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Novos concorrentes: ameaça ou oportunidade?

POR BRUNO VARELLA MIRANDA

E SYLVIA SAES

BRUNO VARELLA MIRANDA

EM 30/08/2011

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Duas notícias chamaram a nossa atenção na última quinzena. A primeira nos informa que o governo de Moçambique deseja estimular a ida de agricultores brasileiros interessados em investir no país. A área reservada, equivalente a três Sergipes, seria utilizada para o cultivo de soja, milho e algodão. As condições, a princípio, são bastante atrativas para os investidores: um baixíssimo imposto de concessão e leis ambientais menos restritivas.
É impossível não nos questionarmos o porquê de os brasileiros terem sido os escolhidos para comandar a expansão agrícola em Moçambique. Sem menosprezar os aspectos culturais e políticos envolvidos nessa empreitada, se atualmente é tão interessante para Moçambique contar com agricultores brasileiros em seu território, o principal motivo é o nível de desenvolvimento tecnológico detido pelo país no cultivo de áreas semelhantes, especialmente o cerrado. Trata-se da principal credencial do Brasil, certamente usada por diplomatas e por investidores no momento de negociar um acordo.
Tendo as ambições de Moçambique em mente, queremos comentar o plano dos chineses de aumentar a sua produção de café. Os detalhes dessa idéia, aos poucos, vão sendo divulgados; com isso, aumenta a apreensão de muitos produtores brasileiros. Basta observarmos a realidade em outros setores da economia para reconhecermos que os temores são, a princípio, justificáveis. Sempre que passa a competir em um mercado, a China representa uma "ameaça".
Não queremos, porém, falar sobre salários de trabalhadores, apoio explícito do governo, ou qualquer um dos argumentos comuns quando se fala da China. Afinal, no curto prazo, independe de qualquer ação brasileira a decisão chinesa de entrar com tudo no ramo da produção de café. Queixas acerca das peculiaridades do sistema produtivo do gigante asiático certamente não vão melhorar em nada a situação. Melhor é tentarmos refletir sobre o significado desse fato novo, apontando possíveis estratégias de adaptação.
Durante décadas sonhamos com um bilhão de chineses tomando uma xícara de café por dia; talvez por isso, soe como um pesadelo a idéia de que eles passem a produzir a própria bebida! Não é o caso. A expansão da cafeicultura na China traz oportunidades para os brasileiros. Ora, todo o conhecimento acumulado por produtores, pesquisadores e empresários ligados ao setor vale muito. Já que outros países desejam entrar no mercado, e o farão de qualquer maneira, nada melhor do que transferir parte desse conhecimento em troca de uma recompensa adequada.
A Colômbia parece estar atenta a esse movimento, oferecendo o seu conhecimento para viabilizar os planos chineses. Mais do que isso, pode abrir caminho para relações estratégicas entre os agentes econômicos dos dois países. Junto com a sua experiência na cafeicultura, os colombianos levariam também um produto reconhecido internacionalmente. No curto prazo isso pode fazer pouca diferença nos números mas, com o tempo, aí está uma porta que pode render bons frutos aos que saibam construí-la.
Por sinal, é improvável que a produção da China dê conta da demanda crescente, ainda mais quando se tem em conta que o crescimento da renda levará ao fortalecimento dos nichos de mercado. Não acreditamos que os chineses amantes do café se contentem apenas com os grãos de Yunnan. São inúmeros os exemplos de deslumbramento da classe média emergente lá instalada diante de símbolos do Ocidente, refletido em um consumismo desenfreado. Aproveitemos, assim, os tempos de bonança para também deixar uma imagem positiva de nosso produto em um mercado com tamanho potencial.
Devemos olhar os atuais movimentos, em resumo, interessados em identificarmos as oportunidades existentes. Na maioria dos casos, pouco podemos fazer para evitar o acirramento da competição; melhor estratégia parece ser nos adaptarmos ao novo estado das coisas. É justamente aí que entra o nosso conhecimento. Inclusive, é provável que, nas próximas décadas, seja essa a variável que decida a sobrevivência de agentes, regiões ou até países no mercado internacional.
Dito de outra forma: caso as previsões dos cientistas se concretizem, tecnologia passará a ser praticamente um pré-requisito para muitas culturas agrícolas. Já nos dias atuais, os cafezais em diversas áreas da América Central e do Sul sofrem com as mudanças climáticas, demonstrando a necessidade de uma estratégia de adaptação para o médio prazo. É possível que a expansão da agricultura em outras áreas, ao invés de uma ameaça, venha em boa hora; podemos lucrar com a venda de conhecimento e, assim, garantir os recursos para pesquisas voltadas a nossa realidade.

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

SYLVIA SAES

Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)

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