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Orgânico x Sustentabilidade x Qualidade

Por Marcos Croce
postado em 04/02/2013

8 comentários
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Vale a pena ser Orgânico? Vale mais o café Orgânico? O café Orgânico é melhor?

Estas são perguntas normalmente feitas por produtores, por compradores e por consumidores. Ainda existe um grande questionamento por uma grande parcela da população com relação a melhor, mais saudável e mais correta forma de agricultura dos alimentos em geral. Estamos passando por importantes mudanças de paradigma no mundo. Há uma busca de novos valores, de uma vida mais Saudável, de um mundo mais Sustentável, de uma escolha de produtos de qualidade para o consumo próprio.

Estamos vivendo um momento em que a bebida Café esta sendo redescoberta. Já estamos conhecendo mais variedades de vinhos, de cervejas, de tequilas e de cachaças. A cultura do chá e suas diversidades já é de há muito conhecida. Qualquer restaurante hoje tem a sua carta de vinho. Vários já estão com suas cartas de cerveja e de cachaça. O café continua sendo apenas o cafezinho : beeem preto, beeem forte, com muuuito açúcar. Um local mais sofisticado oferece uma bolachinha, um chocolate ou uma água com gás.........Muito importantes para "limpar" o gosto ruim, amargo, adstringente do cafezinho, de baixa qualidade, super torrado e ainda mal tirado. Há não muito tempo, o cafezinho era um simples complemento da refeição. Ele era um "bônus" e era oferecido sem custo extra ao cliente dos restaurantes. Depois veio o advento do Espresso, que modificou a forma de fazer e de servir o café, o que viabilizou aos restaurantes poder cobrar por esse novo Café Espresso.

Agora estamos entrando em uma nova fase: a do Café de Qualidade. Como o vinho, temos o café com mais ou menos corpo; temos o café mais frutado ou mais floral; tem café que "enche a boca" e não vai para a garganta; tem aquele com um retrogosto agradável e prolongado. No Brasil temos diversas variedades - Bourbon, Obatã, Icatú, Catuaí, Mundo Novo, entre outros - em geral misturados nos terreiros e vendidos como "commodities" ou como 'cafezinhos'. Recentemente, começaram a aparecer cafeterias mais preocupadas com cafés especiais, separados por variedades, com denominação de origem, com "terroir", com nome da fazenda produtora, com critério de produção, com cuidado na torra e no preparo de servir. Existem ainda muitas outras variedades, como Geisha, Pacamara, Java, etc , que não são cultivadas no Brasil e que logo mais serão descobertas aqui também. Cada variedade apresenta a sua própria característica quanto a densidade, o aroma, o sabor. Dependendo da localização, da altitude, da latitude, do clima de cada estação, da forma de colheita, do cuidado na secagem, da armazenagem, da torra, esses cafés poderão apresentar suas características, suas peculiaridades, seus "encantos" individuais. Como o vinho, que é sempre relacionado com a uva e com a origem, o Café de Qualidade começa a surgir no mercado. E, como tudo na vida, quando se identifica e se aprende algo de qualidade, fica muito difícil voltar atrás e consumir algo ruim. Essa é a grande vantagem do café, pois por mais caro que seja, ele é um produto democrático, accessível a qualquer bolso e que aproxima as pessoas.

O Café Orgânico é aquele que é produzido sem a utilização de agrotóxicos ou quaisquer outros produtos nocivos ao meio ambiente ou ao seres vivos. O café é fertilizado com compostos de produtos naturais e as pragas são combatidas com preparos especiais. Na FAF - Fazenda Ambiental Fortaleza nós desenvolvemos duas formas de cultivo de cafés Orgânicos: O Orgânico Ativo e o Orgânico Passivo.

O Cultivo Orgânico Ativo é aquele que tem o trabalho e interferência permanentes, que precisam ser alimentados, regados, podados, roçados e que não permite a utilização de substâncias químicas e tóxicas, e que então necessitam de capinação manual intensa. Torna-se muito difícil a produção da cafeicultura Orgânica de quantidade e normalmente buscam-se formas de cultivos complementares nos cafezais ( milho, feijão, mandioca, etc). A característica básica da agricultura Orgânica é a diversidade, em que há rodízio de cultivares onde as diferentes raízes e folhagens contribuem para um equilíbrio na produção.

No Cultivo Orgânico Passivo buscamos a criação de cafezais de Sombra onde o mato não cresce , o solo não está exposto diretamente ao sol, onde os pés de café possam se desenvolver com a mínima interferência humana. Nesse tipo de cultivo observamos que a produção é bem menor, porém os frutos se desenvolvem melhor com maturação mais lenta e prolongada e notamos que têm favorecido a qualidade da bebida.

O problema do Cultivo Orgânico é que ele é muito mais custoso e têm uma produtividade muito menor que o cultivo convencional. O café para ser considerado Orgânico tem que ter um Selo de uma Certificadora Orgânica. Os custos da certificação são de responsabilidade dos produtores. O (re)aprendizado do cultivo Orgânico é de responsabilidade dos produtores. A colocação no mercado (ainda muito pequeno e restrito) é de responsabilidade dos produtores. O benefício de um alimento mais saudável e de uma terra mais saudável, com mais árvores, água limpa e ar limpo é de benefício de todos.

O Café Sustentável é aquele que busca o equilíbrio entre a produção e o meio ambiente. É aquele que leva em consideração a degradação da terra, a preservação das espécies, a proteção das nascentes e a manutenção de corredores verdes. O desafio para o produtor consciente e responsável é encontrar uma fórmula de levar a sua propriedade a ser Sustentável não somente na área Financeira, mas também na Social e na Ambiental. A questão é como aumentar a produtividade e diminuir os custos mas sempre tendo em vista a próxima geração .

O Café Orgânico é um Café Sustentável, mas o café não precisa ser Orgânico para ser Sustentável. Pelo alto custo do Café Orgânico, muitos compradores hoje optam pelo que se convencionou a chamar de "Direct Trade" ou Compra Direta. Nestes casos, o comprador, que visita o produtor anualmente, que conhece a fazenda e os métodos de produção Sustentável das fazendas, são os "Certificadores" naturais dos produtos que eles compram e vendem em suas torrefações ou em suas lojas. A origem dos produtos e o motivo da compra estão nos rótulos dos produtos, permitindo ao consumidor conhecer todo o processo de rastreabilidade desde a origem até o ponto de venda.

O grande problema que vivemos hoje é que o custo do Café Orgânico é muito alto e o mercado não esta preparado para pagar essa diferença, principalmente pelo café não ser um produto consumido "in Natura" como tomates, hortaliças, frutas, pois ele passa por um processo de torra que diminui consideravelmente o contato do consumidor com os agrotóxicos usados. No processo de seleção do orçamento familiar, o café Orgânico fica em segundo plano. E aí aparece o problema maior: para não encarecer o produto final - Café Orgânico - diminui-se a qualidade da matéria prima: os cafés de varreção (catados no chão) ou os cafés verdes (não maduros) , de cultivo Orgânico, também são Cafés Orgânicos! Muitas pessoas confundem café Orgânico com café de Qualidade. O Café Orgânico pode ser de altíssima Qualidade, mas pode ser também de Qualidade inferior.

Hoje existe um mercado crescente para Cafés de Qualidade que paga preços até superiores a 500% dos cafés "commodity". Porém, o café Orgânico raramente chega a obter 20% de ganho no valor. Em geral, quando a venda do produto baseia-se mais no marketing do Orgânico, nota-se que a qualidade é inferior. Temos que antes buscar o café de Qualidade, e o Orgânico é o 'bônus" que valoriza ainda mais o produto.

Apesar de produzirmos 100% de nossos cafés de forma Orgânica na FAF, somente vendemos/exportamos 15% com o Certificado Orgânico. Os nossos compradores ou alegam que não precisam, pois eles não têm a certificação de torragem e venda, ou alegam que os mercados que atuam não valorizam os produtos Orgânicos. Nossos compradores compram nossos cafés pela Qualidade e pagam bem por isso, o fato de serem Orgânicos e Sustentáveis vem de "bônus". Eles também precisam de ajuda na conscientização de seus consumidores para justificar um preço melhor pelo selo Orgânico.

Precisamos todos nos unir para divulgar e conscientizar o consumidor sobre o real valor do Café de Qualidade Orgânico. Nós na FAF, vamos continuar a produzir nossos cafés, e demais produtos, de forma Orgânica, pois esta é nossa filosofia de vida e nosso compromisso de deixar a FAF saudável para as próximas gerações. É de extrema importância que os produtos Orgânicos sejam associados com a Qualidade, pois é somente desta forma que o consumidor final poderá dar maior valor e assim concordar em pagar mais.

Necessitamos fazer um trabalho de divulgação para que essa conscientização seja feita em grande escala, pois a Agricultura Orgânica e o alimento Orgânico são de benefício de todos.

Esta matéria é de uso exclusivo do CaféPoint, não sendo permitida a cópia e réplica de seu conteúdo sem prévia autorização do portal e de seu autor.

Saiba mais sobre o autor desse conteúdo

Marcos Croce    Mococa - São Paulo

Produção de café

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Comentários

Rogério Carvalho Fernandes

Belo Horizonte - Minas Gerais - Pesquisa/ensino
postado em 04/02/2013

Ótimo artigo Marcos. Realmente a vida de produtor orgânico não é fácil. Ele tem que provar que seu produto é orgânico (certificação), trabalhar a qualidade e ainda esperar a conscientização do consumidor!

Juliano Tarabal

Patrocínio - Minas Gerais - Marketing, estratégia, gestão de projetos.
postado em 04/02/2013

Caro Marcos Croce,

Muito interessante seu ponto de vista e suas colações. De fato vivemos sim num novo momento no agronegocio café, que pela sua sofisticaçao e maior conhecimento dos consumidores, pegando carona na evoluçao de outros produtos tem se posicionado como produto de alto valor e buscando alternativas que nao só a commoditie.

Quanto ao manejo orgânico é extremamente louvável e acredito ser um caminho que mereça estudos, pesquisas e investimento.

Atuo em uma região onde por questões climaticas este cultivo se torna mais complexo em função do maior intemperismo e ainda por caracteristicas de menor fertilidade do solo...mas mesmo assim existem algumas poucas iniciativas neste cultivo, em café, que vem alcançando resultados.

Um outro fator que tambem limita muito este cultivo é a maior complexidade e conhecimento que deve ser envolvido, como você mesmo frisou, é uma filosofia de vida e a vontade de deixar um legado...estamos entao falando de um fator cultural, que não é simples de ser modificado.

Vivemos na agricultura após a revoluçao verde, a busca incessante pela maior produtividade, alto uso de defensivos, fertilizantes, etc, que nao agricultura de grande escala se faz necessário justamente para sustentar esta alta produtividade.

Ate 2050 teremos cerca de 9 bilhoes de habitantes no mundo, e essa populaçao vai precisar se alimentar de uma ou de outra forma, e vai toma muito mas muito café.

Ou seja, quero gerar a reflexao de que o cultivo organico apesar de louvavel compete com uma agricultura em que o emprego de insumos é quase que inevitavel para manter os indices necessarios de produçao para o  mundo se alimentar.

Isso faz com que o mercado de organico seja um nicho, onde poucos produzem e poucos consomem, pois o acesso é extremamente restrito.

Agora, como citei acima, existem fazendas que conseguem produçoes consideraveis  de organico e podem servir como modelos, podem ser estudadas.

O que temos hoje de estudo e de incentivo a produçao organica?

Voce esta correto, precisamos sim de um trabalho de divulgaçao e conscientizaçao.

Muito bom ver o surgimento de mentes pensantes no agronegocio café, pessoas sao fundamentais na mudança e construçao de qualquer processo.

Saudaçoes.

Juliano Tarabal

joao ruiz lourenço filho

Bálsamo - São Paulo - Produção de café
postado em 05/02/2013

Temos de parar de vender Cafe a preço de NY menos alguns centavos pois tem muita gente entre o produtor e o torrador lá fora que estáganhando muito mais que nos que produzimos. Temos de nos unir e criar cooperativas verdadeiramente de produtores para ter forca e agregar valor no nosso. Vamos parar de olhar pra bolsa onde não temos nada a fazer perante os fundos e agir como podemos. Chega de trabalhar para 'mercenários' que não nos dão valor algum. Pensem meus amigos cafeicultores

paulo augusto de oliveira lopes

Salvador - Bahia - Consultoria/extensão
postado em 06/02/2013

gostaria de conhecer as praticas utilizadas para os tratos culturais,colheita e secagem. Tem a faf algum manual? Como posso ter acesso? Parabéns, pois o importante é a sustentabilidade.

Marcos Croce

Mococa - São Paulo - Produção de café
postado em 07/02/2013

Caro Juliano,

Obrigado pelas suas colocações. Foi justamente por isso que usei o título Orgânico X Sustentabilidade X Qualidade. O cultivo Orgânico, apesar de mais saudavel ao consumo humano e ao meio ambiente, não é facil, é de maior custo, tem uma produção menor, e o mercado não está pagando o preço necessario para ser Sustentavel Financeiramente,  E essa é a questao primeira.

O problema é que, sob a bandeira de "alimentar o mundo", o agronegocio esta criando "desertos" de monoculturas, de solos esterilizados, de sementes "bombadas", de cultivos gigantes onde não existem minhocas, nem passarinhos, nem arvores, nem água limpa...

Será que nao deveriamos buscar mais o caminho da Sustentabilidade Real (social, ambiental, financeira) onde utilizamos todas as novas descobertas da ciência e da tecnologia, porem levando em consideração a maior diversidade, deixando corredores verdes para a vida animal, fazendo rotatividade de culturas, intercalando as diversas culturas, limitando o tamanho das lavouras , de forma a ter uma maior produção mas sempre levando em consideração o todo?

O Agronegocio, como ele é hoje, não considera o Passivo Ambiental. O que proponho aqui e colocar tudo na equação, pois acredito que para o mundo poder ser Sustentável com 10 bilhões de pessoas será necessário buscar o equilíbrio da Agricultura que considera a Vida.

Ainda outro dia uma estudante que visitava a FAF me disse: " acho que entendi: os produtores ricos alimentam os pobres, e os produtores pobres alimentam os ricos!"

Sorte daqueles que podem e tem a consciencia da importância da alimentação saudável não tóxica para a própria familia.


Marcos Croce

Mococa - São Paulo - Produção de café
postado em 07/02/2013

Caro Paulo Augusto,

Nós da FAF ainda estamos engatinhando no quesito Agricultura Sustentável.

Fazemos diversas experiências, que chamamos de "salas de aula", de formas diferentes de cultivo, de espaçamentos, de variedades, de sombreamentos com árvores  frutíferas e com nativas,
de plantio em matas secundárias, com cultivos consortes, etc. Ainda não estamos prontos para fazer um "manual", mesmo porque não somos agrônomos. Mas estamos já obtendo alguns resultados e estamos há alguns anos compilando os dados. Já aprendemos que temos muito a aprender, que temos que conhecer o nosso solo, e que a natureza é sabia.

Por outro lado, estamos bem mais adiantados com as experiências e resultados na pós-colheita. Temos experimentado, nos últimos cinco anos, diversas formas de secagem - terreiro de chão, terreiro suspenso, terreiro sombreado - com as diversas variedades devidamente separadas, com Naturais e com Despoupados.  Todos os lotes são cuidadosamente separados e as amostras devidamente provadas em nosso laboratório. Temos já observado a consistência em alguns métodos que realmente confirmam os resultados na xícara.

Fábio Lúcio Martins Neto

Vitória da Conquista - Bahia - Instituições governamentais
postado em 13/02/2013

Parabenizo o senhor Marcos Croce e todo o trabalho realizado pela Fazenda Ambiental Fortaleza.

Também sou produtor de café orgânico, na Chapada Diamantina Bahia, além de engenheiro agrônomo, atualmente cursando o doutorado em Fitotecnia - Agroecologia e Agricultura Orgânica na Universidade Federal De Viçosa, onde aprofundo os conhecimentos em adubação verde de cafezais.

O artigo é sensato, sincero e honesto. Ao não fantasiar a questão da agricultura orgânica, deixa claro a importância da sustentabilidade ser uma filosofia de vida necessária para toda a humanidade.

As dificuldades técnicas ainda são grandes, mas acredito que há avanços na pesquisa.. O gargalo ainda é a existência de bons e sérios técnicos na assistência técnica e na extensão rural.

Por fim, também concordo que as certificadoras deveriam possuir mecanismos de apoio ao produtor certificado.

Parabéns pelo trabalho,

Antonio Pedreira de Freitas

São Paulo - São Paulo - Produção de café
postado em 01/08/2013

Parabéns, que maravilha,gostaria de conhecer outros Marcos Croce,infelizmente você é único

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