio no solo e se esta dita fixação pode significar uma menor dosagem de adubos para o café. Ainda no caso do feijão, o que pode ser esperado de produção e rendimento extra para a lavoura de café.
As tendências atuais da agricultura, exigem considerar as culturas intercalares e a diversificação na atividade agrícola da propriedade como uma obrigação. Cada centímetro de terra deve ser produtivo e artigos como este servem para trazer para a realidade produtores que ainda não perceberam que só ser dono de terra não basta, temos que ser gerentes da terra.
Abraço,
Carlos

CAPITÓLIO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 22/02/2008

ITUVERAVA - SÃO PAULO - ESTUDANTE
EM 22/02/2008
VARGEM ALTA - ESPÍRITO SANTO
EM 22/02/2008
Segundo conhecimento popular, gostaria de um esclarecimento.
O pó produzido pelos pendões do milho na época em que estão secando e que são espalhados com a ação dos ventos, podem interferir de algum modo em alguma fase (folha, flor ou fruto) do cafeeiro?
Grato

PATOS DE MINAS - MINAS GERAIS - VAREJO
EM 21/02/2008