Consumo doméstico de café: indicador de crise ou de oportunidades?

A busca pela substituição demonstra a importância que o café possui na rotina de seus consumidores. De fato, o consumo doméstico de cafés especiais representa também uma tendência. Atualmente, o apreciador do produto pode optar por preparar sua bebida em casa sem que, para isso, abra mão da qualidade. Veja-se o exemplo das líderes nesse segmento, que possuem linhas específicas para garantir tal comodidade aos consumidores.

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Como não poderia deixar de ser, os tempos de turbulência deixaram suas marcas no setor do café. Reportagem publicada recentemente na Folha de São Paulo - resumida aqui no Cafépoint - mostra que a atual crise econômica internacional contribuiu para o aumento do consumo de café em casa. Nesse sentido, as cafeterias nos países do Primeiro Mundo tem enfrentado um período de desaceleração nas vendas, algo que há algum tempo não acontecia.

Entretanto, não há razões para preocupação. O que tal movimento sugere é a propensão dos consumidores a evitar o consumo de serviços que explicam parcela considerável do valor gerado na cadeia do café. Entre as vozes do setor, porém, o tom é otimista. Eventuais retrações no consumo em segmentos específicos devem ser passageiras, e a desaceleração no crescimento das vendas constitui um evento natural.

Na verdade, irreais são os prognósticos de aumento desenfreado nos números do setor, como se as equações usadas para traçar as tendências do setor cafeeiro fossem concebidas sem considerar a realidade. O espaço para a expansão no consumo de café, apesar de ser considerável, não é eterno. Portanto, em algum ponto do futuro, ainda que no longo prazo, o setor terá que aprender a lidar com isso.

Ademais, a própria busca pela substituição demonstra a importância que a bebida possui na rotina de seus consumidores. De fato, o consumo doméstico de cafés especiais representa também uma tendência. Atualmente, o apreciador do produto pode optar por preparar sua bebida em casa sem que, para isso, abra mão da qualidade. Veja-se o exemplo das líderes nesse segmento, que possuem linhas específicas para garantir tal comodidade aos consumidores.

Do ponto de vista dos cafeicultores, esse movimento abre oportunidades interessantes de apropriação de valor. Em muitos países com alta renda per capita, é uma realidade a existência de sites dedicados a comercializar cafés especiais. Nesses casos, a reputação da região produtora ou da propriedade rural costumam contar mais que a marca, de modo que o cafeicultor é parte indissociável do processo de diferenciação. Por isso, quando o mau momento passar, é provável que tal tendência ganhe ainda mais força.

Além disso, a importância do consumo de café em casa tem sido central para o setor mesmo antes da crise. Em países com menor renda per capita, o consumo doméstico vem contribuindo para a expansão da demanda por café de forma determinante. Nos países do Leste Europeu, foi este o principal fator dinamizador, e o mesmo vem sendo observado na Ásia. Tal movimento, apesar de relativamente silencioso, é o que explica os consideráveis investimentos realizados na atual década para a produção de café solúvel, por exemplo.

Nesse sentido, não será apenas o consumo de cafés especiais o que garantirá a expansão do consumo do produto na Ásia. Pelo contrário, tal segmento costuma florescer onde haja dinheiro suficiente para sustentá-lo. Mais importante é lembrar que tanto a substituição das formas de consumo em tempos de crise como a expansão do consumo doméstico em países em desenvolvimento demonstram que, embora suscetível aos ciclos econômicos, o café seguirá parte integrante da rotina de um número crescente de humanos.

Por tudo isso, o consumo doméstico segue abrindo importantes oportunidades de exploração econômica. Da mesma forma, fornece indicadores interessantes do atual estágio de desenvolvimento do setor. Quando dias melhores chegarem, ter em mente esses fatos pode garantir o êxito a muitos agentes envolvidos com a cafeicultura.
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Material escrito por:

sylvia saes

sylvia saes

Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)

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Bruno Varella Miranda

Bruno Varella Miranda

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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