Enquanto as perdas na Colômbia afetaram o mercado para o arábica lavado de qualidade, as da América Central afetaram o mercado de cafés especiais e as perdas do México e Peru afetaram o mercado de orgânicos. Já as perdas no Brasil foram de longe as maiores em uma única safra, com impacto não apenas no mercado dos cafés naturais como também no fornecimento de lavados e de cereja descascados.
E embora os volumes estocados localmente tenham compensado a quebra na produção – o país apresentou uma exportação recorde em 2014 e ocupou o espaço deixado pelas quebras de safra de arábicas dos outros países – o quadro pode ser muito diferente em 2015, cuja safra indica os mesmos números de 2014 em um cenário de estoques esgotados.
O gráfico abaixo, com a média móvel de 4 anos da produção brasileira desde 2011, demonstra que uma safra 2015 semelhante a 2014 marcará a interrupção de um padrão médio de crescimento de produção total e de arábica, em particular, em mais de uma década. A inflexão representa a perda em relação à média móvel de quatro anos, contemplando os anos de 2014 e 2015 com redução de aproximadamente 2 a 3 milhões de sacas anuais, o que obviamente é inferior à quebra anual de fato, esta próxima a 5 milhões de sacas.
Teorias que explicam a seca de 2014 variam desde um fenômeno atípico isolado ou uma ocorrência cíclica a cada 40 anos aproximadamente a uma série de secas sucessíveis com perda de intensidade ao longo de um período de 3 a 5 anos. O comportamento do clima em janeiro último indica que muito além de um fenômeno isolado anual, o cenário atual poderia enquadrar-se nesteúltimopadrão descrito acima. Talvez ainda seja cedo para esta afirmação, mas existem bons motivos para esta hipótese. Como os produtores brasileiros de arábica irão reagir se as perdas causadas pela seca persistirem em 2015 e a probabilidade de recorrência em 2016 aumentar?
A resposta imediata seria a irrigação, que no entanto enfrenta barreiras crescentes tais como: disponibilidade de água, custos de outorga e necessidade de adaptação do manejo, além dos custos de implantação e operação destes sistemas. Isso sem contar que mesmo em áreas irrigadas, o café sofreu em 2014 com as altas temperaturas. Seria o caso da tendência em direção ao gotejamento ser revista em favor da aspersão, caso comprovado o benefício colateral de atenuante de calor nas áreas de café irrigado?
A prática de sombreamento em áreas já implantadas contribui para a manutenção da umidade e redução da temperatura, porém com impactos negativos naprodutividade e na possibilidade de mecanização da colheita. A qualidade do produto no entanto deve beneficiar-se deste sistema, uma vez que a prática induz um período de maturação mais longo, que apresenta uma correlação positiva com atributos desejáveis da bebida.
O uso de variedades resistentes a períodos prolongados de estiagem e altas temperaturas são soluções de longo prazo que não deveriam ser descartadas, considerando as indicações atuais de aquecimento global. Provavelmente seja ainda muito cedo para considerar a migração das lavouras em direção ao sul do país; o alto custo e dificuldade desta opção seria um último recurso após todas outras possibilidades se esgotarem.
Uma vez que, com exceção da irrigação, todas as soluções são de médio e longo prazo e períodos de estiagem devem fazer parte da realidade das principais áreas de produção do Brasil, encerro este artigo com as seguintes questões; primeiro, quais origens irão tomar o espaço do Brasil no mercado global, já que se trata de uma oportunidade aberta aos nossos competidorese, segundo, como o governo brasileiro e o setor privado reagirão a este desafio: política setorial, financiamento, pesquisa, transferência de tecnologia, seguros, etc?
