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Criar para não depender

POR SYLVIA SAES

E BRUNO VARELLA MIRANDA

BRUNO VARELLA MIRANDA

EM 29/09/2010

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Dando continuidade ao artigo da última quinzena, gostaríamos de aprofundar um pouco mais nosso argumento. Longe de esgotar um debate tão complexo, queremos dar exemplos práticos daquilo que consideramos um possível caminho de reinserção da agropecuária na sociedade brasileira. Outras possibilidades, como a exploração dos serviços ambientais e do turismo, embora não sejam o foco desse texto, também devem ser consideradas.

Antes de iniciar, porém, é importante uma ressalva: em grande medida, as tendências que identificamos já fazem parte da realidade. Tanto isso é verdade que daremos exemplos ao final do texto. Nosso esforço, assim, busca consolidar ideias, abrindo espaço para o aprofundamento do debate e a geração de conhecimento útil aos agentes econômicos.

Isso posto, lançamos a seguinte pergunta: quais são os pré-requisitos para a exploração de oportunidades de negócio no mercado? Trata-se de uma questão de difícil resposta, sem dúvida, devido à heterogeneidade dos setores da economia e dos agentes. Para a presente discussão, salientaremos dois desses requisitos, quais sejam: o contato com os consumidores e a capacidade de responder às suas demandas por meio da criação de novos produtos.

Mais especificamente, a observação dos consumidores é fundamental. Interagir com as pessoas permite identificar seus anseios e rejeições. É a identificação dessas preferências o que permite aos agentes econômicos criar novos produtos. Esse processo se dá, por exemplo, por meio da combinação de diversos elementos encontrados no mercado, a fim de oferecer uma novidade. No caso do produtor rural, a própria diversidade do espaço em que vive permite a coleta e o rearranjo desses "ingredientes".

Muitos produtores rurais, porém, devido ao distanciamento dos consumidores, são incapazes de observar essas preferências. Com isso, subutilizam muitos dos elementos existentes em suas propriedades, e que poderiam compor novidades no mercado. A busca por escala e por produtos homogêneos é muitas vezes enfatizada, em detrimento do aproveitamento do potencial existente em outros modelos de interação com a sociedade.

Não raramente, o resultado dessa realidade é a insatisfação do produtor rural. Sentindo-se em um quadro de dependência absoluta de outros agentes econômicos, desanima, procurando outras atividades. A situação é especialmente dramática naqueles casos em que, por características da propriedade, a obtenção da escala necessária para a entrada no mercado acarreta sacrifícios exagerados.

O ser humano, criativo por natureza, precisa da interação com seus semelhantes para se satisfazer. O mercado é, em grande medida, um espaço de excelência para tal hábito. Basta lembramos, por exemplo, da importância da negociação nos bazares localizados nos países árabes, ou o simbolismo associado ao ato de ida às compras há apenas algumas décadas. Dessa maneira, aproximar o produtor rural daqueles que consomem seus produtos traz benefícios que extrapolam a esfera econômica.

Exemplo disso é a ascensão do movimento "local food" em diversos países do Hemisfério Norte. Baseado na defesa do consumo de alimentos produzidos nas proximidades dos centros urbanos, este permite um contato mais próximo entre as duas pontas da cadeia. Em consequência, os agricultores passam a se responsabilizar diretamente pela satisfação daqueles que se alimentam de sua produção, algo que os valoriza socialmente e permite a apresentação de novas alternativas aos consumidores.

Nos EUA, os Amish, comunidade religiosa conhecida por seu conservadorismo, oferece exemplo interessante quando o assunto é a interação com os consumidores. Na Pensilvânia, os Amish possuem uma série de lojas dedicadas a comercializar produtos tradicionais. Além disso, organizam feiras nas principais cidades, como Filadélfia, onde vendem, além de legumes, frutas e verduras, pão orgânico e receitas típicas. O resultado: interação com outras pessoas, algo não trivial para um grupo tão isolado como os Amish, e o sustento de muitas famílias.

Finalmente, há que se destacar o esforço, em muitos casos de ordem didática, de diversos cafeicultores no sentido de se aproximar de seus consumidores. Por meio da exploração das características específicas de sua propriedade, esses produtores têm conseguido estabelecer laços com um número crescente de pessoas, o que se reflete em ganhos maiores. A Internet, inclusive, é uma aliada desses empreendedores, que paulatinamente consolidam as particularidades do seu negócio perante consumidores de todo o mundo.

Produtores baseados em áreas próximas a centros urbanos importantes, e que tenham dificuldade em competir sob a lógica predominante na atualidade, podem aliar uma boa gestão à exploração de novas oportunidades de negócio. Aproximando-se dos consumidores e estabelecendo nossos modelos de cooperação horizontal com outros agricultores, podem ter a oportunidade de satisfazer diretamente as demandas dos consumidores, colhendo os resultados desse esforço.

Portanto, em lugar das complexas cadeias observadas na atualidade, são necessários arranjos mais simples, e que viabilizem a interação direta entre produtores rurais e consumidores. Evidentemente, isso não serve para todos os casos, de modo que há espaço para todos. É importante, porém, criar condições para que a heterogeneidade existente em nossa sociedade não seja prejudicada pela ascensão de modelos insensíveis a essa realidade.

SYLVIA SAES

Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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