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Quem ganha com isso?

BRUNO VARELLA MIRANDA

EM 30/04/2021

4 MIN DE LEITURA

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Organizada recentemente pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, a chamada Cúpula do Clima acende um sinal de alerta. Embora o encontro tenha apresentado pouco mais que uma série de promessas, a tendência é clara: discussões sobre as causas e consequências das mudanças climáticas ocuparão o protagonismo nos próximos anos. Afinal, nem mesmo a tensão geopolítica impediu que rivais dos Estados Unidos, como os líderes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, boicotassem o encontro. Há temas que são relevantes demais para a birra.  

O mesmo vale para o governo do Brasil. Jair Bolsonaro não apenas compareceu, como fez um discurso em que contradisse boa parte daquilo que vinha dizendo ao apresentar sua visão para a Amazônia. Inspirada pelos conselhos de diplomatas e assessores, a postura reflete uma preocupação crescente. É provável que a questão ambiental seja a variável determinante para explicar o padrão de participação do Brasil nas relações internacionais nessa década que começou repleta de turbulências. Negar-se a cooperar significaria isolamento e, com isso, dificuldades ainda maiores para implementar qualquer agenda econômica minimamente liberal.  

Diante da hipocrisia costumeira nos debates sobre a agenda ambiental global, muitos se perguntam do lado brasileiro: quem pagará a conta da preservação ambiental? Justo. Após décadas de aceleradas emissões de gases de efeito estufa (GEE) por parte dos países desenvolvidos, não faria sentido cobrar do mundo em desenvolvimento tamanho sacrifício. No entanto, não estamos diante da única pergunta possível. Poderíamos perguntar, com a mesma desenvoltura: quem ganha com a aceleração do desmatamento na Amazônia brasileira? Vejamos.  

No curto prazo, o avanço da agricultura sobre a Amazônia poderia significar preços mais baixos para os consumidores dos centros urbanos do Brasil. Um caso óbvio seria o da carne – desde que, é claro, o apetite do mercado internacional pelo produto arrefecesse. No longo prazo, porém, os potenciais custos derivados da destruição da Amazônia são consideráveis. Uma mudança profunda no regime de chuvas, por exemplo, poderia levar a um aumento ainda maior dos custos de geração de eletricidade. A oferta de água também seria afetada.    

Empresas poderiam garantir uma expansão da oferta de matérias-primas e produtos no curto prazo, reduzindo custos e, quem sabe, aumentando lucros. Com o passar do tempo, porém, possivelmente terão que lidar com a resistência crescente dos consumidores à adoção de determinadas práticas nas áreas ambiental e social. Bancos e fundos de investimento também poderiam dificultar o acesso a linhas de financiamento e oportunidades de negócio a empresas sem uma agenda ambiental consistente. Para as empresas multinacionais, o desafio deverá surgir de acionistas “ativistas” e cidadãos descontentes em seus países de origem.  

Uma rápida integração do território amazônico por meio de uma expansão da produção agrícola agradaria boa parte do Exército, cujo pensamento estratégico está assentado na ideia de que a Amazônia é a última “fronteira” do Brasil a ser ocupada. Entretanto, uma ocupação desordenada do espaço amazônico significaria o avanço de mafias e do crime organizado, dificultando o exercício da soberania na região. Ao menos é essa a tendência atual.   

Para o agronegócio brasileiro, a impressão pode ser a de que os adversários nessa “batalha” são os mesmos de outras polêmicas. Assim, faria sentido unir esforços em defesa dos interesses do setor contra potências estrangeiras ou organizações não governamentais. Uma vez mais, porém, as perdas no longo prazo tendem a ser superiores a qualquer ganho no curto prazo. Afinal, a reputação de um setor acostumado a levantar a bandeira da eficiência no uso dos recursos naturais sairia fatalmente arranhada dessa controvérsia. Ademais, os custos ambientais do avanço do desmatamento na Amazônia podem afetar a própria competitividade do agronegócio brasileiro. Nunca é demais lembrar, somos líderes porque fomos capazes de garantir um excelente nível de alinhamento entre as condições naturais únicas do Brasil e as tecnologias disponíveis, muitas delas criadas com capital e inteligência made in Brazil. Se as condições naturais mudarem, precisaremos de novas tecnologias em um momento de limitados investimentos brasileiros em pesquisa.

Quem, então, ganharia com o avanço do desmatamento da Amazônia? No longo prazo, ninguém. Se a destruição da floresta avança, não é porque componha um plano com objetivos estratégicos coerentes. Uma lógica predatória continua a predominar nas estratégias de ocupação da região porque, em grande medida, a agenda ambiental brasileira se encontra capturada por agentes com interesses concentrados no curtíssimo prazo. A lógica vale tanto para grupos dedicados a um modelo arcaico de exploração dos recursos naturais da região quanto para grupos políticos preocupados em garantir o apoio de uma coalizão mínima para as próximas eleições.

Dessa maneira, não limitemos o número de perguntas a serem debatidas. Discutamos quem pagará a conta da preservação ambiental, claro. Ao mesmo tempo, discutamos quem ganha com o desmatamento. Fundamentalmente, não nos enganemos. As discussões retomadas com a Cúpula do Clima vão além da mera preocupação com o futuro das florestas tropicais. O que está em jogo é o modelo de desenvolvimento a guiar as ações humanas ao longo das próximas décadas. Países como a China e os Estados Unidos já perceberam a magnitude do desafio, traçando planos ambiciosos que buscam fomentar a inovação tecnológica e a adaptação do território e das atividades econômicas a um cenário de intensas transformações.

E o Brasil, como lidará com os desafios do século XXI?  

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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