Durante um passeio pelo Rio de Contas, um dos principais rios da Bahia, um grupo de turistas se espantou ao ver um senhor sair de casa, à beira d’água, e se aproximar deles em um pequeno barco.
Com cerca de 620 km de extensão, o rio de Contas nasce na Chapada Diamantina e deságua no litoral de Itacaré, cortando parte do sul baiano. Foi ali que William Graça Filho surgiu com um saco nas mãos. “Queria dar esse cacau a vocês”, disse, ao retirar um fruto amarelo da variedade catongo, colhido em sua propriedade de 3,5 hectares. “Eu planto e faço chocolate”, completou.
A atitude do produtor – dono da marca Seo Cacau – atiçou a curiosidade dos turistas, em sua maioria paulistanos, a bordo do barco Cioba, uma das experiências oferecidas pelo Barracuda Hotel & Villas, que logo quiseram conhecer as delícias da pequena produção.
Os cerca de 750 mil visitantes que buscam Itacaré a cada ano vão atrás das mais de 20 praias – muitas delas redutos do surfe –, das 12 cachoeiras e do ecoturismo em plena Mata Atlântica preservada. O cacau, porém, está longe de ser coadjuvante: cultivado no sistema cabruca, que mantém a floresta em pé, o fruto também se consolidou como um ativo cultural da cidade.
Basta uma caminhada pela rua Pituba, no centro, para encontrar empórios e delicatessens, como a Cacao e a Delícias do Nordeste, que comercializam não apenas chocolates locais – muitos deles premiados internacionalmente e que raramente saem do Nordeste –, mas também outros derivados do cacau, como melaço, geleia, nibs e mel.
No mesmo percurso, é comum ver jovens brasileiros, europeus e argentinos – em sua maioria – espalhados por mesas de bares, bebendo “cacaurinha” servida diretamente no fruto; ambulantes vendendo cacau e outras frutas típicas em carrinhos; e até cacaueiros no meio da rua. “O turista não vem mais só para se sentar na barraca de praia e ficar apreciando; ele também quer ter envolvimento com a cultura local. E Itacaré respira cacau”, comenta Patrícia Veras Soares, secretária municipal de turismo.
Quem faz essa ponte é o turismo rural e de base comunitária, que têm aproximado os visitantes da realidade cacaueira. “Nos últimos cinco anos, temos divulgado Itacaré como destino completo, com praias, ecoturismo e vivência nas fazendas de cacau”, explica Patrícia sobre a cidade, que tem 95% de seu PIB oriundo do turismo.
Os 5% restantes vêm do cacau, a partir do trabalho de 3,5 mil produtores rurais. “A vassoura-de-bruxa destruiu as famílias que dependiam das fazendas de cacau nos anos 1990, por isso o turismo veio como alternativa. Mas agora o cacau está retomando espaço e relevância, principalmente com a ascensão do cacau fino”, completa.
A Seo Cacau, por exemplo, acaba de en- trar na lista de fazendas que proporcionam experiências aos visitantes. No bairro de Vila Marambaia, Graça Filho e sua esposa, Marcia Poeta Graça, montaram uma pequena fábrica, com inauguração prevista para o fim de março. “Vou servir café e bolo, em espaço para mostrar o processo de produção do chocolate”, revela o produtor.
Empresário do ramo de restaurantes em Campinas (SP), Graça Filho passeava em Itacaré e se apaixonou pelo universo do cacau depois de comprar a propriedade no Rio de Contas, há cinco anos. Hoje em dia, ele faz parcerias com produtores do entorno. “Estamos com seis produtores ribeirinhos, de quem eu compro as amêndoas e pago até 80% do valor de commodity. Minha ideia não é ser um grande produtor, mas fomentar e capacitar os pequenos, que precisam de suporte”, explica.
Mesmo distante 40 quilômetros do centro de Itacaré, o que exige duas horas de percurso, a Fazenda Bonança, no distrito de Taboquinhas, atrai entusiastas de chocolate que querem conhecer o “bê-á-bá” do plantio do cacau. “Até recebo pedidos de estrangeiros que querem trabalhar de graça na fazenda, para fazer estágio, mas ainda não tenho estrutura para recebê-los”, conta Rogério Kamei, proprietário da fazenda e da premiada marca Mestiço Chocolates, ao lado da esposa, Cláudia Gamba.
Considerada de médio porte, com 230 hectares – 147 deles ocupados com plantio de cacau –, a Fazenda Bonança tem uma vila com escola primária e berçário para atender às 17 famílias que por lá trabalham.
Por mais que não tenha intenção de fomentar o lado “turístico”, Kamei não hesita em receber visitantes que buscam conhecimento e monta um roteiro básico para mostrar a plantação, a secagem e a fermentação das amêndoas. “Abrimos vários cacaus, cada um de uma variedade, para provarem a polpa e entenderem como os sabores são distintos. Quando se vê essa diferença, fica mais fácil de explicar todo o trabalho que temos com os chocolates varietais”, conta.
Processo de secagem das amêndoas, disponível aos visitantes da Fazenda Bonança
Além de enaltecer a qualidade do cacau da região, o turismo cultural envolve contar a história por trás do cultivo, que foi o grande motor econômico do Sul da Bahia antes da chegada da praga vassoura-de-bruxa. A Vila Rosa Cacau e Cultura, também em Taboquinhas, faz bem esse papel ao preservar o casarão colonial de 1920, com piscinas de pedra natural e jardins decorativos, abertos à visitação.
Durante o passeio, o turista conhece as instalações e todo o processo de produção de chocolate: ele visita o berçário das mudas, os antigos equipamentos para armazenamento das amêndoas, o terraço para secagem, o pomar com cacaueiros – espalhados em cerca de 4 hectares –, a pequena fábrica de produção do chocolate, e termina o passeio com degustação de versões ao leite, meio amargo e branco, além de mel de cacau puro e bebida alcoólica (para adultos).
“Minha intenção inicial era fazer um projeto para recuperar o casarão e os jardins”, diz o norte-americano Alan Slesinger, que conheceu Itacaré ao surfar nas suas praias e adquiriu a propriedade em 2004. Três anos depois de abrir a Vila Rosa para visitação, em 2011, Slesinger decidiu investir no turismo do cacau. “Não queremos fazer o melhor chocolate do mundo. Oferecemos uma experiência do chocolate de terroir”, diz o empresário, que em janeiro deste ano recebeu cerca de 700 visitantes.
A Vila Rosa é um dos destinos mais recomendados por hotéis de luxo de Itacaré. O Barracuda Hotel & Villas, por exemplo, oferece aos hóspedes um pacote que inclui traslado, visita completa à fazenda e almoço em restaurante no entorno. “O cacau é parte essencial da história e da identidade cultural de Itacaré e da região. Nossa missão é conectar os hóspedes à cultura, às tradições e ao modo de vida local, e o cacau é um dos fios condutores dessa narrativa”, explica Juliana Ghiotto, CEO do Barracuda Group.
Outra fazenda que integra o roteiro de visitas é a Taboquinhas, cujo passeio é conduzido pelos proprietários Laura Brito e Osvaldo de Brito, reconhecidos por práticas regenerativas pautadas na permacultura. “A fazenda integra o programa social Guardiões do Clima, executado pelo Instituto Yandê Itacaré, organização sem fins lucrativos fundada pelo Barracuda e dedicada ao desenvolvimento socioambiental da região”, conta Juliana.
Dentro das fronteiras do hotel, construído no alto do costão rochoso da praia do Resende e a poucos metros do centro de Itacaré, o contato com o fruto começa na chegada dos hóspedes, que são recebidos com um coquetel de boas-vindas feito de mel de cacau e raspas de limão.
Nas suítes, há chocolate artesanal 50% e 70% como cortesia. E nos restaurantes, coquetéis, como a caipirinha com mel de cacau, e pratos, como o ceviche de cacau com manga verde, que apresentam sabores muitas vezes desconhecidos dos visitantes estrangeiros – a maioria deles, da Europa e dos Estados Unidos. “Observamos um crescimento na procura pela vivência na roça de cacau, que revela um perfil de viajante mais consciente, interessado na origem dos alimentos, em práticas sustentáveis e em experiências com propósito. São hóspedes que querem estabelecer conexões reais com o território e contribuir positivamente com as comunidades locais”, diz Juliana.
Já o Txai Resort Itacaré, que completa 25 anos e fica na praia de Itacarezinho, além de oferecer passeios à Fazenda Vila Rosa e à Fazenda Santa Ana (na beira do Rio de Contas, em Taboquinhas), leva a experiência com o cacau da gastronomia ao bem-estar: camarão grelhado com mel de cacau e o drinque cacau spritz (espumante, mel de cacau, limão e capim-limão) são servidos no restaurante, enquanto o spa oferece tratamento estético de esfoliação com nibs de cacau.
Prato de pescado com nibs, do Txai Resort
Para a Páscoa, o hotel preparou um programa imersivo, com aulas comandadas por um mestre chocolatier, degustação de chocolate harmonizada com café e vinho e oficinas infantis. A questão socioambiental também é um dos pilares do Txai Resort Itacaré, encravado em área de proteção ambiental na Costa do Cacau. No Instituto Companheiros do Txai, criado em 2013, há um trabalho voltado aos pequenos agricultores da região, com foco em práticas agrícolas sustentáveis, que já auxiliou mais de 150 famílias. “Incentivamos a produção orgânica para a venda revertida para o próprio Txai e o excedente em feiras livres, para que os produtores consigam se emancipar financeiramente”, explica Bruna Dib, diretora-executiva do hotel.
O estímulo ao potencial cultural e socioeconômico do cacau por meio do turismo é visto com bons olhos por todos os itacareenses que participam da cadeia do fruto. “Já fizemos no ano passado um festival gastronômico aberto ao público com o tema chocolate e cacau, com participação de restaurantes da região e chefs convidados”, diz Patrícia Veras Soares. “Queremos agora montar a rota Caminhos do Cacau, que vai envolver a história do cacau integrada à natureza, com visitas a casarões e suas relíquias, e a cachoeiras”, promete. “É uma alternativa para os cacauicultores, que ainda não recebem turistas, enxergar esse lado de experiência como uma oportunidade”.
FAZENDA SANTA ANA
(73) 3613-4908 | @fazendasantaanaitacare
FAZENDA TABOQUINHAS
(73) 99949-1478 | @fazendataboquinhas
SEO CACAU
(19) 99939-8234 | @seo.cacau
SÍTIO ATIVA
(73) 99966-4373
VILA ROSA CACAU E CULTURA
(73) 99911-1930 | @vilarosachocolates
FAZENDA BONANÇA
(11) 943434648
Texto originalmente publicado na edição #91 (março, abril e maio de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.