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A cafeicultura em tempos de climas extremos

ESPAÇO ABERTO

EM 22/07/2022

8 MIN DE LEITURA

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Por Ensei Neto


Preparando o solo para plantio de café - Foto: Ensei Neto/Arquivo Pessoal

Há um consenso de que o clima mudou e seus reflexos ainda estão sendo percebidos e compreendidos. A vida em nosso planeta depende de um delicado equilíbrio que a natureza sempre conduziu de forma impecável, mas que a ação humana vem provocando alterações de grande impacto.

Os princípios conceituais de produção e da qualidade de qualquer produto agrícola estão fortemente vinculados às condições climáticas, tendo nas floradas o seu ponto de partida, comentando sobre os cafeeiros.

Sabe-se que a indução dos botões florais e a floração dependem de diversos fatores, como a arquitetura da planta, espaçamento empregado na lavoura e características genéticas, entre outros. Hipoteticamente, vamos admitir que ocorra uma única florada.

A florada e a consequente fecundação definem o potencial produtivo de uma lavoura. É a primeira expectativa que o produtor tem e que lhe permite fazer algumas contas preliminares sobre o que poderá ser seu faturamento ao final da safra.

Sabe-se que plantas de Coffea arabica tem 44 cromossomos, o que lhe dá, digamos, um ar mais esperto em relação às de Coffea canephora, com seus 22 cromossomos.

Cafeeiros mundo novo, bourbon e catuaí se orgulham de não dependerem de terceiros, pois são autopolinizantes, restando uma quantidade marginal que poderia eventualmente ser trabalhada por agentes externos. Os clones de robusta e conilon dependem da ajuda imprescindível das abelhas para que a polinização aconteça.

Se por um lado, o maior número de cromossomos das variedades do Coffea arabica lhe empresta uma suposta superioridade, é onde reside sua maior fragilidade, pois há um evidente processo de seleção até se chegar a um indivíduo com características de homozigoto. Uma característica pura pode ser tanto do bem quanto do mal.

O que dá aos Coffeas canephoras maior capacidade de adaptação é justamente a necessidade de sua fecundação acontecer por polinização cruzada, aumentando exponencialmente a variabilidade das características de seus indivíduos.

Só para lembrar: nosso universo tem como característica ser formado por indivíduos, daí ser tão importante o chamado “olhar estatístico” para tudo o que ocorre na natureza. Não há necessidade de saber fazer os complicados cálculos, mas apenas ter a compreensão do impacto de um evento em relação ao número de envolvidos.

O pólen, que é responsável pela fecundação das flores, basicamente é constituído de proteínas, o que explica a necessidade de dispensar extremo cuidado na sua conservação e em seu uso. Como as flores sempre ficam ao tempo, a intensidade de raios ultravioleta pode afetar a viabilidade do pólen.

Admitindo que nosso planeta é quase esférico, levemente abaulado, para melhor compreender a quantidade de luz num determinado local, criei este gráfico:


Luminosidade ao longo do ano para uma determinada latitude 

Lembro que a latitude tem correlação direta com a quantidade de luz que um determinado local em nosso planeta pode receber ao longo do ano, levando em conta a variação devida ao deslocamento do eixo de rotação, que é de 23º27’.

Anos atrás, quando me iniciei no mercado de café ao trabalhar na fazenda do meu sogro, um fato que me chamava muito a atenção era a quantidade de grãos moca que os lotes produzidos naquela fazenda, na região de Paracatu-Unaí, MG, em relação aos do Triângulo Mineiro, principalmente Patrocínio, onde havia, na época, estrutura comercial mais próxima. Comecei a levantar os dados de diferentes regiões durante 8 anos e cheguei a este gráfico que apresenta a incidência de grãos moca em razão da latitude de produção.


Incidência de grãos moca de acordo com a latitude

Ficou claro que havia uma relação direta entre intensidade de raios ultravioleta com a maior quantidade de mocas nos lotes produzidos em fazendas localizadas em regiões de menores latitudes.

Os trópicos são linhas imaginárias que representam uma, digamos, expansão da linha do Equador, devido à inclinação do eixo rotacional da Terra. Isso explica o porquê do Trópico de Capricórnio ter latitude de exatos 23º27’, passando nos limites do município de São Paulo.

Localidades com maior proximidade à linha do Equador recebem uma carga de ultravioleta muito intensa, porque sua incidência é praticamente perpendicular à Terra, sofrendo menos perdas ao atravessar a atmosfera. Esta é a razão da variação da quantidade de moca em diferentes latitudes.


Grão moca (ou peaberry) torrado - Foto: Ensei Neto

Apesar da glamurização e até gourmetização dos grãos moca, com diversas lendas rurais e urbanas, como a de que é um grão mais denso ou que absorveu os nutrientes de duas sementes, a verdade é que ele representa efetivamente uma perda real de produtividade, pois é resultado de fecundação de um único alojamento. De dois indivíduos potenciais, restou apenas um.

Outro efeito de fecundação defeituosa é a frequência do chamado grão mal formado, que nos países centroamericanos e na Colômbia recebem o nome de flotadores, enquanto que compradores internacionais denominam de floaters, em inglês.


Grãos mal formados ou flutuadores (floaters) - Foto: Ensei Neto

São grãos que possuem estrutura débil, maior fragilidade da parede celulósica e menor capacidade de se tornar um indivíduo completo, o que pode ser inferido como menor quantidade de açúcares e de ácido cítrico, principalmente. Sua densidade é muito menor do que a de um grão saudável, o que leva a um impacto direto na produtividade da lavoura.

A qualidade do café tem relação direta com a uniformidade de um lote, portanto, de como são os indivíduos que compõem esse conjunto. Quanto mais parecidas forem suas características, tanto mais homogêneo é o lote.

A partir da premissa que exista uma única florada, a uniformidade do lote será definida pela chamada “janela de fecundação” das flores, ou seja, a sincronia do ciclo fenológico ou ciclo da fruta. A distribuição das flores numa roseta faz com que cada qual receba diferente carga de luz e consequente exposição ao calor, o que leva aos diferentes momentos de fecundação.

Janelas de fecundação curtas, como aquelas decorrentes de suficiente estresse hídrico, levam à maturação com alta uniformidade.

O que molda a geografia econômica do mundo são os grandes eventos climáticos.

O Brasil é o país produtor de café com a maior amplitude de latitude das suas origens, desde o Maciço do Baturité, no Ceará, com 6º Sul, ao Paraná, com suas regiões subtropicais. Outro aspecto interessante da América do Sul, onde o Brasil ocupa praticamente toda a parte oriental e central, é o formato de triângulo com um dos vértices apontado para o Polo Sul, onde se originam poderosas massas polares que podem levar extremo frio às regiões cafeeiras.

Num passado recente, foram duas as chamadas grandes geadas, a primeira ocorrida em 1975, que mudou o mapa cafeeiro do Brasil ao abrir uma nova região que se tornaria referência em tecnologia e produtividade, o Cerrado Mineiro, ao dizimar cafezais do Norte do Paraná, Alta Paulista, Noroeste e Sorocabana, em São Paulo.

A segunda aconteceu em 1994, coincidindo com a implantação do Plano Real, que fez o país sair de um longo período de hiperinflação. Essa grande geada destruiu mais de 90% do parque cafeeiro do Paraná, além de grandes estragos na Alta Mogiana, Sul de Minas e na novata região do Cerrado Mineiro. Uma nova reconfiguração do mercado aconteceu, desta vez com a emergência de um Tigre Asiático: o Vietnã e seus robustas. Para se ter ideia do crescimento da produção, em 1994 aquele país mal alcançou 250 mil sacas de 60 kg, sendo hoje o segundo maior produtor mundial de café, com mais de 30 milhões de sacas de 60 kg.

A geada cria desdobramentos por pelo menos dois anos seguintes, tanto no campo das cotações e preços, com efeitos imediatos, como no desempenho das lavouras, resultados que são percebidos gradativamente.

O efeito mais perverso é o da seca prolongada após o intenso resfriamento, similar ao que o ar condicionado faz no ambiente. A estiagem que se segue tem na amplitude térmica exagerada sua maior marca. O ar seco se constitui em barreira menor para a incidência dos raios ultravioletas, que chegam com maior intensidade à superfície da Terra.

Fenômenos climáticos que mais têm recebido atenção nos últimos anos é a dupla El Niño e La Niña, que ficaram conhecidos ainda na década de 1990. Quando atuam, modificam dramaticamente a distribuição de chuvas na América do Sul, com reflexos extremamente fortes no Brasil.

Neste estudo climático, foi feito um extrato das temperaturas em anos de La Niña, cujos resultados apresento a seguir:


Observe que existe uma regularidade na chegada das massas polares e, após a segunda onda, a amplitude térmica se torna muito grande, acima de 12ºC de diferença.

Em 2021, as duas ondas se confirmaram, talvez com maior intensidade pelo fato de ter ocorrido o fenômeno La Niña pelo terceiro ano consecutivo, algo inédito até então.

A estiagem que se seguiu foi uma das maiores já vistas em diversas partes do Brasil, principalmente na faixa onde se localiza a chamada “calha de convergência climática”, abrangendo estados como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná, ou seja, correspondendo a uma área responsável por mais de 70% da produção agrícola brasileira.

O ar extremamente seco com altas temperaturas, devido à pouca barreira enfrentada pelos raios ultravioleta, levou a um efeito até então pouco visto, com a perda da capacidade de fecundação das flores dos cafeeiros. O pólen foi definitivamente afetado pelo calor extremo, desnaturando-se, e, como resultado, levando a uma baixíssima taxa de fecundação em algumas regiões.

Um dos locais que esse efeito de clima foi extremo, em 2021, foi o Cerrado Mineiro, cuja análise está neste gráfico:


Temperatura e Fecundação - Fonte: Agrobee Tech

Em algumas regiões, já estão sendo enviados aos armazéns os primeiros lotes da atual safra e, em boa parte deles, está sendo observado uma quantidade muito acima do normal de grãos moca. Isso representa uma irreparável quebra de produção.

O clima já se mostrou muito seco ainda em fins de junho, quando se esperava uma onda de frio tão intensa quanto a observada em meados de maio. No entanto, o que se observou foi o gradativo aumento da amplitude térmica, que agora, em meados de julho, atingiu mais de 15ºC em diversas regiões cafeeiras.

Quais as estratégias que podem ser adotadas para minimizar o impacto desse cenário de clima extremo? Como deve se reconfigurar o mercado de café ante essas mudanças climáticas?

Existem algumas alternativas que têm se mostrado eficazes, como a polinização assistida e o controle biológico de pragas e doenças, além de manejo conservacionista nos cafezais, que enfocarei em breve!

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