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O evangelho segundo Steve Jobs

POR BRUNO VARELLA MIRANDA

E SYLVIA SAES

BRUNO VARELLA MIRANDA

EM 14/10/2011

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A morte de Steve Jobs foi, sem dúvida, o tema mais explorado pela impresa nos últimos dias. Ao ser vencido pelo câncer no auge de sua carreira, Jobs motivou uma comoção ainda maior do que aquela que, de qualquer maneira, atingiria os chamados "Applemaníacos". De uma hora para outra, mesmo quem nunca teve um produto da empresa se viu discutindo o significado da vida e da obra e, como não poderia deixar de ser, da morte desse grande homem de negócios.

Chama a atenção, entre as diversas abordagens para esse triste evento, a busca pelo lado humano de Steve Jobs. O discurso feito pelo fundador da Apple na Universidade de Stanford passou a ser um dos vídeos mais assistidos na Internet, e não são poucos os que exaltam a trajetória do cérebro por trás da Apple. Visionário, profeta, gênio: desde a sua morte, quantos adjetivos engrandecedores já não escutamos ao nos depararmos com sua descrição. De repente, é como se Jobs tivesse algo muito importante para nos dizer, uma verdade que ele guardou ao longo de sua vida e que precisa ser levada adiante.

É inegável que Jobs foi um grande homem de negócios, provavelmente um dos melhores de sua geração. No entanto, assim como todos nós, não é mais do que um ser humano. Suas palavras em Stanford, inspiradoras, não ocultam o fato de que, em sua brilhante trajetória, inúmeros erros foram cometidos. Alguns deles foram sanados ao longo do tempo, como o tardio reconhecimento de sua primeira filha. Outros, como a tímida resposta às duras condições de trabalho nas montadoras dos produtos da Apple, seguem pendentes.

Ademais, nos parece um pouco exagerado dizer que Steve Jobs foi o responsável por uma revolução. O próprio líder da Apple fornece evidências para nosso argumento. Entre todas as frases ditas por Jobs, talvez a que mais nos chamou a atenção é a seguinte: o consumidor não sabe o que quer, até o momento em que você mostre algo novo a ele. Essa conclusão é extremamente importante, pois nos leva a refletir sobre o que garante o êxito de um determinado produto no mercado.

Do ponto de vista do empreendedor, é natural que a preocupação esteja naquilo que é mostrado aos consumidores. Ninguém melhor do que Jobs para exemplificar isso. Aqui, porém, queremos entender o consumidor. Ao que tudo indica, o consumidor realmente não sabe bem o que quer a maior parte do tempo. Indo além, embora não tenha idéia do que queira, está sempre buscando algo novo. É justamente essa curiosidade o que garante a matéria-prima para sujeitos habilidosos como Jobs.

Em outras palavras, Jobs não foi o responsável por preencher um anseio antigo da humanidade, descobrindo algo que há muito se esperava. Em outras palavras, não descobriu a cura de uma doença ou ampliou os limites da física teórica. O que Jobs fez, com maestria, foi fazer uma leitura do mundo ao redor, combinar elementos já existentes e oferecer produtos a consumidores ávidos por novidades. Em troca, conseguiu os bilhões de dólares que compõem o seu patrimônio.

Trata-se de uma conquista cuja obtenção não depende apenas de conhecimento técnico. Seu parceiro nos primeiros tempos de Apple, Steve Wozniak, talvez soubesse mais sobre computadores há 30 anos atrás. Jobs, porém, era imbatível nos negócios. Soube aliar produtos com potencial a uma postura agressiva, o que lhe rendeu inúmeros frutos e incontáveis inimigos. Dito de outra forma, não foi apenas um inventor desprendido oferecendo soluções aos humanos, e sim um ativo defensor de seus interesses financeiros. É interessante observar como pouco se tem falado sobre isso, ao menos quando se compara com o foco dado ao design dos produtos. Não por acaso, houve quem comparasse Jobs a Da Vinci, o que nos parece outro exagero.

O próprio Jobs reconheceu, em seu agora famoso discurso na Universidade de Stanford, que os eventos de nossas vidas somente fazem sentido quando olhados retrospectivamente. Certamente Jobs não tinha idéia do império empresarial que construiria quando abandonou a universidade. Queremos ir além: não adianta olharmos apenas para trás em busca do segredo para o êxito de Jobs, dado que, inevitavelmente, faremos uma leitura incompleta de sua complexa trajetória.

Se quisermos compreender o que leva determinados empreendedores a acumularem bilhões em suas contas, precisamos entender, em primeiro lugar, o momento histórico em que vivemos. Se dinheiro é o critério relevante para analisar o êxito de alguém, é importante entender quais as oportunidades dadas pelos sistemas sociais para a sua acumulação. Ademais, é fundamental olharmos para os anseios dos humanos naquele momento histórico específico. Se Jobs chegou ao patamar que chegou, é principalmente porque milhões de pessoas, por variados motivos, acreditam que os seus produtos são parte fundamental de suas rotinas.

Como fomos capazes de sobreviver alguns milênios sem Ipads e Ipods, nos parece claro que o segredo do êxito não está apenas no produto em si, e sim em quem os compra. Em uma sociedade viciada por novidades, e que baseia a diferenciação entre os seus integrantes de acordo com a posse de determinados utensílios, é provável que não demore muito até que outros Jobs apareçam, se é que já não estão por aí. Fica, então, o convite para que outros se arrisquem a ocupar o seu lugar.

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

SYLVIA SAES

Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)

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