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Multiplicadores de instabilidade futura

A derrocada de Eike Batista vai além de seu ocaso financeiro. Outrora o expoente máximo do último surto brasileiro de megalomania, a trajetória do empresário ilustra com riqueza de detalhes uma complexa teia de equívocos. Afinal, o império do ex-postulante à posição de homem mais rico do mundo foi construído sob as luzes de potentes holofotes. Diante de alicerces tão frágeis, profissionais pertencentes aos mais distintos segmentos não hesitaram em revestir os sonhos do empreendedor com o verniz da legitimidade. Usando termos eloquentes, porém vazios, elevaram o personagem a um nível de autoridade moral pouco condizente com as realizações de suas empresas.

Fracassos como o de Eike Batista nos mostram a insuficiência das “leis de mercado” para explicar o desempenho de um negócio. As peripécias do império X só foram possíveis graças ao excesso de boa vontade do Estado. Por outro lado, o empreendedor que se preze detesta ser associado com empurrões do governo. Para o alívio dos empresários, um verdadeiro exército de especialistas se especializou em oferecer explicações simplistas para a materialização do lucro alheio. Enquanto resultados positivos são celebrados como um triunfo da iniciativa privada, os percalços costumam derivar da incapacidade do poder público em oferecer um “ambiente favorável de negócios”.

Anos de análises incompletas ajudam a explicar a ojeriza à política nos dias atuais. Uma visão distorcida da realidade também contribui para a ascensão de supostos empreendedores à posição de caudilhos políticos. Por momentos, a impressão é a de que todos os vícios são “públicos” e as virtudes “privadas”. O que é pior, tal raciocínio vem acompanhado da crença de que o desmantelamento do Estado – e de suas práticas – curaria os males das sociedades ocidentais. De forma implícita, clamamos por um nível semelhante de “competitividade”, sem ao menos perceber que governos influenciam o desempenho da economia justamente por sua condição de “monopólio”.

Caso a tendência se consolide, temos muito a perder. Afinal, erodiríamos proteções fundamentais que nos permitem arriscar parte do capital na busca por lucros. É bem verdade, temos muito a aprender quando o assunto é gestão do Estado. Entretanto, é grosseira a ideia de que um mero transplante de práticas corporativas ao setor público nos trará eficiência imediata. Pelo contrário, descaracterizaremos o tecido institucional que permitiu um processo de geração de riqueza sem precedentes no Ocidente. Ao instalarmos empresários sem experiência em palácios, é possível que aprofundemos o processo de captura do poder público por interesses particulares. Sem alguma separação entre os distintos pólos de poder da sociedade, perdemos a capacidade de estabelecer metas de longo prazo para o seu conjunto. De fato, a redução da incerteza não depende de relações próximas entre empreendedores e governantes, e sim do estabelecimento de regras estáveis e transparentes.

Ironicamente, o pedido de prisão de Eike Batista coincide com o rompimento dos 20.000 pontos do índice Dow Jones. Principal referência da bolsa de Nova Iorque, o marco coincide com a emergência de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Segundo diversos analistas citados pela imprensa especializada, o otimismo se deve à visão de que a administração do bilionário se caracterizará pela desregulamentação e redução de impostos. Em outras palavras, os próximos quatro anos serão marcados por um “ambiente favorável de negócios”.

Deixando de lado os termos de efeito, tem sido difícil encontrar uma interpretação coerente para o termo “favorável”. Em pouco mais de uma semana, Trump insinuou – ou implementou – medidas cujos efeitos nocivos sobre o ambiente institucional dos Estados Unidos poderão durar décadas. Da mesma maneira, demonstrou a tendência pela busca de acordos isolados com os líderes de grandes empresas. Em outras palavras, parece disposto a trocar favores a fim de garantir vitórias mediáticas. De resto, o discurso tóxico causaria calafrios em qualquer empreendedor dedicado a viabilizar um projeto de longo prazo.

Talvez precisemos renovar nosso vocabulário. Com as ferramentas atuais, a impressão é a de que estamos jogando mais lenha na fogueira. Não apenas criamos mitos como o de Eike Batista, como tendemos a lançar julgamentos condescendentes à parte “privada” da história quando o desfecho é negativo. Pior, associamos a proliferação de empresários na direção do Estado a uma marcha rumo ao aumento da eficiência no uso dos recursos comuns. Infelizmente, décadas de estudo nos separam da capacidade de oferecermos análises certeiras sobre os fatores que levam um empreendedor ao êxito. Tragicamente, substituímos a falta de respostas por um discurso vago e uma descrição incompleta dos fatos. Ao amplificarmos as glórias de uns e os defeitos de outros, contribuímos para a confusão do público. Pagaremos caro por isso.

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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