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Sim! A cafeicultura de montanha é viável

Em decorrência indireta de artigo recentemente publicado no CaféPoint, onde abordamos a relação entre o custo de produção e a produtividade na cafeicultura do cerrado, o Sr. Gumercindo Ferreira Pinto Neto questionou sobre o futuro da cafeicultura de montanha, externando uma preocupação relativamente comum dentre cafeicultores e, até mesmo, entre autoridades que, por força de ofício, são – ou seriam - obrigadas a incentivar e apoiar a atividade cafeeira nessa região. Renato Hortélio, Carlos Eduardo e outros leitores já postaram respostas interessantes para essa pergunta, e eu, por considera-la importante, vou tentar contribuir para discussão do assunto.

Retomando as conclusões do artigo citado, ficou demonstrado que os custos de produção do café, por unidade produzida, são menores quando a produtividade aumenta, até determinado limite, a partir do qual, o uso mais intensivo dos fatores de produção volta a pressionar custos mais do que proporcionalmente. Isso indica que os cafeicultores mais produtivos, naquelas condições, são também os mais competitivos. Com base nos dados do Projeto Educampo Café para a região de montanha, verifica-se que a relação entre produtividade e competitividade na cafeicultura de montanha acompanha essa mesma lógica. Ou seja: na cafeicultura de montanha, também, os cafeicultores que alcançam maiores produtividades têm uma atividade cafeeira mais sustentável.

Outra semelhança que se observa entre as duas regiões, segundo os dados do Educampo, é que os custos de produção, por hectare, das lavouras de café no cerrado são de magnitude muito próxima aos custos de produção, por área plantada, das lavouras situadas nas montanhas de Minas. Por outro lado, em média, o custo por saca produzida tem sido menor no cerrado, obviamente, como reflexo da maior produtividade das lavouras dos cafeicultores participantes desse Projeto nessa região. Para a real dimensão desta comparação, é preciso considerar que os cafeicultores do Educampo Café são apenas parcialmente representativos da média regional, uma vez que contam com assistência gerencial e técnica dirigidas.

A maior dificuldade da produção de café na região de montanha é o predominante relevo acidentado, que condiciona o uso mais intensivo de mão de obra no cultivo. A região do cerrado também apresenta limitações ao sistema produtivo do café. Seus solos, regra geral, são mais ácidos e menos férteis e, para produzir adequadamente, precisam de mais corretivos e fertilizantes do que os de montanha. Seu clima é mais propício ao desenvolvimento de praga e doenças e, em alguns lugares, o regime pluviométrico exige que a lavoura de café seja irrigada. A composição do custo de produção nas duas regiões reflete a diferença na dotação dos fatores de produção. Enquanto a mão-de-obra representa cerca de 50% dos custos na cafeicultura de montanha, no cerrado, o adubo e o controle de pragas e doenças são os responsáveis por grande parcela dos custos de produção na atividade cafeeira.

Como dificuldades existem nas duas regiões, para explicar o menor custo médio de produção na cafeicultura da região do cerrado, convém lembra que a competitividade depende de fatores alheios à própria atividade e aos aspectos regionais e legais que estão envolvidos no processo produtivo. O clima, o relevo e as características físicas e químicas dos solos predominantes de cada região são imutáveis e sobre eles não há mudança possível, pelo menos, por enquanto. As legislações ambiental e trabalhista são comuns às duas regiões. No que pese poder exercer maior dificuldade de gestão em alguma delas, entendo que não reside nelas o diferencial de competitividade.

No nosso entendimento, o diferencial de competitividade regional é explicado, em grande parte, pelo diferencial do desenvolvimento tecnológico nas duas regiões nas últimas décadas. O cerrado brasileiro, por suas características topográficas e climáticas, é muito favorável ao emprego de tecnologias químicas e mecânicas. São essas as que mais despertam interesse da iniciativa privada que se dedica ao desenvolvimento de novas alternativas tecnológicas, tendo em vista a possibilidade que eles enxergam de obterem lucro com o seu uso. Vale lembrar que, na década de 1960, quase todos duvidavam da viabilidade do cerrado como área agrícola. Os investimentos públicos e privados em inovação tecnológica vieram a demonstrar que era sim possível e, uma região tida como de baixa competitividade, passou demonstrar sua grande aptidão agrícola.

Por outro lado, na região de montanha, que era a tradicional produtora agrícola, a questão tecnológica foi negligenciada. Os investimentos públicos foram menores e os investimentos privados foram reduzidos, tendo em vista tratar-se de área mais apropriada ao uso de tecnologias biológicas que, de maneira geral, oferecem menor possibilidade de obtenção de lucro continuado com a sua utilização. Isso, de certa forma, explica porque houve um desenvolvimento tecnológico muito maior da cafeicultura do cerrado, substituindo mão-de-obra e incrementando a produtividade física da lavoura.

Nos últimos anos, tendo em vista a política macroeconômica brasileira, esse diferencial tecnológico foi ainda mais acentuado. A cafeicultura de montanha é intensiva no uso de fatores de produção oriundas do mercado interno (com destaque para o trabalho) enquanto que a cafeicultura do cerrado é mais intensiva em insumos cujos preços são determinados no mercado mundial (fertilizantes, equipamentos, combustível e outros químicos). Nesse caso, a conjuntura econômica que mantém o real valorizado favorece a cafeicultura do cerrado. Ou seja, os componentes importados têm um preço relativo menor. Em uma conjuntura de mercado onde essa situação seja invertida, haverá, sem dúvida, um impacto maior nos custos da cafeicultura do cerrado. Portanto, a atual menor competitividade da cafeicultura de montanha tem forte contribuição da conjuntura econômica atual, que pode mudar.

Contudo, o básico mesmo é o desenvolvimento de tecnologias apropriadas à cafeicultura de montanha. Politicamente, é necessário pressionar as instituições públicas a desenvolverem pesquisa e experimentação poupadoras de trabalho manual em condições de relevo acidentado. Torna-se também fundamental incentivar a aplicação de instrumentos que motivem a iniciativa privada a promoverem inovações tecnológicas que sejam eficazes nas condições da cafeicultura de montanha. Algumas inciativas já estão sendo tomadas nesse sentido, tanto no setor público como no privado. Cabe ao setor produtivo da região buscar formas de, organizadamente e com maior intensidade, promover ações que aumentem a competitividade da cafeicultura de montanha. Tem jeito, sim! A viabilidade aumentará na razão direta das ações afirmativas em busca de soluções tecnológicas.

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JOSÉ LUIS DOS SANTOS RUFINO

VIÇOSA - MINAS GERAIS

EM 08/12/2011

Caro Marcos Antonio,

Obrigado por sua participacäo.
Fazer parte do diagnóstico é menos complexo do que executar acóes que possam minimizar as dificuldades regionais, como, por exemplo, o Projeto "Foco Competitivo das Matas de Minas", coordenado pelo Sebrae Minas, que busca promover a inovacäo tecnológica em uma importaqnte regiáo produtora de café de montanha de Minas Gerais.
Desejo a voce e seus pares muita determinacao nessa empreitada e em outras parecidas.
Atenciosamente,
Rufino
MARCOS ANTONIO DOS REIS TEIXEIRA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE CAFÉ

EM 07/12/2011

Caro professor, parabéns. Ótima visão da divergência existente entre as duas maiores regiões produtoras de café de Minas e também do Brasil. Abraço.
JOSÉ LUIS DOS SANTOS RUFINO

VIÇOSA - MINAS GERAIS

EM 04/12/2011

Caro Ubirajara,
Obrigado por sua participação.
Tenho especial apreço pelos cafeicultores de Barra do Choça. Durante algum tempo fui testemunha ocular do enorme esforço desses produtores para conviver com dificuldades naturais e tecnológicas para conduzirem uma atividade cafeeira sustentável. Embora ausente há alguns anos , acompanho com prazer a evolução na produção de Cafés de ótima qualidade em sua região.
Concordo com voce no que diz respeito a necessidade de organizacáo.
Um abraco.
Rufino
JOSÉ LUIS DOS SANTOS RUFINO

VIÇOSA - MINAS GERAIS

EM 04/12/2011

Caro Reinaldo Foresti Junior,
Obrigado por sua participação e pelos comentários tão favoráveis. Vou aceitá-los, agradecido, como desconto de outros que possam ser feitos no sentido contrário. Apenas uma correção: não sei o caminho das pedras. Procuro colocar algumas pedras para construir um caminho na certeza de que, juntos, podemos traçar uma rota mais favorável ä sustentabilidade da cafeicultura de montanha. Sua participação é importante nessa construção.
Um grande abraço.
Rufino
JOSÉ LUIS DOS SANTOS RUFINO

VIÇOSA - MINAS GERAIS

EM 04/12/2011

Caro Gumercindo,
Obrigado por participar. Na verdade, sua pergunta despertou nosso interesse em racionar mais sobre esse assunto. Está comum falar que a pergunta é mais importante que a resposta. Eu concordo com isso. Vamos continuar pensando e tentando agindo.
Você tem razão quando diz que as mudanças tecnológicas devem ser acompanhadas de alterações nas relações de trabalho e no desenvolvimento social . Alem de novas capacitações, novas organizações de trabalho são sempre necessária para conviver com as inovações tecnológicas. A complexidade envolvida é grande, eu sei, contudo, as mudanças terão início com a melhor governança do setor cafeeiro nas Montanhas de Minas.
Cordialmente,
Rufino
UBIRAJARA SANTOS AMORIM

BARRA DO CHOÇA - BAHIA - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 04/12/2011

Ubirajara Amorim
Barra do Choça-BA.

Caro Rufino,
Gostei muito deste artigo, e concordo com voce, precisamos de mais apoio tecnologico tanto do área governamental quanto privada para tornar a cafeicultura de montanha sustentavel, mas isto só ira acontecer se houver uma organização das regiões produtoras de cafe de montanha.
REINALDO FORESTI JUNIOR

CAMPANHA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 03/12/2011

¨Quem não tem competência, não se estabeleça¨. Passa-se mais de cem anos que os nossos produtores de café labutam na atividade em localidades diferentes de solo altitude, clima e tradição na produção deste importante alavancador de nossa história econômica, financeira e social. O Prof.Rufino, como sempre acontece, ao manifestar-se técnica e profissionalmente em assuntos de sua alta competência, ensina-nos o caminho das pedras. Cumprimento-o pelo excelente artigo em foco e ensinamentos transmitidos, que acredito serem bem vindos e apreciados pela classe produtora de café e demais envolvidos no assunto. Como exemplo de competência estabelecida, tenho lido e constado em inúmeros artigos do CaféPoint e outros importantes canais de comunicação o sucesso obtido por pequenos, médios e grandes empresários na atividade cafeeira e resultados de alta qualidade em regiões mais elevadas dos estado de Minas Gerais e São Paulo para os cafés arábicas.

GUMERCINDO FERREIRA PINTO NETO

TREMEMBÉ - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 02/12/2011

Prezado José Luis, muito bom seu artigo!
Obrigado pelos esclarecimentos e elucidação quanto ao futuro da cafeicultura de montanha. Começo a enxergar luz no fim deste túnel...
São perfeitas suas considerações quantos aos fatores que impactam nos custos de produzir na montanha.
Mais uma vez, a mão-de-obra é citada como um fator destoante entre os cultivos na montanha e em terras mecanizáveis. Entendo que o produtor perceberá cada vez mais dificuldades de encontrar safristas nas proximidades de sua propriedade, e terá buscá-los cada vez mais longe, aumentando seus custos.
Sabemos das dificuldades de se viver no campo. Acredito que programas que venham agregar renda para as famílias que vivem nas proximidades e que trabalham nas fazendas podem cooperar com a elevação qualidade de vida dessas pessoas e incentivá-las a continuar no campo, aumentando assim a oferta de mão-de-obra e consequentemente colaboração com o exercício da atividade.
Pois além da busca de soluções técnológicas, acredito que o desenvolvimento social destas famílias aumentará as chances de sustentabilidade da cafeicultura de montanha.
Aproveito o espaço, para solicitar ao Cafepoint, colaboradores e leitores, caso tenham
idéias, projetos ou exemplos de como colaborar com a fixação destas famílias no campo, que publiquem em seus comentários.
Att,
Gumercindo