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O fim das certificações

POR ULISSES FERREIRA DE OLIVEIRA

ULISSES FERREIRA

EM 16/07/2018

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A cafeicultura brasileira passou por um boom de tecnologia, inovação, qualidade e sustentabilidade nos últimos 10 anos. Grande parte desse desenvolvimento exponencial se deve ao fato da corrida por certificações socioambientais, tais como Rainforest Alliance, UTZ, Fair Trade, Orgânico e Certifica Minas, além de protocolos de verificação como Nespresso, 4C, entre outras. Mas todo boom tem seu final de ciclo e tenho ouvido muitos especialistas decretando o fim das certificações.

É fato que no início quando a largada foi dada, já se previa que uma hora os benefícios de mercado das certificações socioambientais teria fim, em outras palavras os ágios pagos por compradores diminuiriam e como diz o ditado: “quem chegasse primeiro na fonte, beberia água limpa”.

Na cafeicultura não foi diferente e esse dia chegou, aqueles que entraram e apostaram na certificação conseguiram se destacar, abrir mercado, aplicar a sustentabilidade, aumentar a produtividade, melhorar a qualidade e implementar melhor gestão em propriedades, comunidades e associações.

Quem está no mercado muitas vezes não consegue observar o salto dado na ultima década da cafeicultura brasileira, avanços importantes foram conquistados e certamente as certificações socioambientais têm uma parcela importante nisso.

Mas o atual cenário faz com que as certificações não sejam atraentes para o mercado, mesmo tendo seus custos reduzidos, cada vez mais profissionais capacitados no mercado, mesmo e campos para crescer (ainda há muito café sendo produzido sem os necessários cuidados socioambientais).

Nem produtores, nem exportadores estão querendo ampliar áreas certificadas, uma vez que o mercado não mais remunera com diferenciais o café certificado. Certificar se tornou um ônus para o produtor e um bônus para a indústria, afinal o custo de se produzir respeitando todos os modernos conceitos de sustentabilidade, boa gestão e qualidade ficam com o produtor, é como se ele fosse obrigado a carregar nas costas todo o custo da sustentabilidade da cadeia produtiva do café, exportadores, importadores e principalmente a indústria não compartilham desse custo e apenas operam na bolsa garantindo que estão comprando cafés de forma responsável, mas quem é realmente responsável é o cafeicultor.

E para muitos especialistas esta é uma tendência, a nova revolução da cafeicultura, mais do que valorizar a certificação – valorizar a origem.

Recentemente vi uma postagem de um dos maiores especialistas brasileiros em cafés especiais afirmando ter comprado um café diretamente de um produtor e que isso era comércio justo, ou seja, jogou fora os princípios do movimento Fair Trade e tudo o que envolve e disse que o fato de adquirir um café diretamente do produtor é uma forma de comércio justo.

Muitas empresas nacionais e estrangeiras estão na mesma linha, criando seus próprios protocolos de sustentabilidade e deixando sistemas verificáveis de certificação. Alegam, com certa razão, os altos custos e a burocracia das certificadoras, que passaram a onerar muito a cadeia produtiva para manter estruturas cada vez maiores. Grandes companhias estão se empenhando em criar seus próprios protocolos e formas de promover a sustentabilidade, ainda não se sabe o impacto desses sistemas no campo e principalmente se estes protocolos serão capazes de promover as mesmas transformações conquistadas pelas certificações, o fato é que naturalmente o mercado está mudando.

É possível ver casos crescentes de multinacionais operando no Brasil e pagando um “prêmio”, similar ao fair Trade ou investindo em comunidades onde estão localizados seus fornecedores. Até ai tudo bem, mas já observei que essa prática não garante nem que o recurso foi aplicado de forma correta, muito menos que é sustentável.

Como especialista em cafeicultura sustentável, sei que as mudanças são inevitáveis, minha preocupação é fazer com que elas sejam para melhor. Neste sentido alerto àqueles que são maioria na cadeia produtiva do café, ou seja, produtores e consumidores, estes devem estar atentos às transformações, afinal, quem poderá garantir que um programa de uma grande torrefação é justa para o produtor? Quem é capaz de garantir que ao comprar diretamente de um produtor você está praticando um comércio justo? Quem é capaz de garantir que práticas ilegais no mercado como trabalho escravo, degradação ambiental e uso descontrolado de ingredientes tóxicos não estarão presente nesses programas?

No caso do Fair Trade, tema de nossa coluna, vejo que há ainda mais perguntas, no Brasil existem centenas de milhares de famílias de cafeicultores que produzem apenas o suficiente para manter suas necessidades básicas, há milhares que precisam de apoio governamental, porque o que produzem não é o suficiente. Na prática ainda existem diversos cafeicultores que não têm condições de estar em programas de sustentabilidade, que não conseguem melhorar a gestão de suas propriedades, nem aumentar suas produtividades e muito menos acessar diretamente clientes que paguem um preço “justo” por comprarem seus cafés com origem.

Sempre defendi que devemos ampliar o número de associações e cooperativas certificadas Fair Trade e possibilitar que mais famílias de cafeicultores tenham a possibilidade de se desenvolver dentro do movimento Fair Trade, porém cada vez mais vejo as dificuldades dessa opção, pois o mercado tem comprado cada vez menos café Fair Trade no Brasil. E essas mudanças estão impactando diretamente no pequeno produtor.

Não tenho as soluções para esses questionamentos, talvez passem por um repensar nos critérios Fair Trade, talvez seja importante os consumidores serem ativos e cobrar em seus países o maior comprometimento de torrefações com o principio do comercio justo, mas vejo a necessidade de colocá-las em evidência, é importante o mercado consumidor saber que há um mar de dúvidas nas práticas das torrefações e aquele que produz pode, mais uma vez, pode ser prejudicado.

**Por Ulisses Ferreira de Oliveira - Administrador, Especialista em Cafeicultura Sustentável

ULISSES FERREIRA DE OLIVEIRA

Administrador, especialista em cafeicultura sustentável, Diretor do Departamento de Desenvolvimento e Meio Ambiente da Prefeitura Municipal de Botelhos e consultor de associações e certificações agrícolas.

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JARBAS CLETO LOPES

POUSO ALEGRE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 24/09/2018

Concordo. O produtor arca com todas as taxas e o mercado não vem remunerado os cafés certificados.
VITOR FRANCISCO DE DEUS

PATROCÍNIO - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 12/09/2018

A Certificação é um grande ganho ao Produtor, Propriedade e Funcionários! Para o produtor um ganho em dinheiro, para a propriedade valorização da mesma e diminuição de processos ambientais para funcionário obrigações das leis trabalhistas cumpridas.

Infelizmente as Propriedades Cafeeiras só estão de acordo com os protocolos de certificações nos dias da auditoria. Isso é um grande fato.

Quando trabalhava com certificação a minha luta diaria era justamente manter o processo e estar apto a qualquer dia do ano para receber uma auditoria.

Sempre realizava visitas em propriedades certificadas na intenção de conhecer os processos utilizados e troca de experiência e nessas visitas via irregularidaes que jamais seriam aceitas em uma auditoria.

Um produtor jamais deveria receber um selo e bônus por cumprir um protocolo de certificação.
O Protocolo é a legislação do país que devem ser cumpridas.
O produtor não faz mais que a obrigação cumprindo a lei!
ULISSES FERREIRA DE OLIVEIRA

POÇOS DE CALDAS - MINAS GERAIS

EM 12/09/2018

Vitor, bom trabalho com certificações, não só Fair Trade, mas também UTZ, Rainforest, meu ponto de vista é diferente! Produtores mudaram sim a gestão de suas propriedades. Produtores sérios, responsáveis e que recebem boas orientações, buscam sim seguir os protocolos de certificação. Em casos de falta de comprometimento de produtores com as normas a sugestão é de que o profissional consultor indique a descontinuidade da certificação, até porque é nosso nome que está em jogo. E para o consultor isso é o que há de mais importante.

Quanto a questão do ágil pela certificação, discordo, acredito que a industria deve sim pagar um valor adicional a quem pratica a sustentabilidade no campo, pois não seria justo remunerar da mesma forma um produtor que cumpre os protocolos e tem seus custos adicionais ao fazer as coisas certas, que um produtor que não respeita os direitos trabalhistas, a saúde e segurança de funcionários, as questões ambientais, etc...Trata-se no meu ponto de vista do princípio da isonomia, tratar as desigualdade de forma desigual, ou seja, valorizar aquele que anda correto.

No caso do Fair Trade devendo em meus outros artigos que não se trata de uma certificação, com um protocolo de boas práticas, trata-se de um movimento, no qual consumidores do mundo todo dispostos a valorizar comunidades de agricultores familiares e incentivar a sua busca pela sustentabilidade e melhoria da qualidade de vida, resolve pagar um valor justo pelo café com essas características, nesse sentido a opção é do consumidor!!! Há aqueles que se preocupam e outros que não!

No artigo chamo a atenção para empresas que usam essas estratégias para se aproximar do cliente, mas que na prática o retorno a seus fornecedores é inexistente ou no mínimo questionável!
REINALDO BORTONE

PERDÕES - MINAS GERAIS

EM 18/07/2018

Ainda bem que o CMC para o agricultor familiar tem custo zero ou você não sabia disso?
ULISSES FERREIRA DE OLIVEIRA

POÇOS DE CALDAS - MINAS GERAIS

EM 25/07/2018

Reinaldo, boa tarde!!! Obrigado pelo seu comentário, realmente é muito pertinente. Sim conheço muito o Programa Certifica Minas Café, do governo de Minas Gerais, uma iniciativa muito importante e que realmente é sem custo para a agricultura familiar. Tenho indicado bastante este programa.

Com relação ao custo, você diz que não tem custo. Realmente não tem custo a certificação, porém há os custos de adequação e com o passar dos anos esses custos são expressivos. Caímos na mesma visão do artigo, o custo da sustentabilidade recai apenas nos produtores.

Outro ponto do CMC que ainda não é bem articulado é a questão da certificação individual, quem lê meus artigos no portal sabe que sou um defensor do Fair Trade e um dos principais motivos é minha crença de que a sustentabilidade da cafeicultura familiar está na organização das pequenas propriedades em associações. E que para que essas associações se mantenham o prêmio Fair Trade é uma melhores ferramentes que conheço para tornar possível a sustentabilidade de comunidades da cafeicultura familiar. O CMC não trata em seu protocolo essa questão. Algo que poderia ser reavaliado.

Um abraço e mais uma vez obrigado pelo comentário.