As diferenças entre El Niño e La Niña, com foco no nordeste

Há um equívoco ao chegar à conclusão de que anos de La Niña favorecem a chuva no nordeste. Como a La Niña é um fenômeno contrário do El Niño e em anos de Niño falta chuva no nordeste, muitos acreditam que a Niña provoca chuvas na região. Isto vale para algumas áreas do nordeste, mas não para todas.

Publicado em: - 4 minutos de leitura

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Há um equívoco ao chegar à conclusão de que anos de La Niña favorecem a chuva no nordeste. Como a La Niña é um fenômeno contrário do El Niño e em anos de Niño falta chuva no nordeste, muitos acreditam que a Niña provoca chuvas na região. Isto vale para algumas áreas do nordeste, mas não para todas.

O Niño trata-se de um fenômeno que começa no Oceano Pacífico, na altura da linha do Equador. As águas começam a esquentar e, por conseqüência, evaporar mais. Este vapor é transformado em energia na atmosfera. E esta energia extra muda a direção e a intensidade dos ventos em todo o globo.

No Brasil, o Niño intensifica um vento conhecido como corrente de jato que é o responsável pela propagação das frentes frias pela América do Sul. Estes ventos mais fortes estacionam as frentes frias sobre a região sul, que passa por um período prolongado de chuvas.

Já o sudeste, centro-oeste e nordeste passam por períodos de transição (primavera e outono) mais secos. O verão do Brasil não é influenciado pelo Niño, a não ser a região sul. Ou seja, tendo Niño ou período neutro, as chuvas acabam acontecendo. Já no sul, chove um pouco mais que o normal, o que favorece a soja e o milho, mas compromete o arroz.

Então, perguntam-me: se chove no nordeste no verão por que a região passa por um período de seca severa em anos de El Niño. Por dois motivos: as chuvas em anos de El Niño são localizadas. E o outro motivo é o período da duração das chuvas em anos normais. Em anos neutros o interior nordeste não recebe mais que quatro meses de precipitação. Agora, imaginem se o período fica ainda mais curto. A chuva não vai dar para nada.

Dou o exemplo do Ceará, que está passando por uma seca severa neste momento. O último verão foi de El Niño, certo? Em fevereiro, em pleno Niño, choveu mais que o dobro do esperado para todo o mês na maior parte das localidades. O problema é que depois de fevereiro, parou de chover. Ao invés de chover quatro meses, choveu em apenas um. Em um mês você não cultiva nada. Daí, a quebra na safra foi enorme.

Bom falei do Niño e até desmistifiquei um pouco o fenômeno no nordeste. Vamos falar da Niña.

A La Niña começa no Oceano Pacífico, também na altura da linha do Equador. Há um resfriamento acima do normal nas águas e não há tanta evaporação como em anos normais. Ou seja, falta energia na atmosfera.

Por conseqüência, os sistemas frontais e a corrente de jato ficam mais fracos. As frentes frias não conseguem avançar pelo continente. Elas avançam fracas apenas pela costa. Estas frentes frias mais fracas apenas pela costa não conseguem se conectar com a umidade proveniente da floresta Amazônia e que é a grande responsável por chuvas em todo o Brasil. Resultado: falta de chuvas nas épocas de transição no sudeste, centro-oeste e nordeste, novamente. Ou seja, o resultado é praticamente o mesmo do Niño nos meses de outono e primavera.

É interessante perceber que faltou chuva no Brasil no outono por conta do Niño e estamos passando por falta de chuvas nesta primavera por conta da Niña!

Já no verão a situação das chuvas se normaliza em boa parte do país. Não há uma influência muito grande do fenômeno sobre as chuvas do sudeste, nordeste, centro-oeste e norte. Apenas no sul, há falta de chuva e estiagens regionalizadas que provocam grandes problemas na agricultura e nas cidades.

Vamos falar especificamente do nordeste em anos de Niña.

Há apenas uma única região do nordeste que é "beneficiada" (já explico das aspas) com chuvas em anos de Niña: o centro e norte da região, entre Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará, Piauí e Maranhão. Trata-se de uma região atingida por um sistema conhecido por Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), que provoca chuvas entre fevereiro e maio. Por que escrevi beneficiada com aspas? Porque, na verdade, a La Niña não ajuda e nem atrapalha na migração da ZCIT na direção do nordeste. O que acontece é que o Niño é que atrapalha esta migração. Então, na verdade, temos uma situação neutra de chuvas no centro e norte do nordeste em anos de La Niña.

Porque nos outros estados, especialmente no interior da Bahia, anos de Niña não significam obrigatoriamente anos bons de chuva? Porque existe uma compensação da atmosfera. Quando chove muito em um lugar, outro obrigatoriamente passa por período de tempo seco. E isto se traduz em um sistema: Vórtice Ciclônico de Altos Níveis, que o produtor conhece muito bem e se preocupa apenas de ouvir falar dele.

O Vórtice corta as chuvas no interior do nordeste, especialmente em janeiro. Dependendo da cultura, a falta de chuvas e as temperaturas elevadas pelo período de 15, 20 ou até 30 dias coloca quase tudo a perder.

E os modelos deste ano estão indicando desvios negativos significativos de precipitação para boa parte da Bahia. Não é apenas o INPE que está afirmando isto. A Somar também está falando sobre este risco. O que podemos dizer é que vai chover no nordeste, como em todos os anos. Entretanto, as chuvas poderão ser irregulares, comprometendo o desenvolvimento de algumas culturas, especialmente na Bahia.
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Material escrito por:

Celso Oliveira

Celso Oliveira

Bacharel em Meteorologia e mestre em Agronomia pela Universidade de São Paulo. Meteorologista da Somar Meteorologia desde 2001. Celso é Responsável pela parte de Meteorologia da página Clima do CaféPoint desde 2006.

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Martilio Rafael Banze
MARTILIO RAFAEL BANZE

EM 14/09/2017

Eu gostaria de saber como a ZCIT é influenciada durante o ENSO/antiENSO, principalmente no sudeste de África.

Obrigada!
Romildo Pedreira de Almeida
ROMILDO PEDREIRA DE ALMEIDA

PINTADAS - BAHIA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 19/10/2007

Gostaria de saber quando vai chover aqui em Pintadas - Bahia, visto que a última chuva por aqui foi em Fevereiro.


Romildo Pedreira
Renato H. Fernandes
RENATO H. FERNANDES

TEIXEIRA DE FREITAS - BAHIA - COMÉRCIO DE CAFÉ (B2B)

EM 18/10/2007

Caro Celso,

O extremo sul da Bahia, além de situado numa zona de transição entre dois sistemas climáticos, só é nordeste no papel. Ficamos, então, um pouco carentes de informação. Como está a previsão dos modelos para a região de Teixeira de Freitas no próximo verão? Teremos vórtices?

A título de curiosidade, a passagem das frentes frias pelo litoral tem sido tão bem definida que, nesta primavera, as chuvas na faixa de até 70km do litoral têm sido quase duas vezes maiores que as ocorridas a apenas 20km mais a oeste.

Forte abraço e sucesso a todos da Somar,

Renato Fernandes

<b>Prezado Renato Fernandes,</b>

Realmente você tem razão em afirmar que Teixeira de Freitas fica em uma região de transição. Temos alguns sistemas meteorológicos que provocam chuvas apenas no sul da Bahia, tais como frentes frias e Ondas de Leste. Estes sistemas não causam chuvas, por exemplo, no Ceará, estado em que me baseei para escrever o texto. Enquanto no Ceará chove apenas quatro meses por ano, em Teixeira de Freitas chove oito.

Aliás, estas mudanças de condições climáticas não acontecem apenas entre Teixeira de Freitas e o Ceará. É complicado definir o "clima do nordeste" apenas com poucas palavras. No caso da Bahia, Teixeira de Freitas tem um clima diferente de Barreiras, que tem um clima diferente de Salvador, que tem um clima diferente da Chapada Diamantina e por aí vai.

Por isso mesmo que eu afirmei que falar que "Niño desfavorece as chuvas
no nordeste e Niña favorece as chuvas no nordeste" não é verdade absoluta. Depende da localidade. Cada localidade é atingida por um tipo de sistema e cada sistema é influenciado de forma diferente pela Niña e pelo Niño.

Enquanto você afirma que nos últimos meses as frentes frias passaram com maior freqüência e provocaram grandes chuvas em Teixeira de Freitas, os produtores de Barreiras aguardam apreensivos pela volta das chuvas, que estão e continuarão atrasadas. Os dois fenômenos foram, estão sendo e serão gerados pela mesma La Niña.

No caso de Teixeira de Freitas e do extremo sul da Bahia, o que esperar a partir de agora?

Bom, as chuvas diminuíram desde o final de outubro. Tivemos a formação de bloqueios atmosféricos no sul e frentes frias estacionárias no sudeste, onde as chuvas se concentraram nas últimas semanas. Nos próximos dias poderemos ter chuvas, porém muito localizadas e que pouco servem à agricultura.

Por enquanto, ainda não há previsão da volta das trovoadas ao nordeste. Como escrevi, em anos de La Niña, as chuvas são mais irregulares na Bahia e em boa parte do Maranhão e Piauí. Aliás, os modelos climáticos indicam que até março, esperam-se chuvas abaixo da média em Teixeira de Freitas. Vamos falar das condições mês a mês na região:

Em novembro, esperam-se precipitações abaixo da média. Os modelos de previsão do tempo já estão indicando isto, sem chuvas significativas até o dia 11 de novembro, pelo menos.

Na primeira quinzena de dezembro, esperam-se precipitações dentro da média e uma segunda quinzena com chuvas abaixo da média. Agora, os meses de janeiro e fevereiro é que realmente preocupam. Esperam-se Vórtices Ciclônicos de Altos Níveis. E isto deixará as chuvas bastante irregulares em boa parte da Bahia, inclusive na região de Teixeira de Freitas. Esperam-se apenas volumes entre 30% e 40% do esperado para todo os dois meses. Ou seja, poderá chover menos da metade do esperado para os dois meses.

Teremos que monitorar as novas saídas do modelo de clima nos meses de novembro e dezembro e vermos se eles continuarão confirmando esta situação. Em março, as chuvas retornam, ainda não em sua totalidade, mas retornam. Espera-se um desvio negativo de 35% na região de Teixeira de Freitas no próximo mês três.

Portanto, recomendo cautela com as tomadas de decisão neste ano. Se for confirmada a previsão do modelo climático, a Bahia passará por um verão com chuvas irregulares.