Estudo abre caminho para novos cafés adaptados ao clima

Pesquisa publicada na Scientific Reports confirma origem híbrida do grupo conhecido como libex e identifica características que podem contribuir para o desenvolvimento de materiais mais adaptados às mudanças climáticas

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Por Cristiana Couto

A busca por novas espécies de café não para. Recentemente, pesquisadores confirmaram a origem híbrida de um grupo de plantas cultivadas conhecido como libex (Coffea × libex, no jargão botânico). O libex reúne plantas oriundas do cruzamento entre Coffea dewevrei (conhecida como excelsa) e Coffea liberica – duas das 133 espécies que, atualmente, compõem o gênero Coffea.

Além de confirmar a origem híbrida desse grupo de plantas – mais de 113 materiais genéticos coletados no Sudeste Asiático, na América, na África e na Ásia – o estudo, publicado em maio no periódico Scientific Reports, buscou compreender como a combinação entre C. liberica e C. dewevrei influencia características agronômicas da planta — como o tamanho das sementes e a espessura do pergaminho — e avaliar seu potencial para programas de melhoramento genético.

Liderado pelo botânico Aaron Davis, do Royal Botanic Gardens, em Kew, no Reino Unido – reconhecido pela descoberta de várias espécies de café no mundo –, em colaboração com o SICC Labs (South India Coffee Company) e outros cientistas internacionais, o estudo também concluiu que esses híbridos reúnem características que os tornam promissores para programas de melhoramento e podem ser multiplicados por propagação vegetativa, como a clonagem, técnica já amplamente empregada nos cafés canéfora brasileiros.

Em um cenário de aquecimento global, pesquisas que se debruçam sobre espécies silvestres de café, como Coffea stenophylla, C. racemosa, C. liberica e C. eugenioides, são estratégicas para a sobrevivência da cafeicultura. “O desenvolvimento e o estabelecimento de uma gama mais ampla de espécies e de híbridos de café provavelmente vão se tornar um requisito fundamental para alcançar a sustentabilidade da cafeicultura em uma era de mudanças climáticas aceleradas”, escrevem os autores.

Embora arábica e canéfora respondam por 99,9% da produção mundial de café, em origens onde seu cultivo tende a perder viabilidade com o avanço das mudanças climáticas — como ocorre em algumas regiões da África, por exemplo —, a possibilidade de cultivar novas espécies ou híbridos torna-se uma alternativa atraente, quando não fundamental.

Isso porque desenvolver uma nova variedade de arábica ou de canéfora pode levar mais de uma década, enquanto multiplicar uma espécie ou um híbrido já existente demanda muito menos tempo. No caso dos libex, particularmente, ainda são necessários dados consistentes sobre seu parentesco, experimentos controlados para verificar como suas características são herdadas ao longo das gerações e análises genômicas adicionais (conjunto de técnicas usadas para estudar diretamente o DNA de um organismo em larga escala).

Como foi a pesquisa

Os pesquisadores compararam 7.618 pequenas variações no DNA, chamadas marcadores genéticos, distribuídas pelo genoma de 113 plantas. Esses marcadores funcionam como pontos de referência que permitem reconstruir a história genética de cada indivíduo e identificar quanto de seu DNA foi herdado de C. liberica e quanto de C. dewevrei. Os materiais analisados vieram do Sudeste Asiático, da América Central, da África e da Índia. 

As análises revelaram ainda que não existe um único tipo de híbrido. Alguns têm contribuição genética praticamente equilibrada entre as duas espécies parentais, enquanto outros carregam uma proporção maior de genes de C. liberica ou de C. dewevrei. Segundo os autores, isso indica que o libex surgiu em diferentes cruzamentos ao longo do tempo, e não em um único evento de hibridação. 

Essa combinação de diferentes proporções de DNA também se reflete nas características das plantas. De modo geral, os novos libex reúnem atributos agronômicos das duas espécies parentais, cruzam-se com facilidade e geram descendentes férteis — condições que os tornam elegíveis para programas de melhoramento genético. 

Os indivíduos com maior contribuição genética de C. dewevrei, por exemplo, têm mais flores e frutos por ramo do que C. liberica, característica que pode resultar em maior produção por planta e, potencialmente, em maior renda para os produtores. Também têm polpa e pergaminho mais finos, que podem tornar o processamento pós-colheita mais eficiente ao reduzir o tempo de secagem dos grãos. As primeiras avaliações também sugerem potencial para a produção de cafés de boa qualidade sensorial. 

Os autores também apontam que a herança genética de C. dewevrei pode contribuir para aumentar a resistência de alguns híbridos à ferrugem (Hemileia vastatrix), já que essa espécie apresenta resistência natural à doença. Essa possibilidade, porém, ainda depende de validação experimental. 

O estudo, portanto, amplia o conjunto de recursos genéticos disponíveis para a cafeicultura. Porém, é um trabalho inicial, e são necessários novos experimentos em campo para confirmar o desempenho agronômico, a estabilidade genética e a qualidade sensorial desses híbridos em diferentes condições de cultivo. 

Em um cenário de mudanças climáticas, em que cresce a busca por plantas mais adaptadas ao calor, à seca e a doenças, híbridos como o do grupo libex integram materiais com potencial para diversificar o futuro da produção mundial de café.

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Equipe CaféPoint

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