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Mais hierarquia para um Brasil melhor?

Entre os muitos aspectos debatidos à exaustão durante o atual ciclo eleitoral, algo que chama a atenção é a relativa frequência com que as palavras “autoridade” e “hierarquia” são trazidas para a conversa. Tendo em vista a liderança do candidato Jair Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência do Brasil, a recorrência no uso dos termos faz sentido. Ainda assim, não deixa de causar estranheza. Por momentos, o seu uso insistente parece sugerir uma panaceia para os problemas brasileiros. Será o caso?

Deixando de lado os aspectos mais polêmicos dessa discussão – já discutidos fartamente em outras esferas –, vale a pena refletirmos por um momento sobre as implicações do uso frequente de termos como “autoridade” e “hierarquia” na defesa de uma determinada plataforma política e ideal de gestão. Fundamentalmente, quando falamos de “hierarquia” nos referimos a um mecanismo de governança. Nele, os níveis superiores na cadeia de decisão têm a prerrogativa de encaminhar a solução para um problema e, eventualmente, adotar medidas punitivas contra transgressores. Logo, o estabelecimento de uma hierarquia rígida – o tal “respeito à autoridade que se perdeu com o tempo...” – representaria uma forma eficiente de manutenção da ordem. 

Na teoria, entretanto, faltam muitos pressupostos e nuances que afetam a prática. É bem verdade, a hierarquia costuma funcionar de forma relativamente eficiente em cenários marcados pela baixa incerteza e fácil definição das tarefas de uma equipe. Entretanto, tais situações são a exceção, mais do que a regra. O mundo é um lugar incerto, em que a adaptação ao novo é um desafio constante. O desafio vale tanto para empresas quanto para países: uma leitura equivocada dos rumos da história pode acabar em falência ou em crise prolongada.

Pois bem, é aí que a hierarquia rígida costuma falhar. Sempre que permeada por um cenário de incerteza, uma organização depende do envolvimento ativo de seus integrantes para encontrar respostas aos desafios emergentes. Quanto mais cabeças pensando juntas, maior a probabilidade de desenho de uma solução efetiva. Em outras palavras, organizações demasiado hierarquizadas geralmente “sofrem” para inovar – se é que o fazem. Tampouco parecem capazes de se adaptar diante de mudanças relevantes no ambiente ao redor. Afinal, a falta de autonomia típica nas organizações demasiado hierarquizadas se traduz na dependência das ideias e opiniões da liderança. Como ninguém detém toda a informação relevante para interpretar o mundo, a dificuldade é uma consequência natural.    

Não deixa de ser interessante observar que os mais ferrenhos usuários de termos como “hierarquia” e “autoridade” são também os mais preocupados com um suposto avanço de novas formas de “comunismo” na sociedade brasileira. Entre as muitas causas para o fracasso dos regimes socialistas ao longo do século XX, a dependência de estruturas demasiado hierarquizadas tem papel preponderante. Apenas para citar um exemplo, a definição centralizada de metas na União Soviética reduzia o incentivo para o envolvimento dos trabalhadores na rotina das indústrias. Com isso, afetava tanto a motivação dos trabalhadores quanto o compartilhamento de informações relevantes que poderiam inspirar inovações no futuro.

Por sinal, hierarquia em excesso afeta, sobretudo, a motivação dos participantes de qualquer grupo de pessoas com anseios, preferências e conhecimentos heterogêneos. Uma cadeia de comando rígida pode até funcionar naqueles casos marcados por tarefas previsíveis e por um forte compartilhamento de valores e ideais. Em cenários de diversidade, porém, faz-se necessário pensar em mecanismos de governança alternativos. E o que pode ser pior, o estabelecimento de uma hierarquia não implica a automática resolução dos conflitos. De fato, em muitos casos estruturas hierarquizadas apenas os aprofundam – o que muda é apenas a forma como tais discordâncias são resolvidas.

Existem bons motivos para refletirmos com cuidado sobre o modelo de organização de uma sociedade. Desnecessário lembrar, sem heterogeneidade e possíveis contradições entre as visões das pessoas inexiste inovação, um motor fundamental para a vitalidade de qualquer grupo de humanos. Trata-se de uma lógica que vale também para o Estado. Dessa maneira, limitemos a hierarquia àquelas atividades em que o mecanismo pode dar uma resposta organizacional efetiva. Ao buscar soluções para os problemas brasileiros, adotemos uma perspectiva mais aberta sobre o papel dos mecanismos de governança na organização de nossa rotina. 

Mais do que “autoridade” e “hierarquia”, o Brasil precisa de um reforço em termos e mecanismos como “cidadania” e “democracia”. Se o passado – ou as experiências de outros países – servem de exemplo para nossas escolhas, aí estão ideias encontradas na descrição de processos de desenvolvimento econômico e social ao redor do globo. Deixemos as panaceias para o pobre debate geralmente encontrado nas redes sociais, e tratemos de contribuir para a construção de uma visão mais rica para o futuro da governança do Brasil.

BRUNO VARELLA MIRANDA

Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri - Columbia.

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