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A Amazônia e o agronegócio brasileiro

BRUNO VARELLA MIRANDA

EM 30/06/2020

3 MIN DE LEITURA

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Muito se discute sobre como a imagem do Brasil afeta o acesso ao mercado internacional de nossos produtos agrícolas. Trata-se de um debate difícil, tendo em vista o seu nível de abstração. Afinal, podemos passar horas discutindo se uma única imagem poderia representar a enorme diversidade existente no território brasileiro. Somos o conjunto de distintos modelos de negócio, paisagens e clientes – e, portanto, de desafios e potencialidades particulares. Por sinal, a força do agronegócio brasileiro deriva justamente dessa diversidade.

Ainda assim, algumas representações da realidade brasileira parecem capturar a atenção de consumidores e grupos de interesse com maior intensidade. Talvez o melhor exemplo seja a Amazônia. Mesmo o valor potencial daquilo que é produzido em outras regiões do país é afetado pelo que é feito no Norte brasileiro. Discussões sobre o papel da marca Made in Brazil em uma estratégia de acesso ao mercado internacional de produtos agrícolas devem, necessariamente, abordar os desafios da região amazônica de maneira profunda.

Para que tais desafios sejam levados em consideração, é preciso realismo. Entretanto, tal qualidade parece faltar nas concepções de muitos daqueles que concebem – e implementam – projetos de desenvolvimento na região. Não raramente, a impressão é a de que o objetivo é a ocupação de um “espaço vazio” para que outros países não o ocupem. Potenciais parceiros, como organizações não governamentais e comunidades locais, são vistos como inimigos detentores de interesses ocultos. A obsessão é com o controle do território, custe o que custar.

O problema é que a região amazônica nunca foi um “espaço vazio”. Em pleno século XXI, é possível ir além e refletir sobre os desafios de um território ocupado e dinâmico. Conforme nos lembra a obra da geógrafa Bertha Becker, a Amazônia é uma “floresta urbanizada”. Uma rápida análise dos dados nos revela uma região em que a maioria de seus habitantes vive na periferia de cidades, convivendo com a falta de infraestrutura, limitadas oportunidades econômicas e a violência endêmica.

Nunca é demais lembrar, as dificuldades também são encontradas fora dos centros urbanos. Diversos estudos ilustram as intensas relações entre a Amazônia “urbana” e a Amazônia “rural”, descrevendo as complexas estratégias adotadas pela maioria das famílias da região para garantir o seu sustento. Em um contexto marcado pelos vácuos institucionais, vale ressaltar as palavras do geógrafo Miguel Pinedo-Vasquez: na Amazônia, muitas famílias estão “sempre prontas para a possibilidade de mudança”.     

De forma marcante, tal mobilidade afeta mesmo quem se beneficia de iniciativas do Estado. O assentamento típico da região amazônica nos revela um vibrante mercado de terras, com uma alta taxa de transferência da propriedade e tendência à concentração de terras. O desfecho não chega a surpreender, tamanhas as dificuldades enfrentadas pelos pequenos agricultores da Amazônia para comercializar a sua produção. Por sua vez, as redes familiares que se espalham por paisagens urbanas e rurais o fazem, entre outros motivos, como forma de tirar proveito dos programas estatais de transferência de renda.  

Diante de tantos desafios, acreditar que uma regularização fundiária apressada será suficiente para resolver os problemas amazônicos é exagerar no otimismo ou adotar uma perspectiva exageradamente limitada para avaliar o potencial econômico da região. Para além dos maniqueísmos, o passado recente nos ensina algumas lições. As primeiras análises do programa Terra Legal, adotado em tempos de administração do Partido dos Trabalhadores, mostram que a redução do desmatamento e a adoção de técnicas sustentáveis de agricultura dependem da transferência de conhecimento – algo que, só será possível com o estabelecimento de uma rede de apoio consistente. As notícias recentes tampouco são alentadoras, tendo em vista as tendências preocupantes para variáveis como conflitos fundiários e a insistente pobreza na região.

Por isso, repensar o desenvolvimento da região amazônica é preciso. Ou, melhor dizendo, faz-se necessário operacionalizar o imenso conhecimento acumulado desde os anos 1970 por pesquisadores e membros das comunidades locais, adotando uma visão mais realista do contexto amazônico que se traduza em iniciativas que promovam o desenvolvimento sustentável da região. O tema deveria ser prioritário para todos nós. Afinal, a implementação de um projeto ambicioso para a Amazônia nos permitirá reforçar a imagem positiva do Brasil no exterior, potencializando as oportunidades de criação de valor relacionadas à marca Made in Brazil.  

Enquanto esse dia não chega, seguiremos convivendo com ameaças de boicote, ameaças de investidores e a reprodução de um modelo predatório de exploração da enorme riqueza encontrada na Amazônia.

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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