Considerada estratégica diante das mudanças climáticas, a irrigação ainda é uma prática relativamente recente na cafeicultura brasileira – os primeiros projetos experimentais surgiram nos anos 1960, mas a tecnologia só se difundiu três décadas depois. Hoje, seu avanço é acompanhado por sistemas mais precisos, automatizados e capazes de reduzir o consumo de água.
Os dados mais recentes indicam que 23,3% de área cafeeira no Brasil é irrigada – ou seja, 449 mil hectares num universo de 1,93 milhão de hectares, segundo o Atlas Irrigação, levantamento da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) sobre agricultura irrigada no Brasil publicado em 2021.
Entre os sistemas mais comuns estão a irrigação localizada ou por gotejamento (54%, segundo o Atlas), por aspersão (28%) e via pivô central (17%).
Mas, se no passado o investimento em irrigação tinha como principal objetivo aumentar a produção de café, hoje a prática atende a demandas adicionais. “O maior incentivo à adoção da irrigação são as incertezas climáticas”, alerta Eusímio Fraga Júnior, professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e doutor em engenharia de sistemas agrícolas. “Ela é uma ferramenta para garantir estabilidade. Outra vantagem é melhorar a qualidade e ter mais produtividade”, acrescenta o especialista, que afirma que a área irrigada de cafezais no Brasil vem crescendo. “Atualmente, deve estar próxima de 600 mil hectares”, calcula.
A irrigação também surge como questão importante nas conversas sobre compra de terras. “Quando há uma fazenda à venda, uma das primeiras perguntas do comprador é se ela tem água e qual é sua vazão”, conta Fraga Júnior. A indagação faz sentido: é preciso saber se a propriedade comporta o procedimento, já que a demanda média de café arábica por hectare, pelo sistema de gotejamento, é de 1 m³ de água por hora.
O município com o maior perímetro irrigado de café no Brasil é Monte Carmelo, no Cerrado Mineiro – o Atlas Irrigação contabilizou mais de 13,5 mil hectares na região. Para o especialista da UFU, porém, a área atual ultrapassa 17 mil hectares.
Marcelo Urtado, da Fazenda Três Meninas, é um dos produtores que investem no processo. Com 40 hectares de café, o engenheiro agrônomo tem metade da área em produção e a restante foi recém-plantada com novas variedades e novo sistema de irrigação. “A gente renovou o encanamento e os tubos gotejadores. No café adulto, o gotejador é enterrado; neste, optamos pelo gotejador na superfície. Ambos têm vantagens e desvantagens. Queremos comparar e avaliar”, explica.
Irrigação por gotejamento na Três Meninas
Jean Philippe Lemos, especialista agronômico da Netafim – empresa israelense referência em irrigação, que chegou ao Brasil em 1994 e implantou seu primeiro projeto com café dois anos depois –, explica que gotejadores sobre o solo, próximos aos pés de café, são os mais usados no país.
Já o gotejamento enterrado, explica ele, que é instalado entre 10 e 20 centímetros de profundidade, reduz perdas por evaporação, aumenta a eficiência no uso de água e de nutrientes (a chamada fertirrigação), protege os equipamentos contra danos externos e facilita o uso de maquinário na lavoura. “Porém, é necessário seguir à risca o protocolo de instalação, as manutenções e os produtos que devem ser usados”, ressalta.
Para otimizar o uso da água, a Três Meninas tem uma estação meteorológica que mede radiação, luminosidade, intensidade e direção do vento, chuva e temperatura Há, ainda, sensores de umidade no solo, que fazem o diagnóstico da quantidade de água ali presente. “Assim, consigo calcular a evapotranspiração do café, o quanto ele perde de água para a atmosfera e o quanto de água está disponível no solo, para saber exatamente o quanto devo irrigar”, explica Urtado.
Uso de água em conflito
A irrigação de precisão – que faz esse uso controlado e inteligente da água a partir de sistemas automatizados de coleta de dados – tem se tornado cada vez mais estratégica em cidades como Monte Carmelo, um exemplo da realidade do Cerrado brasileiro. Marcada por longos períodos de estiagem, a região enfrenta momentos de escassez hídrica que geram conflitos pelo uso da água – a legislação prioriza o abastecimento humano e a dessedentação animal antes da irrigação de culturas.
A situação motivou a criação da Associação dos Usuários de Águas (AUA) da Região de Monte Carmelo, que estabelece regras para o uso da água quando o manancial estiver com pouca vazão. Responsável técnico da entidade, Fernando Faria faz análises, avalia riscos, conversa com os usuários e cria regras na tentativa de evitar situações extremas, em que bombas de água são lacradas por órgãos ambientais.
As medidas podem ser regressivas, restringindo o uso da água, ou progressivas, permitindo ao produtor manter ou ampliar a irrigação. “A restrição não é por vazão, mas por tempo”, explica Faria. “Geralmente, divido os irrigantes em dois grupos: enquanto um usa a água, o outro aguarda.” Segundo ele, conforme a indisponibilidade hídrica aumenta, o rodízio é ampliado. Em alguns casos, a captação direta é suspensa e a circulação de água das barragens é intensificada para garantir a vazão mínima estabelecida.
Irrigação por pivô central
A região conta com um sistema automatizado de captação e telemetria – tecnologia de coleta e transmissão automática de dados – para monitorar, em tempo real, a situação dos corpos hídricos. É com base nessas informações que Faria define medidas em períodos de atenção. Em Monte Carmelo, há trechos onde a interrupção das captações é recorrente em tempos de seca, geralmente entre setembro e outubro. “No ano passado, interrompemos até meados de dezembro, por causa do início tardio das chuvas”, afirma.
Garantia em tempos de escassez
Medidas progressivas asseguram o uso da água em períodos críticos e consistem em aproveitar a maior disponibilidade hídrica dos rios entre novembro e janeiro por meio da construção de reservatórios – uma forma de transferir água do período chuvoso para a estação seca.
Para dimensionar essas estruturas, o produtor calcula quantos dias costuma enfrentar restrições hídricas e projeta uma reserva para atender à demanda da propriedade nesse intervalo. A implantação, porém, depende de autorização da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Entre as principais estruturas estão os reservatórios off-stream – construídos fora do leito principal dos rios –, os chamados piscinões, semelhantes a açudes, e as barragens para represamento de água.
Essas medidas ajudam na gestão hídrica da propriedade, mas pouco adiantam sem o básico: cuidar do solo, considerado o maior reservatório de água da lavoura. Marcelo Urtado conhece bem esse princípio. Sua fazenda é referência em sustentabilidade no Cerrado Mineiro, e as boas práticas agrícolas orientam o manejo. A filosofia aparece até na camiseta da propriedade, estampada com a frase: “Todo solo coberto o tempo todo”.
“O solo descompactado, coberto com plantas forrageiras, evita erosão e diminui a velocidade de escoamento da água”, ensina Urtado. “O mesmo fazem as árvores, que seguram a água nas copas. Ela escorre devagar, e infiltra no solo descompactado e abastece o lençol freático”, detalha.
A Três Meninas tem bosques na fazenda e linhas de biodiversidade com árvores e arbustos entre os cafezais. “As árvores funcionam como quebra-ventos, diminuindo sua velocidade, o que diminui a evapotranspiração [quantidade de água que o sistema solo-planta consome e devolve ao ar]. Com isso, preservo mais água no solo”, explica Urtado, que também é arborista.
Reservatório na Fazenda Três Meninas
O resultado surge em anos de secas extremas. Em 2023, a reportagem da Espresso visitou a propriedade e constatou a diferença entre ela e a fazenda vizinha. Mesmo com sol escaldante e umidade muito baixa, o cafezal da Três Meninas estava vistoso, contrastando com os pés do outro lado da cerca, com folhas murchas.
“Temos um reservatório, um ‘pulmão pequeno’, para até três dias de irrigação”, conta Urtado, que reforça que a maior função dele é qualificar a água. “Nosso principal armazenamento de água é o subsolo. Se todos fizessem isso, não precisaríamos dos reservatórios acima do solo”, diz.
A revolução da irrigação no conilon
“A irrigação é um caminho sem volta: 100% das lavouras de conilon implantadas nos últimos sete anos foram com irrigação de alta tecnologia”, diz Michel Tesch Simon, subsecretário de Estado de Desenvolvimento Rural na Secretaria de Agricultura, Aquicultura e Pesca do Espírito Santo (Seag).
Esse avanço surge na comparação entre os últimos censos agropecuários do IBGE. Em 2017, 43,3% dos estabelecimentos rurais capixabas utilizavam irrigação, e a maior parte (78,4%) adotava sistemas localizados. Já em 2006, predominavam os sistemas por aspersão, presentes em 72,3% das propriedades irrigadas do estado.
Segundo Simon, a seca de 2014/2015 – a mais severa dos últimos 50 anos no Espírito Santo – acelerou a mudança dos sistemas de irrigação no estado. Na época, o governo também simplificou o licenciamento ambiental para facilitar a regularização de barramentos. “No ano passado, lançamos uma linha de crédito para financiar barragens de reservação hídrica e estimular a irrigação localizada em pequenas e médias propriedades, com juros de 4% ao ano para agricultura familiar e 6% para a não familiar”, afirma o subsecretário. “As linhas usam recursos do Tesouro do Estado, têm três anos de carência, cinco para pagamento e integram o Programa de Mudanças Climáticas”, detalha.
Embora esteja entre as regiões com maior uso de irrigação do país, o Espírito Santo, assim como o Sul da Bahia, tem desafios a superar. “A média dos projetos é ruim porque parte dos produtores é mal-informada e pouco exigente, o que resulta em projetos malconcebidos”, afirma Elídio Torezani, engenheiro agrônomo e diretor da Hydra Irrigações. Segundo ele, esse cenário vem mudando rapidamente com a sucessão familiar. “O jovem volta ao campo mais informado, questiona, pesquisa e exige tecnologias melhores.”
Jean Rodrigo Romagna representa essa transformação. Filho de capixabas que migraram para o Sul da Bahia, ele administra a Renovo Agricultura, com 512 hectares de café entre Guaratinga e Itamaraju (BA). O processo de implantação da irrigação começou em 2010; três anos depois veio o primeiro plantio irrigado. “Em anos de seca, nossa produção caiu drasticamente, e buscamos estabilizar a média da produtividade”, explica. O resultado foi expressivo: a média saltou de 42 para cerca de 90 sacas por hectare, alcançando picos de 170 sacas em lavouras jovens.
“A irrigação é essencial e atua como seguro em anos de chuvas menos efetivas”, reforça Lemos, da Netafim. Romagna adotou o gotejamento, sistema mais adequado aos solos da região (arenoso na superfície e argiloso em profundidade), com baixa retenção de água. O manejo exige irrigações curtas, de uma a três vezes por dia, dependendo das condições ambientais.
Para definir quanto e quando irrigar, Romagna utiliza estação meteorológica, tensiômetros (que geram dados a cada 15 minutos, indicando o esforço que a planta faz para absorver a água da terra) e monitoramento em tempo real do solo por aplicativo em celular.
Gotejamento substerrâneo da Netafim
A tecnologia também permite utilizar o sistema para nutrir o solo – a chamada fertirrigação. O produtor faz análises foliares mensais para ajustar nutrientes à produtividade, com auxílio de ferramentas – extratores de solução – que monitoram a condutividade elétrica (CE) do solo. A CE indica a quantidade exata de fertilizantes dissolvidos na água à disposição das raízes, já que quanto maior a condução de eletricidade, maior a concentração de adubo presente. “Em algumas áreas, a economia de fertilizantes chegou a 35%”, comemora.
Embora muitos produtores ainda vejam a gestão hídrica como um investimento dispensável, o exemplo de Romagna mostra que um manejo bem planejado permite produzir mais usando menos recursos. Além disso, ter os dados na palma da mão possibilita calcular a pegada hídrica – a quantidade de água consumida por quilo de café produzido –, indicador que tende a ganhar importância nos próximos anos diante das exigências de certificadoras e consumidores.
Texto originalmente publicado na edição #92 (junho, julho e agosto de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.