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Identificação do DNA do solo auxilia na escolha por áreas com potenciais para cafés especiais

ESPAÇO ABERTO

EM 02/06/2020

9 MIN DE LEITURA

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Por Região do Cerrado Mineiro e Quanticum

O Brasil produz um terço do café do mundo. Isso significa que a cada três xícaras com café bebidas em diversos países, uma provém das fazendas brasileiras. Quando falamos em números, podemos dizer que a cadeia produtiva do café gera mais de oito milhões de empregos e movimenta em torno de R$ 5 bilhões por ano, o que faz do grão o 5° principal produto na pauta de exportações do agronegócio nacional.

Maior produtor e exportador global e segundo maior consumidor da bebida, seria possível o país agregar ainda mais valor na cadeia do café? A resposta é sim e isso já vem acontecendo em ritmo acelerado. Atualmente, o país avança sobremaneira para agregar valor por meio de cafés com melhor qualidade. Prova disso é que, segundo especialistas do setor, o mercado de cafés especiais no país cresce 7% ao ano em comparação aos 2% do mercado de cafés tradicionais ou commodities. Para atender esse importante mercado de cafés especiais, o entendimento do solo em detalhe é de fundamental importância para obtenção de bebidas de melhor qualidade ou de qualidade específicas desejadas pelo mercado internacional.

Qualidade das argilas é o diferencial

A tecnologia de qualidade das argilas identificadas pelo magnetismo do solo já está agregando na cadeia produtiva de várias culturas, entre elas a do café. O engenheiro agrônomo Renan Gravena, CEO da Quanticum, e com longa experiência no mercado de pesquisa e tecnologia agrícola em níveis nacional e internacional detalha a importância dessa questão para os solos brasileiros: “Trata-se de uma inédita e específica inovação para solos tropicais, como é o caso dos solos nacionais. Sabemos que os processos no solo, sejam de nutrientes, água, produtos fitossanitários e microrganismos, são altamente dependentes da interação destes com os minerais e matéria orgânica do solo. No entanto, nas condições tropicais brasileiras, com elevados volumes de chuva e altas temperaturas e, dependendo do manejo adotado pelo agricultor, o teor de matéria orgânica é significativamente alterado ano a ano, o que dificulta o seu mapeamento e adoção de estratégias de manejo em função do seu teor. Por outro lado, os tipos de argilas não se alteram no solo facilmente, fazendo com que sejam identificadas as reais causas de variação dos atributos do solo e permitindo a implementação de práticas agrícolas por ambientes muito bem definidos”.


Renan Gravena, diretor executivo (CEO) da Quanticum

Gravena completa: “Sabemos da importância da cultura do café na economia brasileira, uma importância até histórica na vida das famílias brasileiras. O Brasil é o maior produtor e exportador de café do mundo. No entanto, o mercado nacional e o internacional vêm se tornando cada vez mais exigentes, querendo degustar bebidas de café diferenciadas, como é o caso dos cafés especiais. Para se obter um café com qualidade específica é preciso que produtor rural se cerque do máximo de conhecimento possível sobre os elementos determinantes da qualidade de bebida. Podemos dividi-los em dois grandes grupos, aquele relacionado às atividades de campo que definirão a qualidade da matéria-prima até colheita, e o pós-colheita, que envolve desde as práticas de secagem, beneficiamento, armazenamento e preparo da bebida. No nível de campo podemos citar como elementos importantes da qualidade luz, água, variedade, altitude, face de exposição, manejo e, é claro, a qualidade das argilas”.

Segundo o dirigente da Quanticum, os tipos de argila podem ser comparados ao DNA dos seres vivos: “Assim como o genoma de uma pessoa condiciona o potencial dela ser de baixa ou alta estatura, mais ou menos propensa a engordar, desenvolver uma doença ou não, a qualidade das argilas indica o potencial de fertilidade, física e biologia do solo”. Para tanto, ele defende considerar o DNA dos solos nas tomadas de decisão agrícola: “Entender a qualidade das argilas é de fundamental importância para a adoção das práticas agrícolas. Afinal, estamos considerando que o potencial de cada solo seja analisado do ponto de vista químico, físico e de biologia. Por exemplo, temos o potencial de adsorção de fósforo, um nutriente importantíssimo para as culturas, que pode variar em até 61% dependendo da qualidade das argilas e isso deve ser levado em conta na definição da dose. A infiltração de água no solo é 50 vezes mais rápida em um local do que em outro dependendo do tipo de argila encontrada. Outro ponto interessante é que podemos ter o mesmo tipo de solo, com mesma cor, com teores de argila e matéria orgânica muito semelhantes, mas com qualidade de argilas diferentes”.

Uma pergunta que pode ficar na mente do leitor é a de que se a qualidade das argilas é tão importante, por que os produtores rurais não começaram a utilizar a tecnologia antes? Com a palavra, o engenheiro agrônomo: “Basicamente, o fato de agricultores não utilizarem o conceito de qualidade de argilas até então está relacionado ao elevado custo e a demora nas análises de tipos de argila, a presença de poucos equipamentos no Brasil e ao reduzido time de profissionais especialistas nessa área, sobretudo na extensão rural. Mas agora já temos profissionais em número com esse perfil, sensores de leitura rápida, não poluentes e que podem ser utilizado em campo ou laboratório, além de preço acessível. Para cada qualidade de argila há um padrão magnético do solo detectado pelo sensor. É a inovação chegando desde os pequenos até os grandes agricultores”, comemora Gravena.

Ele revela ainda a relação entre qualidade de argilas e os tipos de café: “Essa relação é muito forte. Hoje, já se sabe que certas qualidades de argilas proporcionam áreas dentro de uma mesma propriedade com maior ou menor potencial para qualidade de bebida de café. O mais interessante disso é que áreas com mesma classificação de solo, mesmo teor de argila, mesmo teor de matéria orgânica, mesma altitude, mesma face de exposição e com a mesma cultivar de café podem proporcionar bebidas diferentes em termos de nota”.


A imagem acima mostra áreas com diferentes potenciais produtivos e de qualidade de bebida de café com base nos tipos de argila

Gustavo Pollo, COO da empresa, e terceira geração de consultores em café e cereais em sua família, explica como a Quanticum está levando essa inovação para a cafeicultura brasileira: “Acreditamos na cafeicultura nacional e, principalmente, nas pessoas que fizeram o setor do café brasileiro ser líder mundial. Por isso estamos sempre próximos de instituições sérias e que levam o que há de melhor em tecnologia e inovação aos cafeicultores, como é o caso da Fundaccer [Fundação dos Cafeicultores do Cerrado], da Cocapec [Cooperativa de Cafeicultores e Agropecuaristas] e da Cooxupé [Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé]. Esses especialistas em café nos auxiliam validando a técnica e orientando os produtores e gestores agrícolas sobre a tecnologia nas principais regiões produtoras de café”.


Gustavo Pollo, diretor operacional (COO) da Quanticum

Pollo completa animado: “Hoje, a empresa já tem mapeado mais de 8 mil hectares de café com alto nível de detalhe e mais de 90% do Estado de Minas Gerais com detalhe de 30 hectares. Esse mapeamento da qualidade das argilas no nível de 30 hectares, por si só, já constitui excelente informação para integrar diferentes plataformas de dados e a partir daí promover ações estratégicas”.

Parceria de sucesso pela sustentabilidade do café nacional

A Fundaccer é parceira da Quanticum e o braço de pesquisa da Federação dos Cafeicultores do Cerrado. Inserida em uma região de café há pouco mais de 25 anos, a Federação é estruturada em um grupo composto por sete associações de produtores, sete cooperativas e uma fundação (a própria Fundaccer). A Federação é ainda a entidade que controla, promove e protege a Denominação de Origem Região do Cerrado Mineiro, única região produtora a obter este status.

Juliano Tarabal, superintendente da Federação dos Cafeicultores do Cerrado, comenta sobre o trabalho realizado pela Fundaccer em 55 munícipios de Minas Gerais e o uso da qualidade das argilas como diferencial para o café produzido na região do Cerrado Mineiro: “A Fundaccer tem foco em desenvolver pesquisas e projetos com ações inovadoras e tecnologias práticas para o aumento da sustentabilidade na cafeicultura. Assim, vimos a tecnologia de avaliação de qualidade das argilas como uma ferramenta muito útil no dia a dia dos cafeicultores do Cerrado Mineiro. A tecnologia ajuda produtores a identificar áreas com qualidade de argilas diferentes e que produzem, consequentemente, bebidas com qualidades diferentes. Isso permite que os produtores utilizem a tecnologia como uma ferramenta de negócio, de apresentação aos parceiros, de adoção de estratégias de manejo para cada área, pensando no seu potencial e de direcionamento de lotes para comercialização e concursos de bebida”.


Juliano Tarabal, superintendente da Federação dos Cafeicultores do Cerrado

Palavra do cafeicultor

Com o apoio da Fundaccer, a tecnologia de qualidade das argilas foi utilizada em Patrocínio/MG pelo grupo Mc Miaki Coffee, liderado pelo produtor Marcos Miaki e sua família. O grupo se destaca pela visão moderna e atenta às demandas do mercado, integrando suas fazendas e o armazém de café. As áreas escolhidas para a utilização da tecnologia congregam o zelo da família Miaki em busca de elevadas produtividades e ótimas qualidades de bebida de café, além da ‘mítica’ sobre a região do Chapadão de Ferro, uma cratera de origem vulcânica. Estudos anteriores apontam elevada relação entre a qualidade das argilas e a produtividade do cafezal ao longo das safras. A bienalidade da produção da lavoura de café pode variar em até 50% em função dos tipos de argilas.

Miaki comenta sobre o uso da tecnologia em suas propriedades e da família: “Os resultados do mapeamento da qualidade das argilas por meio do magnetismo do solo foram muito bons pensando na identificação de áreas com diferentes qualidades de bebida de café. É uma tecnologia que não exige maquinários específicos para o cafeicultor, bastando apenas uma reorganização da colheita. Vamos avançar com a tecnologia em outras áreas e outras aplicações”.


Produtor e empresário Marcos Miaki à esquerda; à direita vista da Fazenda Porta do Céu, em Patrocínio (MG), uma das cinco propriedades do Grupo Mc Miaki Coffee, além do armazém de café

O cafeicultor e ex-presidente Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), Adolfo Ferreira, fala sobre o cruzamento de informações de qualidade de argilas e seu levantamento histórico sobre notas de bebidas de café. Ele se destaca por ser extremamente cuidadoso na obtenção de informações precisas que suportarão tomadas de decisão e uma boa comercialização dos seus cafés colhidos: “Foi uma agradável surpresa ver que certas qualidades de argilas coincidiam com os resultados históricos da minha propriedade em relação à qualidade de bebida de café. O mapeamento dos tipos de argila ajuda com a definição dos limites das áreas mais ou menos propensas à qualidade de bebida”.


Produtor e ex-presidente da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), Adolfo Ferreira, em sua propriedade, a Fazenda Passeio, em Monte Belo (MG)

Renan Gravena, da Quanticum, conclui analisando o assunto sob o ponto de vista do legado para a cafeicultura nacional: “A tecnologia promove grandes avanços na inovação social e organização das propriedades produtoras de café, pois ajuda na identificação de lotes ou microlotes de cafés especiais, auxilia a rastreabilidade e certificação, favorece o desenvolvimento de marcas próprias pelos cafeicultores e incrementa a rentabilidade do pequeno ao grande produtor. Além disso, promove impacto na macroeconomia brasileira, aumentando o volume dos cafés especiais nacionais, agregando na internacionalização e competividade do nosso produto no cenário mundial. E tudo isso com pequenas reorganizações na operação de colheita dos cafezais com base na qualidade das argilas”.

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