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Volatilidade das cotações do arábica sob pressão das maxidesvalorizações

POR CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

E FÉLIX SCHOUCHANA

CELSO VEGRO

EM 27/08/2015

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O chamado tripé macroeconômico é constituído pelas variáveis: taxa de juros, índice de inflação e cotação cambial. A condução da economia brasileira tem sido, ao longo dos últimos anos, pautada pela indução (ou tentativa de) do vetor tendencial de formação dessas variáveis, visando conferir ao ambiente de negócios confiança e previsibilidade.

Nos últimos doze meses os três fatores exibiram trajetória de elevação. A administração da taxa básica de juros (SELIC) elevando-se reiteradamente após cada reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM)1; o repique inflacionário refletindo tanto o descongelamento das tarifas de serviços públicos quanto aos efeitos decorrentes das anomalias climáticas incidentes sobre os cultivos agrícolas e pastagens e a aguda desvalorização do real frente à moeda estadunidense, sobretudo, nos últimos sete meses de 2015.

O valor de cada moeda depende do grau de produtividade dos fatores da economia em questão (terra, trabalho e capital) e das expectativas sobre seu desempenho atual e futuro, comparativamente aos seus principais parceiros e concorrentes nos mercados (nacional e internacional). Não se trata de aplicação de regra matemática, mas os ajustamentos que ocorrem ao longo do tempo (ainda que momentaneamente de natureza especulativa) são ao fim e ao cabo determinados por essas comparações.

Por sua vez, a formação dos preços das principais commodities agrícolas ocorre em praças muito bem definidas. Para o caso do café arábica a Bolsa de Nova York é o centro de encontro dos investidores interessados em comprar e vender contratos futuros desse produto, oferecendo monumental volume de liquidez para as transações que diariamente ali são celebradas2.

A relação taxa de câmbio e cotações do café é, normalmente, empregada na formulação de cenários futuros para a evolução dos preços do produto3, ainda que a correlação entre essas variáveis seja relativamente baixa em determinados períodos. Todavia, relacionando as médias mensais desses preços, percebe-se existe impacto das variações cambiais na formação das cotações do café, sendo que nos episódios de expressiva desvalorização do real (ou de valorização do dólar), ocorre declínio nas cotações (padrão boca de jacaré)4. Ademais, de um ponto de vista comercial, os exportadores ao intensificarem o ritmo de seus embarques, uma vez que receberão mais reais pelos mesmos dólares, pressionam a oferta, conduzindo as cotações em dólar para baixo. Sendo o Brasil o maior produtor e exportador mundial do café, essa pressão de venda é rapidamente captada pelos investidores posicionados na Bolsa de Nova York.


FIGURA 1 – Evoluções da taxa de cambio e da cotação do café em Nova York, agosto/2013 a julho/2015

Fonte: Elaborado pelos autores a partir de dados básicos da BM&FBOVESPA (taxa de câmbio Real/Dólar) e preço do café primeiro vencimento na Bolsa de Nova York (ICE).

A compilação dos mais relevantes ajustamentos cambiais ocorridos na economia brasileira, decorrentes tanto de conjunturas internacionais desfavoráveis quanto de eventos políticos/econômicos da economia doméstica, exibe momentos de abrupta desvalorização da moeda, sendo o mais agudo aquele proveniente do certame eleitoral que conduziu o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva ao cargo de mandatário do país (Figura 2).


FIGURA 2 – Trajetória da taxa de câmbio e eventos políticos/econômicos com repercussões sobre o valor da moeda, 1995-jun./2015
Fonte: Elaborado pelos autores a partir de dados básicos da FUNCEX.

Evidentemente que os picos de maxidesvalorização selecionados seguem critérios arbitrários. Na própria curva é possível observar a existência de picos não escolhidos para a produção dessa avaliação. De qualquer modo, os destacados constituem momentos em que algum tipo de ruptura/ajustamento estava em andamento.

Retomando a problemática da formação das cotações do café arábica, pode-se relacionar os eventos acima listados com o registro das máximas e mínimas ocorridas na Bolsa de Nova York. Excetuando-se o evento de 2003 (eleição presidencial)5, todos os demais episódios exibiram variações entre 40% e 50%, enquanto que aquele que se processa atualmente registra apenas 33,18% (Tabela 1).

TABELA 1 – Cotações máximas e mínimas dos contratos de café arábica em primeira posição, Bolsa de Nova York, 1995-2015


Fonte: Elaborada pelos autores a partir de dados básicos de: http://data.theice.com/ViewData/EndOfDay/FuturesReport.aspx

Diante do exposto, pode-se desenhar cenário em que se prevê maior intensidade para a volatilidade das cotações no último quadrimestre do ano. Informações vindas dos principais cinturões cafeeiros do país atestam que se deve esperar quebras na produtividade média (arábica e robusta). Ademais, a redução do tamanho dos grãos (peneira) e diminuição da qualidade global da bebida tem impacto relevante no rendimento café em coco para beneficiado6. Associados esses dois fatores, muito provavelmente a dimensão da safra brasileira esteja mais alinhada com os dados da Conab do que com os das consultorias privadas ou ainda com o departamento estadunidense de agricultura7.

Elaborar previsões para a evolução dos preços nos próximos meses não pertence ao campo do conhecimento científico, a menos que se tracem cenários com base em dados históricos consistentes e se mapeiem as expectativas que podem ou não se materializar. Assim sendo, a observação pregressa, ainda que precária, tendo em vista a natureza peculiar de cada evento provocador de mudança cambial, pode ser empregada na construção de cenário capaz de balizar a tomada de decisões comerciais pelos cafeicultores. Portanto, diante de um próximo quadrimestre com possível incremento da volatilidade das cotações, medida acertada é planejar a comercialização empregando as ferramentas de hedge.

1 Desde a 173a Reunião do Copom, ocorrida em 07/03/2013, a taxa básica de juros exibe tendência de alta, saltando dos 7,25% daquele momento para 14,25% atualmente vigente.
2 Na Bolsa de Nova York são negociados contratos cujo valor equivale a cerca de 10 vezes o montante obtido na comercialização da safra mundial. A inércia que esse número de negócios produz legitima essa praça enquanto referência para o preço “justo” para o café.
3 Mais detalhes ver: http://www.iea.sp.gov.br/out/trabalhos.php?codAutor=15&busca=1
4 Em situações muito determinadas (geada, seca) essa tendência geral pode não se expressar conforme se espera. Porém, os agentes de mercado são relativamente capazes de antecipar tais eventos, posicionando-se preferencialmente sobre os fundamentos enquanto parâmetro para a formação de suas expectativas e, consequentemente, dos preços.
5 A existência de aproximadamente 60 milhões de sacas nos estoques mundiais foi o fator que arrefeceu a variação nas cotações.
6 Detalhes em: http://www.cafepoint.com.br/noticias/mercado/qualidade-esta-abaixo-da-media-historica-afirma-escritorio-carvalhaes-96490n.aspx
7 Crítica compilação estatística foi conduzida por Marco Jacob. Disponível em: http://www.redepeabirus.com.br/redes/form/post?topico_id=57684

Os autores agradecem pelo trabalho de sistematização do banco de dados econômicos conduzido pelo agente de apoio à pesquisa científica e tecnológica do IEA o analista de sistemas Paulo Sérgio Caldeira Franco.


Celso Luis Rodrigues Vegro
Eng. Agr. Pesquisador Científico do IEA
celvegro@iea.sp.gov.br

Félix Schouchana
Economista, Professor e Consultor
felixsc@uol.com.br

CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

Eng. Agr., MS Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade. Pesquisador Científico VI do IEA-APTA/SAA-SP

FÉLIX SCHOUCHANA

Economista, Pós-Graduação em Economia, com especialização em Mercados Agrícolas, Diretor da BM&F de 2003 a 2008, Atualmente na Market FS Consultoria e Treinamento Ltda.

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