Se o mercado de café está preocupado com a sustentabilidade da cadeia e, se a maioria dos produtores brasileiros é de pequenos cafeicultores, a pergunta que se faz é: o pequeno produtor é sustentável nos médio e longo prazos? Se por um lado existe uma tendência natural do tamanho médio das propriedades caírem em virtude do “efeito-herança”, por outro lado não só o custo de vida cresce com o tempo, mas as aspirações dos produtores rurais também crescem como um resultado natural do desenvolvimento econômico. Para piorar as coisas, há uma tendência de queda real de preços das commodities no longo prazo como resultado de avanços tecnológicos e outros fatores. Em suma, não é um cenário promissor ao pequeno cafeicultor!
Talvez forças de mercado ou ações do governo cuidem do problema e provoquem grandes fluxos migratórios do campo para as cidades e seus efeitos consequentes como a urbanização descontrolada (favelas, desequilíbrios sociais etc). Algo que já aconteceu em alguns países e está em curso em outros. Pela diminuição no total de produtores, este processo pode levar a um aumento relativo do cultivo sustentável. Mas isso significará um mundo mais sustentável?
As deseconomias de escala presentes na produção agrícola de pequeno porte são enormes, especialmente no acesso a tecnologia, um assunto que nós da P&A dominamos no que tange ao processamento do café pós-colheita. O investimento em máquinas de um benefício úmido somente dobra quando a capacidade do benefício é quadruplicada. Um secador de café grande custa somente o dobro de um equipamento menor com um décimo de sua capacidade. Algo similar acontece com outros tipos de máquinas e implementos, por exemplo: tratores, pulverizadores e equipamentos de irrigação. Tentativas de desenvolvimento de equipamentos para produtores de pequeno porte geralmente são bem sucedidas na parte técnica, mas falham na parte do custo. As dificuldades desta falta de escala são somadas à falta de acesso ao crédito para produtores pequenos adquirirem estes equipamentos e insumos.
A questão do crédito evidencia outro problema que afeta os pequenos cafeicultores: a falta de poder de barganha não só para comprar equipamentos e insumos, mas também na venda de seus cafés. Não é necessário um doutorado em economia para saber que, na média, um cafeicultor de pequeno porte compra seus insumos mais caro e vende seu café por menos que seus pares de médio e grande porte. Do mesmo modo que os produtos em uma venda de bairro geralmente são mais caros que os mesmos produtos em grandes redes de varejo.
Ao cafeicultor de pequeno porte só resta como vantagem competitiva seu próprio baixo custo de mão de obra, mesmo que ele geralmente seja forçado a “consumir” suas restritas economias ou seu capital limitado. A verdade é que esta mão de obra não é de baixo custo, mas acaba sendo “vendida” ou contabilizada (ou não) em um nível abaixo do mercado. Sem exageros, as perspectivas parecem amplamente desfavoráveis para o pequeno produtor que depende exclusivamente da cultura agrícola para viver. Existe alguma saída?
Foto: Guilherme Gomes/ Café Editora
A receita pode ser mais simples do que se possa imaginar. Ao invés de se fazer a tecnologia se adaptar para a cafeicultura de pequeno porte e de se subsidiar crédito para o segmento, o foco deveria ser em unir os cafeicultores em grupo para se beneficiarem das economias de escala na tecnologia de processamento e para ganharem poder de barganha nas compras e vendas do grupo. Compartilhamento de equipamento, unidades de benefício comunitárias, compras em grupo, grupos de certificação e comercialização conjunta do café são alguns caminhos que deveriam ser trilhados. Obviamente isto é mais fácil de ser dito do que feito, mas estamos nos esforçando o suficiente?
Cooperativas existem há mais de 100 anos e associações de produtores não são tão novas também, mas seu uso e adesão não estão tão disseminados como desejado. Talvez estas formas tradicionais de associação devessem ser revitalizadas e formas inovadoras de associação devessem ser desenvolvidas para atender as necessidades dos pequenos produtores e dar-lhes maior poder de barganha. Caso contrário, estes produtores tendem a desaparecer no longo prazo. As verdadeiras barreiras parecem ser mais comportamentais e sociológicas do que tecnológicas e elas, portanto, devem ser tratadas como tais. Este é o desafio para os governos, agências de desenvolvimento e companhias preocupadas com a situação do pequeno cafeicultor.
