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Onde começa a crise?

POR BRUNO VARELLA MIRANDA

E SYLVIA SAES

BRUNO VARELLA MIRANDA

EM 15/09/2011

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A popularização da Internet nos garante uma quantidade considerável de informação diariamente. Com apenas um comando, somos capazes de ler notícias publicadas pelos mais diversos jornais, conhecer a opinião de famosos e anônimos acerca de temas variados. Ademais, é crescente o cerco sobre a vida dos famosos e, por que não, sobre nossa própria existência. Desde meados da década de 1990, tudo parece nos interessar, desde as questões mais fúteis até as mais relevantes.

Os efeitos dessa revolução na disseminação de dados sobre a vida humana constituem um tópico de considerável debate. Embora sejam inegáveis as vantagens trazidas pela Internet, seguimos com capacidades cognitivas semelhantes; em outras palavras, não se pode dizer que nosso dom de processar informação seja capaz de acompanhar o seu crescimento exponencial. Indo além, Mario Vargas Llosa acredita que a Internet esteja mudando nossa própria atitude em relação ao conhecimento: mais impacientes devido à rapidez para a sua obtenção e à oferta crescente, estamos perdendo o hábito da concentração durante longos períodos de tempo.

Deixemos, porém, a discussão acerca dos aspectos cognitivos relacionados à tecnologia para um outro momento. Essa longa introdução, na verdade, não é mais do que o reflexo de nossa dificuldade de produzir algo original em uma data tão visada por colunistas e blogueiros. Era impossível não escrever sobre o 11 de setembro. Discorrer sobre o tema, porém, significaria se juntar aos milhões de textos já publicados, muitos dos quais com enorme qualidade. Como acrescentar algo novo a esse debate, então?

Nos últimos dias, muito tem se falado sobre o efeito dos atentados terroristas aos EUA. É comum encontrar análises que relacionem esses eventos a um declínio do poder norte-americano no globo. Ao longo de uma década, marcos históricos são facilmente encontrados.

Pois bem, queremos fazer algumas ressalvas a essa linha de raciocínio. Mais especificamente, consideramos que as dificuldades enfrentadas pelos EUA na atualidade se devem menos a Bin Laden do que muitos imaginam.

Embora um evento lamentável, o 11/09, sob uma lógica econômica, não é mais do que a prova de que os seres humanos podem usar a sua inesgotável criatividade tanto para o bem quanto para o mal. Nesse sentido, os atentados terroristas são semelhantes a outros eventos infames da história mundial, não evitados porque nem sempre as forças dedicadas a impedi-los são tão criativas ou eficientes. Nunca é demais lembrar, já na década de 1990 extremistas árabes tentaram derrubar o World Trade Center, sem êxito.

É verdade que, graças aos atentados terroristas, as despesas militares dos EUA dispararam, complicando ainda mais a situação atual. Os gastos norte-americanos, porém, têm mais a ver com a predisposição do governo a intervir em áreas consideradas estratégicas do que ao atentado em si. Isso é especialmente verdadeiro no caso do Iraque. Seja por causa do petróleo, para reparar um arrependimento do pai, pela existência de armas químicas e biológicas ou para levar a democracia ao Oriente Médio, não importa; basta enfatizarmos que a decisão de George W. Bush, aconselhado por seus assessores, vai além dos atentados terroristas. Para caçar Bin Laden, bastaria uma intervenção do Afeganistão, com o apoio de ampla coalização de países.

Se a importância dos EUA está diminuindo no mundo, conforme muitos argumentam, espera-se que alguém esteja se equiparando ao "Império". Ora, a economia da China não cresce porque Osama Bin Laden contou com a colaboração de algumas dezenas de fanáticos religiosos. Se os chineses ganham um papel crescente no cenário internacional, é por seu inesgotável estoque de mão de obra e mercado consumidor crescente, apenas para citar duas de suas características mais importantes.

Os norte-americanos, entretanto, passam por dificuldades econômicas, não? Se não é por causa do Bin Laden, quem é o culpado? Acreditamos que, em certa medida, é o objeto dos primeiros dois parágrafos uma razão indireta importante para a atual crise. A Internet, ela mesmo, além de nos trazer uma quantidade enorme de informação diariamente, possibilitou a criação de um mercado gigantesco em meados da década de 1990. Eram momentos "felizes" nos EUA: crescimento acelerado, lucros em alta, a impressão de que o liberalismo alcançaria todas as partes do globo, enfim, havia chegado o "fim da história", como afirmou Francis Fukuyama.

Chegou um momento, porém, que esse mercado não tinha mais como crescer. Resultado: o estouro da bolha. O mundo que assistiu aos ataques ao World Trade Center vinha desse chacoalhão no "mercado .com", enquanto os seus participantes, mimados, seguiam sedentos pelos lucros da década de 1990. A solução encontrada pelos norte-americanos: ainda mais desregulamentação, com a abertura para a consolidação de práticas que culminariam nas crises de 2008 e nas atividades atuais.

Obviamente, a história é mais complexa do que os cerca de 5.000 caracteres desse texto parecem demonstrar. O que queremos demonstrar é que, ainda que o World Trade Center estivesse de pé, é provável que os EUA estariam em dificuldades. Afinal, as políticas relacionadas ao mercado financeiro pouco têm a ver com o Bin Laden, como tampouco o tem o apetite dos neo-conservadores por objetivos estratégicos dos norte-americanos. Com respostas distintas, o 11/09 talvez ficasse na história como um triste evento, seguido por uma crise de confiança dos consumidores norte-americanos destinada a sumir com o passar dos dias. Infelizmente, o buraco o qual nos metemos é mais fundo do que o causado por qualquer fanático religioso.

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

SYLVIA SAES

Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)

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